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Clarisse e Alex pt6 - Final

Olá a todos! Cheguei para postar o último capítulo dessa minissérie que surgiu meio que de improviso mas que foi muito bem recebida aqui no Kono-ai-Setsu, MAS, antes de mais nada, um breve pedido de desculpas pelo atraso (XD)

Pois é, pois é, eu sei que estou umas duas semanas atrasada com esse capítulo. O pior é que eu corri que nem uma louca e consegui escrever a tempo naquela semana! Só que por pura falta de organização minha não consegui vir aqui para fazer essa postagem. Incompetência, eu sei, mas espero que vocês possam me perdoar diante do texto da parte final dessa história.

Sim, parte final, vocês já leram três vezes até chegar aqui. Tudo o que é bom termina (e o que é mediado também, vamos ser mais modestos né) então, até segunda ordem, a história de Clarisse e Alex vai chegar a sua conclusão nesta parte. Prefiro que seja dessa forma do que ficar alongando e dificultando as coisas para as personagens quando já havia traçado uma rota certa para sua resolução.

Espero que esta sexta e até então última parte dessa simplória história de romance seja do agrado de quem acompanhou o enredo até aqui. Da minha parte fica uma grande alegria em ter criado e trabalhado com personagens tão interessantes quanto as três mais centrais da trama (Alex, Clarisse e, é claro, Jeniffer [#teamJenifer]).

Tenho planos para, logo que esteja livre do original que estou escrevendo em maratona, volte a trazer contos para vocês aqui do KaS. Na real eu já tenho um material aqui, mas ele está reservado para projetos yurísticos um pouco mais ambiciosos (detalhes: no dia em que eu puder dar mais detalhes!)

É isso. Agradeço de coração aos leitores do blog, em especial aos leitores das histórias que trazemos com carinho a todos e, sem nunca esquecer, à equipe KaS, que me dá sempre oportunidade de dividir minhas loucuras ficcionais com vocês!

Boa leitura!

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Clarisse e Alex, final
por Lilian Kate Mazaki


A festa de final de ano na redação estava animada como sempre. Em várias paredes posteres de versões ampliadas da capa da edição especial de final de ano eram exibidos como um troféu simbólico por todo o trabalho desenvolvido pela equipe no período. Era bem verdade que o fato de aquela também ser a última tarde no escritório antes das férias coletivas, que durariam até o fim da primeira semana de janeiro, deixava todos mais descontraídos, mas ainda persistia o sentimento de comemoração pelo dever cumprido nos últimos meses.
Clarisse recebia mais cumprimentos do que o de costume naquelas ocasiões. Seu trabalho como assistente direta do editor-chefe da edição especial lhe rendera uma boa impressão mesmo entre seus colegas mais distantes. A jovem jornalista havia conseguido cumprir sua função dupla de supervisão e ainda produzir conteúdo sem desfazer-se de sua simpatia habitual. Com clareza e tolerância na medida correta Clarisse conseguira sair-se muito bem em um teste que poderia lhe abrir portas apartir próximo ano.
― Clarisse, nós estamos combinando de depois dar uma esticada em um barzinho da zona sul. Não quer vir conosco? ― perguntou Joana, uma revisora baixinha que Clarisse pouco lembrava de ver pela redação.
― Eu? Ah, não vai dar. Eu tenho outros planos. ― respondeu, aproveitando a brecha daquele pequeno "corte" para desvencilhar-se do grupinho formado quase que integralmente pelos mais novos do departamento editorial.
A verdade é que a mulher de cabelos castanhos não estava no clima de descontração da maioria. Pelo contrário, a mente da redatora estava tensa como há algum tempo não ficava. Seus olhos percorriam ligeiros as rodas de conversa, buscando uma figura familiar. Qualquer vislumbre de cabelos pretos já lhe faziam o coração dar um salto sutil no peito. Havia passado os últimos três dias reunindo toda a coragem que jamais tivera durante toda a vida. Sua decisão estava tomada e agora só caçava pela oportunidade de, enfim, esclarecer tudo o que ficara pendente na sua vida desde a faculdade.
Por que logo quando mais queria não conseguia encontrar Alex em lugar nenhum? Seria a Vida uma senhora tão irônica e desdenhosa quanto a misteriosa Jenifer que, depois de aparecer no seu apartamento para sacudi-la no conforto de seus medos, jamais dera notícias novamente?
― Ricardo, você viu a Alex por aí? ― perguntou Clarisse, chegando até o amigo, um dos poucos não envolvido em alguma conversa. Sua atenção estava toda para a tela do smartphone, tanto que ele demorou alguns instantes para perceber que estava sendo chamado.
― Opa, Clari. Eu não vi a Alex não. . . Aconteceu alguma coisa para precisar chamá-la? ― perguntou o homem, num tom desinteressado nada convincente.
― Não. Apenas estranhei que a autora da capa não estivesse em lugar nenhum. ― respondeu Clarisse, ansiosa.
― Conta outra. ― retrucou Ricardo, sorrindo. ― Tem alguma coisa aí e eu quero saber de tudinho. Vocês nem tem se falado há semanas e agora você está procurando-a? Sei, sei. . .
Clarisse tentou parecer irritada, mas a maneira debochada do amigo de falar era demais para manter sua seriedade impecável. Porém a impaciência não lhe permitia ficar naquela troca de provocações típica dos amigos por mais tempo:
― Olha, Ricardo, já vai ser muito difícil falar tudo uma vez, então não tente me fazer dizer tudo antes da hora e para a pessoa que nem deveria estar se intrometendo nos assuntos de suas amigas! ― chiou a mulher, num tom baixo, quase ríspido.
― O-oh. Uma resposta perfeita, Clari. ― debochou Ricardo, com toda a cara de quem confirma as próprias suspeitas. ― Olha, já faz um bom tempo, mas eu lembro de ter visto a Alex conversando com o Valter lá perto da entrada.
Sem esperar nem despedir-se, Clarisse deixou o amigo e partiu na direção que fora indicada. Como o esperado nem Alex nem Valter estavam por ali, mas, sem desanimar, a mulher saiu do do ambiente da redação e adentrou o primeiro corredor de salas individuais que viu. Olharia um por um se fosse necessário.
Talvez ela estivesse exagerando na sua afobação, porém o medo de que perder a coragem e jamais fosse capaz de dar seu passinho para fora do armário que cercava sua vida lhe impulsionava.








Alex fechou a porta da sala de reuniões e suspirou. Estava um tanto relaxada graças à dose mediana de alcool que já consumira em pleno meio de tarde, porém uma leve chatiação insistia em bater no cantinho da cabeça. Não era a primeira vez que passava por uma situação daquelas, mas era sempre uma coisa ruim.
Valter era um bom homem e chefe, no fim das contas. Era uma pena que as coisas tivessem caminhado daquela maneira.
Sem pressa e pensando em escapar da festa e ir direto para casa, Alex atravessou dois lances de corredor até quase colidir de frente com a última pessoa que poderia esperar ver naquele momento:
― Clarisse?! ― exclamou a fotógrafa, mais pelo susto.
― Alex! ― a jornalista pareceu tão aliviada com aquele quase esbarrão desastroso que isso chamou a atenção da morena. ― Estava te procurando a um tempão, sabe.
― Ah é? Eu. . . Eu estava tendo uma reunião de trabalho inesperada. ― disse Alex, apontando para o corredor de onde veio.
― Com o Valter? O que pode ser na véspera das férias? ― perguntou Clarisse, franzindo a testa.
― Não. Nada de urgente. ― desconversou.
― Ah, mas é ótimo que te encontrei. Eu queria muito. . . Falar. . . Contigo.
― Falar? ― repetiu Alex sem entender por um momento e então ela acordou para o significado embutido daquelas palavras. ― Falar?! Ora. . . Eu te disse que podemos conversar a hora que você quiser.
― Sim. Por isso mesmo. ― disse Clarisse, balançando afirmativamente a cabeça. ― Acho que precisamos conversar. Agora.
― Agora? Tipo, agora? ― perguntou a fotógrafa, surpresa. Por instinto ela olhou para os lados e sobre os ombros, precavendo-se da aproximação de qualquer pessoa.
― Isso. Por aqui. ― disse Clarisse, segurando deliberadamente o pulso da outra e puxando-a para a sala de reuniões mais próxima.
Alex ficou sem reação diante daquela iniciativa e deixou-se levar. Quando viu estavam dentro de uma pequena sala com uma mesa elíptica ao centro. Clarisse trancou a porta sem fazer barulho.
As duas mulheres se encararam em silêncio. Clarisse abriu a boca para falar, mas pareceu incapaz disto. Desviou o olhar. Alex puxou o ar, pensando em quebrar o silêncio, mas desistiu antes mesmo de começar. A cabeça desta estava borbulhando constantemente com aquela situação inusitada.
Depois de dias de silêncio e de fossa para ela, agora estavam mais uma vez cara a cara e parecia impossível que aquela situação não se solucionasse enfim, para o bem ou para o mal. A noção dessa realidade fazia as pernas da morena perderem um tanto das forças.
Quanto mais os segundos se arrastavam mais Clarisse parecia perder a capacidade de tomar a iniciativa do diálogo. Percebendo isso Alex decidiu que faria isto. Porém ao abrir a boca a redatora ergueu a mão num gesto claro de pedir que a palavra fosse sua. Porém o tempo voltou a correr sem que nada fosse dito:
― Clarisse. . . ― disse Alex, sem saber muito bem o que dizer a seguir.
― Espera. . . Sou eu que preciso tomar uma atitude aqui. Eu. . . ― começou a mulher de cabelos castanhos, nervosa. Seus olhos brilhavam quando encararam mais uma vez o olhar insistente de Alex.
― Mas. . .
― Ah, que se dane também.
― O q-... ― tentou questionar a fotógrafa, porém sua ação foi cortada por algo que mesmo que sentisse vibrar no ar, não acreditou realmente que aconteceria.
Clarisse avançara para tomar-lhe os lábios. Um beijo suave, quase amedrontrado e que logo se desfez. Alex sentiu seu diafragma se tensionar absurdamente diante do toque, assim como seu ventre. Demorou um par de segundos para que sua pulsação pudesse correponder a um ato tão fugaz:
― C-Clari. . .
― Droga. ― xingou Clarisse, o rosto lívido e os olhos brilhando como nunca. ― É. . . É difícil dizer alguma coisa assim, de primeira.
― É. . . ― concordou a fotógrafa, acolhendo em seus braços a outra que se aproximou de maneira quase inconsciente. ― Talvez. . . Talvez as palavras possam vir depois.
E dizendo isso Alex pode enfim atender ao pedido que tanto tempo morou dentro de si e inclinou-se sobre os lábios de Clarisse, tomando o beijo que tanto povoara seus sonhos de todos aqueles anos.
Esta não resistiu. Tentou retribuir da melhor forma. Tremeu evidentemente quando suas línguas se entregaram àquele momento que no fundo ambas aguardaram com tanta ansiedade. Alex podia sentir as mãos de Clarisse nos seus ombros e nuca. Teve que controlar a respiração para não deixar seus sentidos levarem-se por completo naquele instante.
Engraçado, Alex pensou em algum lugar distante da sua consciência enfraquecida. Engraçado como aquele beijo parecia tão forte como se fosse ainda o primeiro que experimentasse com outra mulher. Talvez por ser aquele o primeiro com a mulher que sempre desejara beijar.
Alguns longos minutos depois as duas enfim findaram aquele toque. Mantiveram-se unidas pelo abraço, encarando a expressão leve e maçãs ruborizadas da outra, com leves sorrisos brotando espontaneamente:
― Me desculpe ser tão idiota. ― disse Clarisse. ― Todo esse tempo eu só compliquei o que poderia ter sido simples desde o começo.
― Está tudo bem, Clari. ― respondeu Alex, extasiada com o momento. ― Cada um tem seu tempo. Você tinha o seu.
Não precisavam dizer mais do que aquilo. Deixaram-se emudecer por mais uma dúzia de beijos ternos e desejosos. Seus sentidos completamente voltados para o momento.
Talvez tenha se passado metade de uma hora, tentou mensurar Alex quando retornaram à realidade. Pouco a pouco, depois do momento de êxtase, os pensamentos mundanos retornavam ao seu topor:
― Não parece certo. ― comentou Clarisse. Alex franziu a testa com indagação. ― Não, não isso. Digo que não parece certo duas colegas de trabalho tendo este tipo de comportamento em uma sala de reunião da empresa. ― apesar do comentário pertinente, Clarisse não tinha a expressão de quem realmente se preocupava com aquela questão.
― Mas. . . ― começou Alex, lembrando de algo importante. ― Nós não somos mais colegas de trabalho, Clari.
― Como assim? ― perguntou a redatora, sobressaltando-se. Antes de responder, Alex indicou para que saíssem dali. As duas retornaram ao corredor e começaram uma lenta caminhada sem muito destino.
― Eu pedi demissão hoje cedo. ― explicou a morena. ― Antes de nos encontrarmos eu estava falando ao Valter pessoalmente sobre isso. Achei que seria o certo.
― Mas por quê? Isso é por causa. . . Por causa de nós?
― Um pouco. ― admitiu Alex. ― Mas também é porque a Jenifer me arranjou um trampo ótimo na editora onde ela trabalha. Ela conseguiu uma promoção e com isso pode chamar alguém para completar equipe.
― Jenifer. . . ― disse Clarisse, um tanto reflexiva. ― Então você está indo para a editora concorrente. ― Eu não consigo imaginar a Jenifer como diretora de arte.
― Pois é. ― concordou Alex, percebendo depois o que escutara. ― Espera, você conhece a Jenifer?!
― Longa história, Alex. Outra hora te explico.








As mulheres tomaram o rumo dos elevadores, deixando a festa de encerramento de ano para trás. Já na saída do prédio as duas pararam, sem muito rumo:
― Será que você quer ir com calma? Eu posso te chamar pra almoçar amanhã ou alguma coisa assim. ― sugeriu Alex, rindo-se. Estava tão aliviada agora que o peso da incerteza se fora que seu senso de humor melhorara muito.
― Você está achando que está lidando com uma lésbica do colégio ou o quê, Alex? ― perguntou Clarisse, num tom cômico de indignação.
― Nossa, já percebi que não. Lésbicas de colégio além de serem ilegais de se ter algum envolvimento hoje em dia, não são muito de falar abertamente a "palavra com L".
― Foi a Jenifer quem me disse que precisava começar perdendo o medo de falar isso, se queria me livrar das "amarras". ― explicou Clarisse.
― De novo a Jenifer. . . ― disse Alex, num tom meio enciumado.
― Nós podemos ir beber alguma coisa aqui perto e daí eu te explico essa parte surreal dos acontecimentos. ― disse Clarisse, ignorando a crise da outra, divertindo-se com a expressão de assombro da outra.
― E. . . depois?
― Depois nós decidimos isso. Não é melhor assim?
― Concordo. ― disse Alex, com um sorriso de lado. Abençoando com todas as forças o momento em que retornara para a capital.






[FIM]


Extra


A campainha soou pela terceira vez antes que enfim a porta fosse aberta. Tiago Siqueira abriu a boca para falar, mas diante da imagem que viu perdeu completamente as palavras no caminho:
― Pois não? ― perguntou Alex, que vestia uma camiseta desbotada com tema de jogos da era 8-bits e um shorts.
― A-Aqui não é mais o apartamento da Clarisse? ― perguntou o homem engravatado, sem conseguir desfazer-se da expressão assombrada.
― É sim. A Clari está no banho agora. ― respondeu Alex. ― Você é amigo dela? Pode entrar para esperar se quiser.
― Não, não precisa. ― respondeu Tiago. ― Eu só estava passando e decidi dar um oi. Estou muito ocupado na verdade.
― Hm. . . ― gruniu Alex, olhando o homem de aparência impecável de cima à baixo, como se o avaliasse. ― Seu nome é. . . ?
― Ah sim, desculpe. Tiago Siqueira, advogado. ― disse o homem, extendendo a mão e sendo retribuído.
― Alex Mendes, fotógrafa e designer de vez em quando. ― disse a morena. ― Acho que a Clari já me falou de você. . .
― B-Bom, é melhor eu ir andando! ― disse Tiago, cortando deliberadamente o rumo da conversa. ― Foi um prazer, er, Alex.
Tiago atravessou o corredor de volta em movimentos um tanto robóticos, rígidos. Alex ficou observando-o até desaparecer na entrada do elevador:
― O Ricardo não pode estar falando sério sobre esse cara. ― resmungou Alex para si, fechando a porta do apartamento.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Posted by LKMazaki

Colocando as cartas na mesa (Clarisse e Alex pt5)

Olá a todos! Parece que foi ontem que postei a quarta parte da história de Clarisse e Alex aqui (um título seria bom, não? Mas deixa quieto...) e já é hora de mais dessas duas aqui neste blog! Na verdade, o conto de hoje poderia nem ser classificado como Clarisse e Alex, já que a dupla em foco não é bem esta mas. . . Enfim, vocês já vão ver. Será um bom capítulo para quem havia adorado a participação da Jenifer, lá na segunda parte!

Gostaria muito de agradecer a todos que estão acompanhando a história. Nós apreciamos e respeitamos todos os comentários, críticas e sugestões com muita alegria, pois nosso objetivo é, dentro das nossas possibilidades, sempre melhorar sem perder nossa identidade. Espero que continuem gostando desta saga que foi crescendo enquanto era publicada aqui no KaS.

E chega de enrolação. Vamos a mais uma parte da história!

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Colocando as cartas na mesa
por Lilian Kate Mazaki


O som da televisão era tudo o que preenchia a pequena sala do apartamento de Clarisse. O canal esportivo transmitia um campeonato de ginástica olímpica ao vivo dos Estados Unidos. Em um dos breves intervalos entre a realização de exercícios em diferentes aparelhos a jornalista aproveitava para separar algumas cervejas guardadas no freezer, passando-as para uma pequena caixa de isopor. Pretendia deixar a recipiente sobre a mesa de centro, entre o sofá e o televisor, para não mais precisar se levantar até o final da competição.
Era quarta-feira e beber sozinha em casa estava longe de ser um hábito seu, mesmo durante noites quentes do verão, porém seus ânimos pediam uma dose generosa de álcool.
Desde o "desastre", como apelidara conversa com Alex na Cafeteria Vintage, a redatora estava sentindo-se a pior das pessoas. Era uma culpa tremenda pensar que deveria ter deixado sua amiga mal com as palavras covardes que jogara sobre esta.
Claro, as duas ainda trabalhavam no mesmo andar do prédio da editora. Alex passava por ela e Ricardo todos os dias, cumprimentando normalmente. Porém a fotógrafa recusara os convites para almoçar que Ricardo lhe fizera na primeira metade da semana. Alex também vinha saindo pontualmente às quatro e meia da tarde, sem dar chance para ser convidada para um happy hour. Clarisse também não a havia visto sair para almoçar no horário comum, como vinha fazendo desde que entrara para o departamento.
Sim, Alex estava claramente a evitando. A única comunicação entre as duas havia se dado ainda no sábado da dita conversa, quando a morena enviara uma mensagem curta pelo celular:
"Quando estiver segura, vamos conversar de novo."
― Eu sou uma imbecil. ― disse Clarisse a si mesma, atirando o saco de gelo vazio na lixeira da cozinha estilo americano do seu apartamento. Com ambas as mãos ela ajeitou as cinco latas de cerveja no gelo quando ouviu o toque da campainha.
Aguardou, secando as mãos em um pano sobre o balcão. Não conseguia imaginar quem poderia ser. Talvez Ricardo, o rapaz era expert em detectar quando Clarisse estava ruim e costumava aparecer nesses momentos para distraí-la. Alex não tinha ainda seu endereço, então ela descartou de automático essa possibilidade.
Outro toque na campainha. Clarisse caminhou até a entrada e viu uma mulher desconhecida pelo olho mágico. Abriu a porta com uma expressão interrogativa:
― Ah, olá. ― cumprimentou a desconhecida. ― Você é Clarisse, certo?
― Sim. E você? ― perguntou a jornalista, observando a figura da outra de cima a baixo.
― Jenifer. Sou uma amiga da Alex. ― disse a designer. Clarisse não conseguiu deixar de notar o conjunto jeans escuro de saia e jaqueta, uma blusinha com temas tecnológicos por baixo que esta vestia.
Clarisse abriu e fechou a boca duas vezes sem dizer nada. Não poderia ser a visita mais inesperada, ela pensou de imediato:
― Será que poderia me convidar para entrar? Gostaria de ter uma conversa não muito demorada, mas que seria melhor não ter no corredor do seu prédio. ― pediu Jenifer, portando um sorriso perene que incomodava um pouco a outra.
― Claro, sim. Por favor. ― respondeu Clarisse, abrindo a passagem para a outra que prontamente entrou. Clarisse fechou a porta e virou-se para a convidada. Esta já caminhava até o balcão da sua cozinha.
― Ora, eu ia mesmo perguntar se não tinha alguma coisa para tomarmos. ― disse Jenifer, puxando um dos banquinhos do lado externo do balcão e sentado-se. Sem cerimônia ela alcançou uma das latas de cerveja e abriu, catando também um copo para servir-se.
― Ah. . . ― Clarisse não sabia como reagir àquela invasão feita com tanta naturalidade. Não era do seu feitio ser grosseira, mas não tinha amigos tão folgados assim. ― Quer alguma coisa para comer? ― perguntou, de modo automático.
― Hm? Não, não. ― disse Jenifer, depois de um longo gole de bebida. ― Só senta aqui do lado. Não gosto de enrolar, então vamos direto ao ponto. ― e apontou para o outro banquinho.
Clarisse sentou e Jenifer, catando outro copo limpo, serviu-lhe a metade restante na lata aberta. A redatora não bebeu, apenas ficou fintando a outra:
― Então. ― começou Jenifer, parecendo desapontada que Clarisse não houvesse bebido. ― Como deve imaginar, estou aqui por causa da Alex. A minha questão é: você sabe exatamente por que estou aqui?
Clarisse hesitou antes de falar:
― Não quer que eu me aproxime da Alex? ― disse, expondo a única coisa que veio ao seu pensamento. Para sua surpresa Jenifer deu uma gargalhada de divertimento puro àquelas palavras.
― Claro que não! Tá me achando com cara de alguma vilã de novela das vinte e uma? ― riu-se a mulher de cabelos tingidos. ― Ou você é muito negativa ou estou precisando mudar a cor da cabeça. Talvez um rosa ou azul celeste. Azul é uma boa, na verdade.
― Mas então. . . ― começou Clarisse, confusa, porém sem conseguir formar a pergunta.
― Eu sou amiga da Alex. Tá certo que a gente às vezes dorme juntas e fazemos um sexo excelente, mas ainda assim somos amigas! ― disse Jenifer, pausando para um gole de cerveja. ― Sabe, garota, eu estou torcendo para que a Alex fique numa boa. É por isso que estou aqui.
― Como é? ― perguntou Clarisse, ainda mais confusa.
― Olha, Clarisse, é assim: eu senti que nos últimos dias alguma coisa tem deixado a Alex meio chateada e presumo que isso queira dizer que as coisas não estão caminhando muito bem, ou muito rápido entre vocês. Estou errada?
― Er. . . Entre nós? Mas nós não. . .
― Exato! Vocês não! ― exclamou Jenifer. ― Me diz a real Clarisse: você é afim da nossa Alex, não é?
― Ah. . . E-Eu. . .
― Putz, tá na cara que você é um daqueles casos severos de "me deixe em paz no meu armário!" ― disse a designer, apertando os braços contra o próprio corpo, numa imitação de pessoa presa em um lugar apertado. ― Gata, você já tá perto dos trinta e ainda tá nessa?!
― Eu não. . . ― tentou argumentar Clarisse, irritada e desesperada com aquela pressão, mas Jenifer não iria deixá-la falar.
― Não? Vai querer me convencer que não tem certeza de que é lésbica, é isso?!
― S-Se me deixar falar, Jenifer, eu. . . ― tentou começar Clarisse, porém ela acabou se calando quando a outra tocou nos seus lábios com o indicador para mantê-los fechados.
― Não preciso escutar esses seus argumentos, fofa. Você está sendo mais óbvia do que "blockbusters hollywoodianos". ― disse Jenifer, encarando-a mais de perto. ― Quando eu ver que você não vai usar uma dessas frases feitas que nós duas sabemos que não refletem em nada sua realidade eu vou te deixar falar.
Dessa vez Clarisse não tentou contra-argumentar de imediato. Esperou e Jenifer tirou o dedo da frente dos seus lábios e serviu-se de uma uma lata de cerveja:
― Então? ― perguntou esta, depois de um gole, olhando de lado para a jornalista.
― Droga. ― disse Clarisse, num suspiro, e tomou todo o seu copo de uma só vez. ― Eu só estou confusa com tudo isso. Nunca pensei em mim como uma. . . A Alex foi a única por quem eu já senti isso e, pra dizer bem a verdade, eu sequer havia parado para pensar no que era isso, mesmo depois de tanto tempo.
― Lésbica.
― O que? ― perguntou Clarisse, sem entender.
― Lésbica. Você pulou a palavra. Tem que começar perdendo o medo de dizer. ― explicou-se a designer. ― Me diz uma coisa: você teve alguns caras nesses anos, não?
― Sim, eu. . .
― E sentia que faltava alguma coisa, não? ― perguntou Jenny, observando o seu copo vazio pela metade, distraída. ― Minha primeira vez foi com um cara. Eu só queria acabar aquilo e ir pra casa.
Clarisse não teve reação por um momento. Achava intrigante como aquela até então desconhecida conseguia despertar sua simpatia com aquela sinceridade bombástica:
― Não era tão ruim assim.
― Mas também não era tão bom assim, aposto.
― Talvez.
Sem dizer nada, Jenifer levantou do banquinho e rodeou Clarisse, passando os braços pelos seus ombros e puxando-a:
― Você é fácil de entender, Clarisse. ― disse, falando mais baixo, perto da orelha direta da outra. ― A única diferença entre nós é a sua incrível capacidade de acomodar-se em uma vida que no fundo sabe que não serve pra você.
― N-Não é assim tão simples. ― murmurou Clarisse, mas Jenifer riu-se de leve.
― É mesmo? E como você vai argumentar que não é uma pessoa simples de entender se eu sei que nesse exato momento você está prestando mais atenção na sensação dos meus peitos pressionando as tuas costas do que no que eu falo? ― questionou a designer e Clarisse afastou-se desajeitada, sem porém conseguir disfarçar a falta de jeito.
"Olha, Clarisse, eu vou ser bem direta agora: desde que conheci a Alex eu sei que ela é apaixonada pela colega de faculdade. Confesso que acho quase doentio alguém conseguir manter-se apaixonado mesmo passando anos sem nem falar com a pessoa, mas isso não vem ao caso."
"A questão é que eu não quero que você faça a nossa Alex sofrer. Ela já passou maus bocados durante todo esse tempo. Não é agora que enfim vocês se reencontraram e blá-blá-blá que você vai amarelar e fazer ela ficar mal."
"Você é uma de nós e sabe disso. Então, se está assustada ou qualquer dessas outras coisas que gente que fica no armário diz que sente, apenas vá e fale abertamente com a Alex."
Clarisse estava atônita com aquela torrente definitiva de verdades vindas daquela mulher. Jenifer percebeu aquele momento de suspensão da outra e tomou uma atitude radical: deu três passos à frente e segurou os ombros de Clarisse e roubou-lhe um beijo:
― E-Ei! ― exclamou Clarisse, chocada. ― É assim que quer ajudar sua amiga?!
― Só estou te dando o empurrão, filha. ― disse Jenifer, com um sorriso. ― Não precisa se preocupar. Mesmo que fosse fácil te levar para a cama eu jamais tiraria sua primeira vez da nossa Alex.
Clarisse teve vontade de sumir diante daquela declaração tão clara da outra. Sentiu-se quente e teve certeza de que seu rosto deveria estar em brasas:
― Heh, você é tão fofa. ― comentou Jenny. ― Dá pra entender porque a Alex é tão caidinha por você.
― E-Eu. . . ― gaguejou Clarisse que não conseguia esquecer que ainda estava presa nos braços da outra.
― Hm? ― já Jenifer não parecia se importar muito em manter um diálogo amistoso de uma distância tão curta.
― Eu não consigo te entender, Jenifer.
― Ora, eu só sou uma pessoa sincera e prática. ― disse a outra, abrindo ainda mais o sorriso. ― Bom, melhor te soltar antes que seja você quem queira ser levada para a cama, né. ― continuou, enfim livrando Clarisse do seu abraço. ― Sabe, tem uma garota que estou saindo agora. . . Eu fui a primeira mulher dela e, bom, é mesmo uma coisa bem bacana. . . Ensinar como duas garotas fazem para se divertir sozinhas, enfim. . . Bom, acho que a Alex vai te ensinar isso muito bem.
Clarisse mais uma vez não teve palavras para comentar aquela pequena revelação dita com tanta casualidade. Jenifer por sua vez alcançou seu copo sobre o balcão e o esvaziou antes de tomar o caminho da saída. Sem esperar ser acompanhada pela dona da casa destrancou a porta e só virou-se quando Clarisse enfim disse algo:
― Como você conseguiu meu endereço? ― foi o que esta perguntou. Jenifer abriu seu sorriso mais uma vez.
― Se você fosse uma pessoa mais "pra frente" como eu, saberia que ter papo pode te levar a qualquer lugar. ― foi o que respondeu.
― Você quer dizer uma pessoa atirada, não?
― Atirada? Nada disso. Não é só porque eu tenho coragem de dizer coisas como: "Eu sei que você vai ter um sonho molhado comigo essa noite, sua virgem de mulheres," que posso ser considerada atirada.
― E-Ei! Eu não. . .
― Até outro dia, Clarisse. ― despediu-se Jenifer, cortando a outra mais uma vez, fechando a porta em seguida.




Clarisse olhou para a calmaria reestabelecida na sua sala e suspirou. Sentou-se em um dos banquinhos e olhou para o copo vazio. Sua mente começou a reviver algumas passagens da conversa de pouco antes:
― Droga, me apertar e beijar também foi apelação, sua vaca.

Fragilidade (Clarisse e Alex parte 4)

Olá a todos! Cá estamos mais uma vez, agora trazendo a quarta parte da história de Clarisse a Alex (que já está bem mais para minissérie do que para contos, vamos concordar). Gostaria, antes de mais nada, de deixar meu agradecimento a todos os que tem acompanhado esta singela história.

Nesta parte a trama vai começar a entrar em seu momento de tensão mais evidente, ainda que esta presente parte seja apenas o início dessa reviravolta para a trama das duas antigas colegas que nunca confessaram a paixão mútua que sentiam.

Fragilidade. . . Esse título já diz muito sobre o enredo.

Boa leitura a todos! Como sempre, críticas e comentários são sempre bem vindos. Tentaremos sempre melhorar dentro do possível e plausível.



Fragilidade
por Lilian Kate Mazaki


O clima estava ótimo na tarde daquele sábado. Para Clarisse tudo parecia ainda melhor agora que enfim a edição especial de final de ano estava encerrada e encaminhada para a gráfica. Qualquer encrenca agora iria ser tratada apenas pelo departamento de diagramação, não mais edição, então ela poderia enfim respirar e voltar a desfrutar da sua rotina mais calma. A redatora chegava a sentir-se um tanto perdida enquanto caminhava despreocupada por um lado da cidade pouco conhecido seu, de repente livre de todas as pressões de antes. Uma paz não tão verdadeira, pois desaparecia cada vez que ela se recordava do que a levara àquela avenida.
Não demorou muito para avistar o discreto letreiro próximo a uma movimentada esquina. Lia-se "Vintage - Cafeteria" e ela teve certeza de ter encontrado o local correto. A fachada, com textura de madeira e vidros escurecidos não poderia ser encontrada duas vezes naquelas redondezas, tinha certeza. Quando entrou o badalar da pequena sineta à porta misturou-se ao som ambiente, um jazz distante, imergindo seus sentidos de imediato ao clima do estabelecimento.
― Boa tarde, seja bem vinda. ― cumprimentou uma mulher jovem do outro lado do balcão também bem caracterizado.
― Olá, boa tarde. ― respondeu Clarisse. ― Por acaso saberia me dizer se tem alguém me aguardando? Meu nome é Clarisse.
― Oh, claro. ― afirmou a garçonete, abrindo um sorriso mais natural. ― Uma moça está aguardando sua chegada a uma meia hora, mais ou menos. Pode subir as escadas, ela está em uma mesa ao fundo. Logo irei até vocês para anotar seus pedidos.
― Está bem. Obrigada. ― agradeceu Clarisse, dirigindo-se às escadas indicadas pela funcionária.
O segundo piso do estabelecimento era bastante comprido, tomado por diversas mesinhas quadradas e alguns televisores nos cantos das paredes. Imagens do que parecia um filme dos anos 70 eram exibidos nas telas, sem áudio. Não foi difícil encontrar Alex, pois ela era a única ali, sentada de lado para a entrada, distraída com um tablet. O nervosismo borbulhou no estômago de Clarisse nos segundos que levou para alcançar a mesa:
― Alex? ― chamou, incerta.
― Hm? Ah, Clarisse! ― exclamou a fotógrafa, despertando da imagem no seu portátil. ― Senta, eu só estava terminando de checar uns e-mails de uns freelas aí. ― explicou.
― Ah sim. ― disse Clarisse, sentando-se de frente para a outra.
Logo a garçonete apareceu para anotar os pedidos. Clarisse pediu um capuccino sem teçer comentários, já Alex fez questão de comentar como ouvira falar daquele lugar:
― Sabe, foi uma amiga que me indicou este lugar. Ela me disse que sempre vem aqui no meio da semana. ― disse enquanto vasculhava o cardápio.
― É mesmo? Ficamos sempre felizes em ver nossos clientes falando sobre o "Vintage" para seus conhecidos. ― comentou a garçonete que chamava-se Suzie. ― Espero que vocês gostem e também se tornem nossas frequesas regulares. Temos algumas programações especiais nas noites de sexta. Depois trago os folders para vocês.
― Obrigada, Suzie. ― agradeceu Clarisse.
― Sei que vamos gostar. A Jenifer tem um ótimo gosto. ― disse Alex, devolvendo o cardápio. ― Eu vou querer uma soda natural, por favor.
― S-Soda? Claro, já trago o pedido de vocês. ― disse a garçonete saindo apressada. Teria sido impressão de Clarisse ou algo a tinha incomodado?
― Então essa é a Suzie. . . ― comentou Alex.
― Você já a conhecia? ― perguntou Clarisse, intrigada.
― Não. É que a Jenifer disse que estava tentando convidar "a Suzie do Vintage" para sair. ― explicou Alex, com um sorriso de divertimento, ainda fintando o local onde a outra desaparecera para o andar inferior.
― Ah. . . ― Clarisse tentou não parecer tão surpresa quanto realmente ficou ao ouvir aquele comentário.
Clarisse acabou perdendo boa parte da sua parca capacidade de tomar iniciativa durante os minutos em que as duas esperaram suas bebidas. Depois de servidas e novamente sozinhas foi Alex quem resolveu quebrar aquele silêncio precoce:
― Então, aliviada com o final da edição? ― perguntou a fotógrafa.
― Sim. ― respondeu Clarisse, mas percebendo que iria soar muito seca se só dissesse aquilo emendou. ― Mais uma semana e acho que teria um colapso.
Alex riu do comentário:
― Acredito. Foi a primeira vez que fez esse tipo de trabalho como assistente direta do editor-chefe, não?
― Sim, foi inesperado.
― O Valter parece um tiozinho bacana, mas deve saber ser chato quando os prazos são curtos. ― supôs Alex, franzindo a testa e voltando os olhos para o alto, numa guisa cômica de reflexão que arrancou uma risada da outra.
A conversa das duas começou a fluir melhor conforme foram esvaziando suas bebidas. Logo várias histórias cômicas da faculdade surgiram para fazê-las esquecer a seriedade. Não havia como manter a compostura quando diversas confusões envolvendos as duas e Ricardo, geralmente impulsionadas pelo álcool, eram relembradas. A certo ponto Clarisse sentiu que poderia mudar um pouco o foco da conversa:
― Então, como foram esses anos fora? ― perguntou ela.
― Ah. . . ― começou Alex, parecendo buscar a melhor maneira de se expressar. ― Acho que posso resumir dizendo que foi tudo o que eu precisava. ― disse.
― Dizem que passar um tempo longe de casa nos faz amadurecer. ― comentou Clarisse.
― Por aí. ― concordou a fotógrafa. ― Digamos que eu precisava de espaço para me descobrir e me entender.
― É mesmo?
― Uhum. Logo que cheguei lá conheci a Jenifer e, bom, ela me deu uma grande ajuda, podemos dizer. ― disse Alex, com um tom sugestivo.
― Vocês duas. . .
― Sempre tivemos uma amizade colorida, se é isso que quer saber, Clari. — disse a morena, sem meias palavras. ― Não que ela tenha sido a única. Fomos juntas a muitas festas lgbt nas cidades vizinhas e eu conheci muita gente.
― Ah sim. ― disse Clarisse, desconfortável.
― O Ricardo nunca te convidou para alguma festa dessas? ― perguntou Alex.
― Algumas vezes, mas nunca aconteceu de eu ir mesmo. ― respondeu Clarisse, encarando a taça de capuccino com mais dedicação do que o necessário.
― Hm. . .
Clarisse sentiu toda a sua coragem esvair com aquele rumo de conversa. Alex percebeu com clareza o que passava com a outra, mas não tinha mais a paciência de outrora para fazer um movimento de recuo. Ao invés disso ela decidiu seguir com a conversa para onde realmente queria chegar:
― Sabe, às vezes eu paro para pensar como tería sido se eu não tivesse me mudado. ― disse, sem tirar os olhos da outra, que parecia agora decidida a observar a decoração ao invés de retribuir-lhe.
― É uma dúvida que nunca poderemos esclarecer, não é mesmo? ― falou Clarisse.
― Verdade. ― concordou Alex, a voz um pouco mais rígida do que gostaria. ― Mas agora temos a chance de saber o que acontecerá agora que voltei.
Clarisse engoliu saliva e umideceu os lábios:
― Não sei se quero saber, na verdade. ― disse, enfim encarando de volta a outra. Alex ergueu as sobrancelhas.
― Como assim?
― É que. . . ― começou a jornalista, ansiosa. ― Me assusta um pouco, depois de todos esses anos, pensar em reviver algumas coisas que nunca fui capaz de entender.
Era aquilo, pensou Alex. Estava enfim falando do que de fato havia as trazido até ali. A fotógrafa não esperava ouvir algo tão sincero assim da outra, mas não iria perder o foco:
― Você é do tipo de pessoa que prefere ficar sempre presa ao que já entende? ― perguntou.
― Talvez. ― confessou Clarisse, desviando o olhar para o restante do seu capuccino. ― Se eu não fosse tão covarde não teria ficado aqui todo esse tempo.
― Como assim? ― perguntou Alex pela segunda vez, novamente surpresa.
― Logo que eu e o Ricardo entramos na editora surgiu uma vaga no interior. Eu queria ter aceitado aquela vaga. Pensei em como você ficaria surpresa quando me visse. Mas então. . . Eu me acovardei.
"Pensei na saudade que meus pais iria sentir se eu estivesse longe. Não poderia deixá-los, foi o que pensei." disse Clarisse, sem conseguir esconder a amargura na voz e no olhar, agora perdido em uma das telas onde um filme em preto e branco agora era exibido.
"Eu também tinha um namorado, estávamos quase a um ano juntos. Estranho que uma semana depois de perder aquela vaga eu chutei ele quando ele me pediu em casamento."
― Clari. . . ― disse Alex, tentando digerir aquelas revelações.
― Engraçado que até pouco tempo atrás eu lembrava com amargura dessa ocasião e sequer era capaz de entender o motivo de tanto remorso. ― continuou a redatora, ainda com a voz pesada.
Por um momento Alex ficou sem reação àquilo. Seguindo apenas o instinto ela esticou a mão direita, colocando-a sobre a esquerda de Clarisse que pareceu despertar pelo toque, a encarando:
― Chega. Isso já passou. ― disse Alex.
― Isso já, mas. . . ― Clarisse desvencilhou a mão e levantou, para o temor da outra. ― Eu ainda continuo sendo a mesma pessoa covarde daquela vez. Sinceramente, Alex, não sei como sair desse labirinto onde me enfiei.
Antes que pudesse reagir, Alex viu Clarisse desaparecer na escada. A jornalista sequer despediu-se da garçonete sempre simpática e saiu fechando a porta do Vintage com um pouco mais de força do que o necessário. No andar de cima, tendo apenas o som fraco do jazz aos ouvidos, Alex sentou e bateu os punhos com força no tampo da mesa:
― Agora eu estou aqui, sua idiota! ― rosnou ela, frustrada, ao vazio do ambiente acolhedor da cafeteria.

terça-feira, 23 de setembro de 2014
Posted by LKMazaki

[Conto] Para além das tolas vontades (Clarisse e Alex pt3)

Olá a todos! Cá estamos com a terceira parte da história de Clarisse e Alex aqui no Kono-ai-Setsu. Gostaria de agradecer ao feedback positivo nos comentários e diretamente a mim nas redes. Todos vocês que deixam opiniões me motivam muito a trazer mais partes da história.

Sobre esta terceira parte acredito de verdade que seja uma das menos empolgantes da história inteira, mas é também fundamental para formar todo o contexto do enredo envolvendo Alex, a fotógrafa descolada, e Clarisse, a redatora com uma capacidade gigantesca de enganar a si mesma sobre seus sentimentos.

De qualquer modo, espero que apreciem mais esta história. Daqui a duas semanas, tem mais.

Boa leitura!



Para além das tolas vontades
por Lilian Kate Mazaki




Tiago Siqueira era um jovem e promissor advogado. Trabalhava nove horas por dia no escritório montado por seu pai, a mais de vinte anos. Seus ternos estavam sempre alinhados e sua mesa mantinha-se limpa e organizada. Seus arquivos digitais e físicos eram os mais bem estruturados do escritório e sua secretária era a mais jovem entre as três que serviam aos atuais seis advogados da associação. Sempre sério e observador em ambiente de trabalho era também um homem saudável, praticante amador de tênis ao qual se dedicava pelo menos em três ocasiões da semana. Seu pai, falecido a alguns anos, sentiria orgulho dele, tinha certeza. Um profissional competente que nos fins de semana visitava a mãe e irmã no interior.
Um homem perfeito, ou quase.
A grande frustração de Tiago era a vida amorosa. Depois de uma juventude cheia de idas e vindas ele enfim havia se apaixonado e vivido o amor, aos vinte e dois anos. Uma mulher inteligente e de bom gosto, bela e gentil que o encantara de todas as formas que é possível fazer a um homem. O advogado planejou pedí-la em casamento, mesmo que eles mal tivesse completado um ano de namoro. Para ele não haviam motivos para esperar pois não seria possível encontrar tal sentimento de admiração novamente por outro alguém. Porém isso não dependia apenas da sua vontade.
Clarisse recusara seu pedido de casamento. Mesmo ele tendo se preocupado em levá-la ao restaurante mais caro e romântico da cidade, pedido o melhor vinho e escolhido a mesa mais discreta. Ela não apenas recusara como também rompera o relacionamento deles na sequência.
Tiago jamais esquecera o momento. Clarisse falara qualquer coisa que soara como um “não é você, mas eu não estou pronta para isso”, levantara e dissera “melhor pararmos com isso por aqui” e saira sem dizer mais nada. Não havia sequer lamentação nos olhos daquela que ele já considerava o grande amor da sua vida.
Mesmo que já tivesse passado quase três anos desde aquela noite de fracasso ele ainda se perguntava onde afinal havia errado. Seria sua culpa que as coisas tivessem terminado daquela maneira tão abrupta?
― Tiago? Você tá dormindo, cara? ― chamou uma voz distante. ― Cara?
Tiago despertou das suas lembranças. Levou alguns segundos para reconhecer o barzinho e também o homem sentado no banco do outro lado da mesinha de madeira. Ricardo o observava com uma expressão perplexa:
― Ah, desculpa. ― disse ele finalmente. Só então suas lembranças de ter chamado o antigo conhecido para tomar umas cervejas. ― Eu acabo ficando meio distante quando lembro desse assunto.
― Se você fica mal quando pensa no que aconteceu, por que me chamou aqui para falar da Clarisse de novo? ― perguntou Ricardo, servindo o copo já vazio do advogado. Aquela era apenas a segunda cerveja que tomavam.
― É que eu não consigo esquecer! Eu preciso entender para conseguir superar! ― exclamou Tiago, pegando o copo e bebendo todo o conteúdo de uma só vez. Ricardo suspirou e o serviu de novo antes de pegar seu próprio copo.
― Olha, eu já tô cansado dessas suas lamentações infinitas. ― começou Ricardo, com a testa franzida. ― Já fazem o que? Quatro anos? A Clarisse já teve meia dúzia de outros namorados e você ainda está lamentando aquela noite!
― Eu sei que você é a única pessoa que pode me esclarecer tudo o que aconteceu, Ricardo. ― acusou Tiago, apontando o indicador para o outro. ― Você é o “melhor amiguinho viado” da Clarisse. É óbvio que você sabe tudo sobre ela!
― Cara. . . ― começou Ricardo, perdendo a paciência bem rápido. ― Não me importo que me chame de viado, afinal é verdade. Só não use essa palavra com esse tom debochado.
― Desculpa, desculpa! Tô só irritado! Só isso! ― esbravejou Tiago, desabotoando os punhos da camisa com irritação. Porém ele já havia feito o jornalista perder o controle sobre as palavras.
― Pra começar nós dois nos conhecemos numa festa gay, você deve se lembrar muito bem. Então não é nem justo ficar me chamando de viado assim quando você não é muito diferente!
― Pera lá! ― Tiago também estava perdendo os limites da conversa. ― Isso faz muito tempo! E eu era bi, não gay. Tanto que o amor da minha vida é a Clarisse! Faz tanto tempo que não fico com um cara que estou quase “prescrevendo” desse meu lado.
Ricardo deu uma risada rouca quando ouviu aquilo. Foi uma sorte, pois isso aliviou também um pouco da sua raiva, substituindo pela vontade incontrolável de destruir algumas ilusões do outro:
― Você é a bicha mais sem noção que eu já conheci, Tiago. Tão cega que não é capaz nem de perceber que ninguém deixa de ser viado por “falta de prática” nem de entender de uma vez por todas que você nunca foi o “lance” da Clarisse. ― explodiu Ricardo, falando com o maxilar apertado.
― Opa, opa, opa! O que você disse?! ― surpreendeu-se Tiago, despertando da sua exasperação, tamanho o sobressalto.
― Sobre você ser uma bicha?
― Não! Sobre a Clarisse!
Foi então que Ricardo deu-se por conta do que dissera e numa reação automática deu um tapa na própria testa. Se tinha um defeito que ele não possuia era o de ser fofoqueiro, porém toda a sua lealdade havia desmoronado em um instante de fúria. Agora o estrago estava feito:
― Anda, explica isso aí, Ricardo. ― exigiu Tiago.
― Cara. . . ― começou Ricado, coçando atrás da orelha e se enclinando para trás. O redator considerou em sair correndo, porém sabia que o outro tinha o físico muito mais preparado e terminaria por alcançá-lo. ― A Clarisse é completamente gay. As únicas pessoas que ainda não sabem disso são você e ela mesma.
― A Clarisse. . . ― começou Tiago, a boca ficando aberta à guisa de espanto, sem que ele conseguisse concluir a frase. ― Ela. . . Ela. . . Mas. . . Não pode.
― Como assim “não pode”? ― estranhou Ricardo, erguendo uma das sobrancelhas.
― Nós transamos várias vezes. ― disse Tiago, usando um argumento que fez as entranhas do outro revirarem em revolta.
― E parece que ela curtiu tanto que te dispensou sem nem pensar duas vezes. ― atacou Ricardo. ― Se liga, cara!
Tiago balbuciou mais uma série de coisas desconexas, parecendo não conseguir formar um novo argumento sem que algo o destruísse antes de ele poder enunciá-lo. Ricardo aproveitou o momento para esfriar um pouco a cabeça com um copo de cerveja e então retomou a conversa com mais paciência:
― Tem gente como você, Tiago, que fica plenamente satisfeito com as duas coisas. ― disse o redator, sentindo-se um professor de Ensino Fundamental, da aula de sociologia ou qualquer coisa semelhante. ― Mas tem gente como nós, eu e a Clarisse, que mesmo que façam com alguém do outro sexo e mesmo gostando, sempre vai sentir que tem alguma coisa errada. É por isso que somos o que somos.
― Você disse que ela não percebeu isso, não disse? ― perguntou Tiago, enfim conseguindo articular uma sentença completa.
― Na real ela é muito boa de se enganar, é o que eu acho. Às vezes sinto vontade de jogar a verdade, mas fico preocupado com a reação dela. ― confessou Ricardo. ― Me preocupo mesmo. Quanto mais o tempo passar mais difícil pode se tornar pra ela aceitar. A gente vai envelhecendo e adquirindo os preconceitos do mundo.
― E eu nunca suspeitei. ― disse Tiago, parecendo mergulhado mais uma vez em seus devaneios. Estava tentando recordar de qualquer situação onde poderia ter ficado evidente aquele fato, mas nada lhe vinha ao pensamento.
― Será que agora você é capaz de desencanar? ― perguntou Ricardo, depois de acenar para o balcão do bar pedindo mais uma cerveja.
― Acho que sim.
― Sério? Você é mesmo pragmático. ― surpreendeu-se o jornalista.
Os dois homens continuaram bebendo até esvaziarem a terceira garrafa. Não conversaram muito nesse meio tempo. Ricardo permitiu ao outro vagar por sua lembranças em busca de comprovações. Na verdade ele mesmo estava um tanto perdido em devaneios, enquanto fintava o advogado sem disfarce. Quando terminou o último gole de bebida, Ricardo sem aviso levantou-se e atirou algumas notas no centro da mesa, pagando sua parte na conta:
― E sobre aquilo de “prescrever”, acho que você só ainda não encontrou um cara legal que vai te tirar da linha heteronormativa de vez. ― disse, virando e saindo sem se despedir.






Os dias estavam ficando mais quentes com a aproximação do verão. Nas ruas as decorações de natal já começavam a ser vistas. O calendário do comércio era pontual em começar suas campanhas, na segunda-feira seguinte ao Dia das Crianças.
Clarisse estava atribulada com todas as tarefas inesperadas que recebera. Com a saída de um importante editor por motivos de saúde o seu chefe direto havia sido promovido e a redatora, uma das suas pessoas de confiança, ganhara uma série de responsabilidades com relação à edição especial de final de ano da Revista. Ainda que ela estivesse feliz pela oportunidade o peso das novas responsabilidades como assistente direta do novo Editor Chefe estavam a desgastando em demasia.
“Woa! Isso está ótimo, Alex!” Clarisse ouviu a voz familiar do chefe exclamar do outro lado da redação. Sem perceber a redatora parou a escrita de um e-mail e virou o olhar para enxergar o que acontecia. Ela viu a fotógrafa e o editor sentados à mesa deste:
― Sem falsos elogios, Valter. ― disse Alex.
― Não é falso. Era exatamente o que estávamos procurando para a capa. ― disse Valter, um homem de meia idade e já um pouco calvo. ― Só um instante. ― disse, vasculhando com os olhos a redação. Para a surpresa de Clarisse ele sorriu quando cruzou os olhos com os dela. ― Clarisse! Vem aqui mulher! Temos uma nova capa!
Clarisse levantou e cruzou entre as baias o mais rápido possível, apesar do desconforto. Já fazia quase um mês desde que Alex assumira sua função como fotógrafa na editora, porém as duas mal tinham trocado alguns pares de cumprimentos naquele meio tempo. A presença da amiga ainda era algo que desconsertava Clarisse um tanto. Ainda assim esta tentou parecer o mais profissional o possível quando chegou até Alex e Valter:
― Clarisse. Dá uma olhada nisso aqui. ― disse Valter, passando uma folha para a assistente e redatora. ― Me diz se não é perfeito!
― Está ótimo mesmo. . . ― disse Clarisse, observando os detalhes da imagem. ― Você fez a edição, Alex?
― Ah, sim. A gente tem que saber se virar com essas coisas, pra não ficar tão dependente dos designers. ― disse a fotógrafa, sorrindo.
― Está decidido. Não vou fazer outra reunião só para isto. ― sentenciou Valter, animado.
― Mas, senhor, a capa já não havia sido aprovada? Não acho que o Gustavo vá gostar de ser tirado assim. ― alertou Clarisse.
― Ai, ai. Eu sei disso, Clarisse. ― disse Valter, franzindo a testa. ― Eu mesmo vou falar com o Gustavo. A questão é que não podemos deixar de usar uma arte melhor por causa do ego de um dos nossos artistas. Ele é ótimo e vai ter muitas outras capas no futuro.
― Eu só estava alertando, senhor. Também acho que devemos usar esta. ― corrigiu-se Clarisse. Mesmo sem virar-se ela pode sentir o olhar de Alex sobre si quando disse isto.
― Certo, certo. Obrigado por isto, Clarisse. ― disse Valter. ― Alex, deixe-me cumprimentá-la por sua primeira capa logo no primeiro mês conosco! ― completou ele, estendendo a mão que foi prontamente correspondida pela fotógrafa.
― Muito obrigada, Valter. Valeu mesmo! ― disse Alex, só sorrisos.
Percebendo o final da mini-reunião, Clarisse despediu-se e saiu da redação para ir à pequena sala anexa, onde ficava o café. Àquela hora, pouco antes do almoço, o local costumava estar vazio. Depois de servir-se de uma dose generosa da bebida, a redatora recostou-se ao lado da janela e desfrutou um pouco da brisa do exterior. Ela estava de costas para a porta quando ouviu o estalo desta ao ser aberta:
― Ah, você está aqui.
Clarisse virou o rosto na direção da entrada ao perceber a voz de Alex. A fotógrafa deixou a porta atrás de si fechar antes de mexer-se:
― Oi, de novo. ― cumprimentou Clarisse, acenando com o copo. Alex foi até a cafeteira para servir-se. Nenhuma das duas falou até a fotógrafa apoiar-se também na janela para observar a paisagem urbana.
― Você anda bem cheia de serviço, não é? ― comentou esta.
― Pois é. Espero que meu contracheque seja correspondente a essa trabalheira. ― disse Clarisse. Alex deu uma risada desse comentário.
― Ainda acho que você e o Valter estão conspirando para tentar aumentar meu ego. Capa logo no primeiro mês. . .
― Nada disso. Eu achei sua imagem excelente. Não sabia que você editava naquele nível. ― confessou Clarisse com sinceridade. A outra nada respondeu a isto, mas deixou escapar um sorriso orgulhoso.
O silêncio predominou novamente enquanto ambas apreciavam as bebidas. Clarisse foi a primeira que terminou o café e num movimento atirou o copo descartável na lixeira discreta ao lado do pequeno balcão onde estava a cafeteira. Alex parecia estar esperando aquele momento:
― Então, Clarisse, eu estava pensando. . . ― começou a morena, ainda observando a paisagem. ― Será que você não quer dar umas voltas qualquer dia desses? Desopilar dessa montanha de serviço. ― convidou Alex. Clarisse gaguejou alguma coisa antes de responder.
― Quem sabe, né, seria bom. A gente fala com o Ricardo. Ele conhece uns lugares muito bons. ― comentou Clarisse transparecendo um tanto de nervosismo.
― Não. ― cortou Alex.
― Não? ― repetiu Clarisse, sem entender. A morena então tirou os olhos dos prédios e encarou a expressão interrogativa da outra.
― Quis dizer que nós duas poderíamos dar umas voltas. ― explicou Alex, a expressão séria, encarando os olhos amendoados de Clarisse sem sequer piscar.
― A-Ah. . . ― murmurou Clarisse, em entendimento.
― Tem uma cafeteria na zona norte que parece ótima. Uma amiga me indicou. ― comentou a fotógrafa, desanuviando um pouco a expressão.
― Sei. . . ― disse Clarisse, parecendo atordoada. ― B-Bom, então depois combinamos! Só me passar uma mensagem mais tarde que a gente vê os detalhes, ok? ― continuou ela, ajeitando-se com pressa e tomando o caminho da porta.
― Clarisse.
― Sim? ― perguntou esta, virando-se.
― Você não me passou seu número ainda. ― Alex pareceu divertir-se diante do nervosismo óbvio de Clarisse.
― É mesmo! Também não tenho o seu. ― disse Clarisse, sacando o celular. As duas trocaram os números e a redatora saiu dando apenas uma guisa de “até depois”.
Para Alex foi o suficiente.

[Conto] Nova vida e antigos sentimentos (Clarisse e Alex pt2)

Olá a todos! Depois de duas semanas da publicação do conto "Prelúdio de um recomeço" estou cá de volta para trazer a vocês o que nem eu mesma poderia imaginar na data daquela postagem:  a continuação da história de Clarisse e Alex.

Depois de receber um feedback super positivo tanto aqui blog como nos bastidores (leiam isto como "a Big Boss surtando") acabei ficando motivada (Big Boss: "Eu EXIJO uma continuação disso no KaS!!!!") a trazer uma sequência para a trama iniciada em Prelúdio de um recomeço. É com alegria que anuncio que este texto não é somente uma sequência, mas sim apenas a segunda parte de uma história que será serializada aqui no KaS nos próximos meses, em formato quinzenal.

Só posso agradecer à direção do KaS e também aos leitores-comentaristas pelo espaço para trazer minha primeira história original ao blog. Espero que acompanhem essa breve saga de encontros e desencontros da redatora Clarisse e a fotógrafa Alex.

Enfim, vamos para o texto. Comentários são muito bem vindos, como sempre.


Outras opções de leitura


Nova vida e antigos sentimentos
por Lilian Kate Mazaki




Em meio a um desembargue tumultuado Alex conseguiu identificar em meio à confusão o aceno de um rapaz sorridente. Ricardo, exatamente o mesmo de três anos antes, pensou a fotógrafa, ao retribuir o gesto. Um tremor involuntário varreu o corpo desta quando enfim enxergou a pessoa que acompanhava o antigo colega de faculdade. Alex fez o melhor possível para não deixar a avanlanche de sentimentos transparecer na sua expressão.
Clarisse, quase a mesma Clarisse que se recordava. Os cabelos castanho alourados estavam mais compridos do que se recordava e pareciam menos disfarçados por tratamentos. As roupas também eram outras, mais sociais e neutras. Era o que se esperaria de uma redatora de uma renomada revista informativa mensal, pensou Alex. Também havia algo de diferente na expressão de Clarisse, pensou essa enquanto percorria os metros restantes entre ela e os dois, um quê muito maior de maturidade do que se recordava ver no rosto sempre sonhador da antiga amiga. Aquela que, concluiu naquele instante, ainda continuava sendo sua grande paixão não-resolvida.
Alex, bem vinda! — exclamou Ricardo se adiantando para um abraço. Depois do carinhoso aperto, o homem fintou o rosto da fotógrafa com carinho.
Oi. ― respondeu Alex, já voltando o olhar para a outra mulher. ― A quanto tempo, Clarisse.
Bem vinda de volta. ― respondeu Clarisse, de modo um tanto automático.
Oi, oi pessoal. — cumprimentou Alex, detendo-se por um instante, tentando decifrar a expressão um tanto distante da outra mulher.
Ei, você deu uma melhorada no visual ein. — comentou Ricardo, referindo-se às mechas irregulares da recém-chegada, que tinha sido cuidadosamente despenteadas buscando um charme mais rebelde.
É, demorei para acertar o jeito de arrumar, mas acho que estou satisfeita agora. — respondeu esta, agarrando uma das pontas da mecha que deixava caída à frente da orelha direita.
Então, viemos para te dar uma carona de táxi para sua nova moradia.— disse Ricardo, gentilmente pegando a bolsa de ombro que Alex trazia consigo, além da alça da mala de rodinhas, já caminhando para a saída do aeroporto.
Carona de táxi. Essa foi boa. — riu-se Alex, seguindo o rapaz, assim como fez Clarisse.
Se você não vai pagar, então é uma carona. — argumentou Ricardo.
Mas se a corrida é exclusivamente para me levar até lá fica meio estranho chamar de carona. — contrapôs Alex.
Você é sempre tão racional. — reclamou Ricardo e as duas mulheres riram do tom irritadiço que ele utilizou.
Uma vez no táxi, com Alex sentada na frente e os dois redatores no banco de trás, o longo trajeto até o apartamento que a repórter fototográfica alugara começou a ser percorrido. As conversas eram todas puxadas e mantidas por Ricardo. Clarisse continuou sendo a que menos se envolveu nos assuntos. Levou cerca de meia hora para que o táxi alcançasse o destino e os três subissem para o apartamento.
Quando destrancou a porta e adentrou pela primeira vez no novo apartamento Alex sentiu-se mais uma vez feliz por poder confiar em Cíntia para cuidar desse tipo de assunto. Até então ela não havia visto o lugar a não ser por fotos, e vazio. A irmã não só cuidara dos detalhes imobiliários como também decorara todo o lugar de modo agradável. Mesmo as duas tendo gostos tão distintos sua irmã mais velha entendia bem o gosto da caçula:
Noooossa, a Cíntia é uma decoradora de mão cheia! — exclamou Ricardo, depois de depositar as duas bagagens a um canto, dando uma boa olhada na sala. — Estou até me arrependendo de não ter seguido para a área de fotografia. . .
Não é pra tanto. A mana consegue ótimos preços com os fornecedores dela. — comentou Alex, indo até a pequena varanda. Um toque de celular a fez voltar o olhar de volta para o cômodo. Clarisse tirava seu aparelho.
Alô? Ah, sim Valter, posso falar sim.” começou Clarisse, franzindo a testa. “O que? Agora? Mas eu pensei que. . . Eu sei que não, mas. . . Não senhor, eu só não entendi porque tão de repente. . . Não, por mim tudo bem, não se preocupe. . . Certo. Meia hora. Ok, até.”
Qual foi agora, Clarisse? O Valter te chamou? ― perguntou Ricardo, já exasperado.
O diretor de conteúdo resolveu adiantar uma reunião de conteúdo do próximo especial. Ia ser só na terça, mas ele não quer esperar. ― explicou Clarisse, com a expressão de frustração evidente. ― Vou ter que ir.
Tudo bem, garota. Você tem muito futuro na editora, é importante estar presente sempre que te chamam. ― disse Ricardo, tentando consolar a amiga que parecia desapontadíssima. ― Nunca que eles iriam chamar o Ricardinho aqui para uma reunião, afinal sou insignificante. É um ótimo sinal!
Eu sei. ― concordou Clarisse, apesar de não parecer animar-se muito. ― A-Alex, desculpe por isso, eu. . .
Tudo bem. ― apressou-se em dizer a fotógrafa. ― É como o Ricardo falou, é uma coisa boa eles te chamarem.
Alex foi com Clarisse de volta à entrada enquanto Ricardo ficou na sala, apenas observando. A fotógrafa abriu a porta para a outra e saiu com esta, fechando ligeiramente a entrada. Clarisse virou-se para esta, ainda portando uma boa dose de frustração:
Desculpe de novo, Alex. ― disse. ― Não queria ter que sair tão de repente. Mal conversamos.
Não se preocupe. Logo vamos ser colegas de trabalho, mesmo que de redações diferentes. ― disse Alex, sorrindo talvez mais do que gostaria.
Certo. ― concordou Clarisse. Então, depois de um instante de hesitação das duas partes, Clarisse passou os braços pelo corpo da antiga amiga, em um abraço um tanto desajeitado. ― Vou indo, então.
Está bem. ― disse Alex, depois de que soltaram o breve aperto. ― Cuide-se.
É bom que esteja de volta, Alex. ― disse Clarisse, evitando o contato visual direto.
É, também acho. ― o calor no peito da fotógrafa cresceu com aquelas palavras, quase tirando sua capacidade de responder. ― Bom te ver, Clari.
Clarisse nada respondeu, apenas sorriu e acenou com a cabeça, tomando enfim o caminho da saída. Alex seguiu com o olhar seu percurso até esta sumir na entrada das escadarias. Depois retornou ao apartamento, trancando a porta e indo até o sofá onde Ricardo já estava sentado. Acomodou-se ali ainda com a cabeça um tanto aérea, sem dar-se conta do sorriso que ainda perdurava no rosto. Ricardo porém não deixou o detalhe passar desapercebido:
Ela continua linda como sempre, né. ― disse ele. Alex despertou do seu devaneio com aquele comentário e fintou a expressão de divertimento do antigo amigo.
Isso. ― respondeu ela, meio atravessada, sentindo o rosto esquentando diante do olhar do outro. ― Digo, sim. Verdade.
Parece que essa saída inesperada ajudou a quebrar um pouco o gelo entre vocês, não é? ― comentou ele. ― Deu pra ouvir daqui, sabe. ― completou, apontando a própria orelha direta.
Ah. . . ― Alex não soube o que responder.
Ainda que ela e Ricardo tenham trocado e-mails nas últimas semanas era difícil para a fotógrafa colocar em palavras algumas das coisas que eles haviam escrito com tanta naturalidade nesse meio tempo. Ricardo percebeu essa dificuldade da amiga e tratou de mudar o foco da conversa. Alex agradeceu internamente a delicadeza dele. As duas horas seguintes o nome de Clarisse só foi pronunciado quando o homem contava os casos engraçados ou esdrúxulos que já passara no trabalho, onde a mesma era sua colega vizinha de baia.
Depois de comerem um lanche feito pelo rapaz, este despediu-se e prometeu enviar mensagens. Alex enfim pode observar seu novo lar com cuidado. Já começava a cair à noite e logo os seus pensamentos correram em outras direções.
Clarisse. Sim, ela estava linda. Na verdade muito mais linda do que Alex lembrava. Em todos os sentidos Clarisse havia se tornado mais do que já era na época da faculdade. Na beleza, na voz, na maneira delicada e elegante de vestir-se. Pelo visto ela também estava amadurecendo enquanto profissional e provavelmente como pessoa. Ainda assim, Alex sentiu de imediato, ainda haviam aspectos de Clarisse que precisavam amadurecer muito. Ricardo lhe contara várias coisas por mensagens, antes da sua chegada e tudo indicava aquilo.
Diferente de Clarisse, que mantivera-se fechada para aquele sentimento dividido entre elas durante a faculdade, ao que se sabe sem jamais deixar-se seguir pelas experimentações, Alex vivera de modo um tanto intenso a juventude em uma cidade longe de casa. A fotógrafa não era mais a sonhadora romântica que contentou-se durante quatro anos em apenas estar perto daquela que fora sua grande paixão. Seria impossível para ela manter a relação das duas da mesma maneira que fora no passado. Alex era uma mulher agora, não mais uma garotinha desajeitada do curso de Jornalismo.
Ainda que, como ficara provado em poucos minutos, Alex continuasse completamente apaixonada por Clarisse. Porém seu amor não era mais tão paciente e etéreo quanto outrora. O calor do desejo moldava o seu sentimento de alegria em rever a mulher que amava.
Apesar dos sentimentos antigos, nada mais seria como naqueles tempos, concluiu Alex.
Foi então que o celular da morena deixado sobre a mesinha de centro da sala iluminou-se. Sem muita pressa Alex o alcançou e desbloqueou a tela para ver do que se tratava. No aplicativo de mensagens instantâneas uma pergunta simples de um contato que ela não esperava brilhou na tela:
Quer sair pra comer alguma coisa?”






Alex surpreendeu-se ao cruzar as portas do restaurante. Localizado no sexto andar de um dos prédios da principal avenida do centro da cidade, toda a parede aos fundos era tomada pela paisagem da cidade iluminada pelas luzes noturnas, através dos paineis de vidro quase imperceptíveis. Dirigindo-se à recepção logo ela estava seguindo a um dos garçons em direção a uma mesa localizada bem ao fundo. Foi fácil reconhecer a figura que a aguardava, já bebericando o que parecia uma dose generosa de um drink. Ao chegar a mulher nem esperou os cumprimentos para dirigir-se a ela com um sorriso enorme:
Enfim você, Alex. ― disse a mulher de cabelos tingidos de púrpura, vestindo uma combinação de saia e jaquela de couro de um tom mais escuro.
Oi, Jenifer. ― cumprimentou a fotógrafa, puxando a única cadeira restante da mesa, sem cerimônia.
Estava ansiosa para te ver, garota. ― começou Jenifer, endireitando um pouco a postura relaxada. ― Já faz mais de um ano desde a última vez!
É, desde que você veio pra cá. ― completou Alex, após pedir um drink igual ao da outra ao garçom.
Sim, sim. Mas nós duas sabemos que eu estava apenas me adiantando a você. Nada melhor do que aceitar uma generosa proposta de outra editora e ainda vir para a sua cidade natal, esperar seu retorno. ― disse a designer editorial, exibindo um orgulho enorme pelo seu crescimento profissional.
Sei. ― murmurou Alex.
Ora, vamos lá Alex, não seja tão fria. Você sabe que eu não viveria sem você por perto!
Alex riu e concordou com deboche. Já ouvira muitas vezes aquele tipo de declaração regada a álcool. Desde que haviam se conhecido, assim que Alex chegara à divisão da editora na cidade do interior do estado, ela já tivera a oportunidade de observar os esforços de Jenifer para mimá-la com suas conversas em estado embreagado uma centena de vezes:
Sem essa, Alex. Eu nem bebi tanto assim, esse é o segundo drink! ― defendeu-se Jenifer, lendo com precisão a expressão de descrença da outra. ― É tão difícil assim pra você acreditar que é importante pra mim?
Jenny, não existe nada para nós além da cama. ― afirmou Alex, rindo-se e tomando um gole do seu drink. A bebida era muito doce, com um toque de acidez e o claro sabor de morango. Pedir o mesmo que Jenifer era sempre uma escolha segura, lembrou-se.
E o que mais é preciso, querida Alex?! ― exclamou Jenifer, abrindo os braços. ― Temos uma boa convivência, independentes, seguras. Além disso fazemos um sexo dos deuses. Não tem como ser mais perfeito!
Alex desviou os olhos para a paisagem externa antes de responder:
Não vou negar nada disso. ― disse, fintando a expressão confiante da outra por um momento e depois retornando para as luzes urbanas. ― Mas sou o tipo de pessoa que precisa de algo mais do que isso.
Hm hm, eu sei. ― disse Jenifer, acompanhando o olhar da fotógrafa. ― Romantismo é uma dessas doenças que nasce com a pessoa e nunca é curada.
Alex riu. Adorava a maneira sincera da outra de falar:
Já encontrou com a sua eterna amada? ― perguntou Jenifer, depois de alguns minutos em que as duas apenas tomaram suas bebidas e distraíram-se com os carros pequeninos, à distância.
Sim. Ela e o Ricardo foram me receber no aeroporto.
Pela sua cara devo dizer que ainda está no zero a zero. ― disse Jenifer e Alex se viu obrigada a encará-la de volta, ponderando a afirmação.
Não conseguimos quebrar o gelo. ― confessou.
Ah, chega desse assunto! ― exclamou a designer, com vigor. ― Eu não te convidei para ficar vendo essa cara de cachorro molhado. Vamos pedir alguma coisa para comer. ― completou acenando para o garçom que servia uma mesa próxima.
Você me convidou para tentar me arrastar para cama depois, eu sei.
E vou conseguir, não vou? ― provocou Jenifer. Alex apenas riu e desviou os olhos para a paisagem mais uma vez.
Duas horas depois Jenifer parou o carro, um modelo um esportivo de alto valor, na esquina do prédio onde Alex morava. A fotógrafa não estranhou quando a outra apagou o motor:
Um lugar discreto. ― comentou ela.
É uma boa localização e minha irmã fez um ótimo trabalho lá dentro. Quem sabe te convido para um chá da tarde qualquer dia desses. ― disse Alex, maquiando o sorriso com pouca eficiência.
Como é? Não vai me convidar para subir hoje? ― questionou Jenifer, com uma expressão levemente desapontada. Estavam jogando.
Será que eu deveria? Você sabe, eu já tenho outra pessoa em mente. ― atacou Alex. Apesar disso a fotógrafa não fez objeção à mão que Jenifer passou do câmbio para a sua coxa esquerda.
Sabe que não sou ciumenta, Alex. ― disse Jenifer, soltando o cinto e curvando mais o corpo na direção da outra. ― Você é minha número um e quero aproveitar tudo, enquanto for possível.
E depois vai recorrer para sua número dois, três, quatro e cinco? ― perguntou a mulher de cabelos negros, tirando os óculos de aros proeminentes que Jenny utilizava sempre que dirigia ou estava trabalhando. Também livrou-se do cinto, que já havia se tornando uma barreira.
Talvez. . . Mas saiba que nenhuma delas é como você, Alex. Eu poderia passar a vida inteira só com você. ― sussurrou Jenifer, já com os lábios a poucos centímetros dos da outra.
Você bebeu, não fale besteiras, Jenny. ― riu-se Alex, passando os braços pelo ombro e cintura de Jenifer.
Só bebi o suficiente, meu bem. ― concluiu Jenny antes de colocar fim àquela brincadeira, beijando com desejo a outra mulher, que correspondeu ao seu desejo com a mesma intensidade.
As duas gastaram vários minutos ali no carro, aproveitando as sensações das carícias e provocando-se mutuamente por mais. Logo perceberam que aquele espaço já era pequeno demais para o tesão crescente entre as duas. Foi quando Alex sentenciou, ao livrar-se por um momento da língua da amante:
Melhor subirmos.
Foi só o tempo de Jenifer estacionar o veículo com maior cuidado, na garagem ao lado do prédio. Tiveram sorte de não encontrar ninguém pelos corredores do edifício, no conturbado caminho até o apartamento, onde mais se preocuparam em manter o clima do que se estavam tomando o caminho certo. Um esforço recompensado assim que enfim Alex trancou o apartamento por dentro.
O carro de Jenifer só deixou o estacionamento no final da manhã do dia seguinte.

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