Fragilidade (Clarisse e Alex parte 4)
Olá a todos! Cá estamos mais uma vez, agora trazendo a quarta parte da história de Clarisse a Alex (que já está bem mais para minissérie do que para contos, vamos concordar). Gostaria, antes de mais nada, de deixar meu agradecimento a todos os que tem acompanhado esta singela história.
Nesta parte a trama vai começar a entrar em seu momento de tensão mais evidente, ainda que esta presente parte seja apenas o início dessa reviravolta para a trama das duas antigas colegas que nunca confessaram a paixão mútua que sentiam.
Fragilidade. . . Esse título já diz muito sobre o enredo.
Boa leitura a todos! Como sempre, críticas e comentários são sempre bem vindos. Tentaremos sempre melhorar dentro do possível e plausível.
Fragilidade
por Lilian Kate Mazaki
O clima estava ótimo na tarde daquele sábado. Para Clarisse tudo
parecia ainda melhor agora que enfim a edição especial de final de
ano estava encerrada e encaminhada para a gráfica. Qualquer encrenca
agora iria ser tratada apenas pelo departamento de diagramação, não
mais edição, então ela poderia enfim respirar e voltar a desfrutar
da sua rotina mais calma. A redatora chegava a sentir-se um tanto
perdida enquanto caminhava despreocupada por um lado da cidade pouco
conhecido seu, de repente livre de todas as pressões de antes. Uma
paz não tão verdadeira, pois desaparecia cada vez que ela se
recordava do que a levara àquela avenida.
Não demorou muito para avistar o discreto letreiro próximo a uma
movimentada esquina. Lia-se "Vintage - Cafeteria" e ela
teve certeza de ter encontrado o local correto. A fachada, com
textura de madeira e vidros escurecidos não poderia ser encontrada
duas vezes naquelas redondezas, tinha certeza. Quando entrou o
badalar da pequena sineta à porta misturou-se ao som ambiente, um
jazz distante, imergindo seus sentidos de imediato ao clima do
estabelecimento.
― Boa tarde, seja bem vinda. ― cumprimentou uma mulher jovem do
outro lado do balcão também bem caracterizado.
― Olá, boa tarde. ― respondeu Clarisse. ― Por acaso saberia me
dizer se tem alguém me aguardando? Meu nome é Clarisse.
― Oh, claro. ― afirmou a garçonete, abrindo um sorriso mais
natural. ― Uma moça está aguardando sua chegada a uma meia hora,
mais ou menos. Pode subir as escadas, ela está em uma mesa ao fundo.
Logo irei até vocês para anotar seus pedidos.
― Está bem. Obrigada. ― agradeceu Clarisse, dirigindo-se às
escadas indicadas pela funcionária.
O segundo piso do estabelecimento era bastante comprido, tomado por
diversas mesinhas quadradas e alguns televisores nos cantos das
paredes. Imagens do que parecia um filme dos anos 70 eram exibidos
nas telas, sem áudio. Não foi difícil encontrar Alex, pois ela era
a única ali, sentada de lado para a entrada, distraída com um
tablet. O nervosismo borbulhou no estômago de Clarisse nos segundos
que levou para alcançar a mesa:
― Alex? ― chamou, incerta.
― Hm? Ah, Clarisse! ― exclamou a fotógrafa, despertando da
imagem no seu portátil. ― Senta, eu só estava terminando de
checar uns e-mails de uns freelas aí. ― explicou.
― Ah sim. ― disse Clarisse, sentando-se de frente para a outra.
Logo a garçonete apareceu para anotar os pedidos. Clarisse pediu um
capuccino sem teçer comentários, já Alex fez questão de comentar
como ouvira falar daquele lugar:
― Sabe, foi uma amiga que me indicou este lugar. Ela me disse que
sempre vem aqui no meio da semana. ― disse enquanto vasculhava o
cardápio.
― É mesmo? Ficamos sempre felizes em ver nossos clientes falando
sobre o "Vintage" para seus conhecidos. ― comentou a
garçonete que chamava-se Suzie. ― Espero que vocês gostem e
também se tornem nossas frequesas regulares. Temos algumas
programações especiais nas noites de sexta. Depois trago os folders
para vocês.
― Obrigada, Suzie. ― agradeceu Clarisse.
― Sei que vamos gostar. A Jenifer tem um ótimo gosto. ― disse
Alex, devolvendo o cardápio. ― Eu vou querer uma soda natural, por
favor.
― S-Soda? Claro, já trago o pedido de vocês. ― disse a
garçonete saindo apressada. Teria sido impressão de Clarisse ou
algo a tinha incomodado?
― Então essa é a Suzie. . . ― comentou Alex.
― Você já a conhecia? ― perguntou Clarisse, intrigada.
― Não. É que a Jenifer disse que estava tentando convidar "a
Suzie do Vintage" para sair. ― explicou Alex, com um sorriso
de divertimento, ainda fintando o local onde a outra desaparecera
para o andar inferior.
― Ah. . . ― Clarisse tentou não parecer tão surpresa quanto
realmente ficou ao ouvir aquele comentário.
Clarisse acabou perdendo boa parte da sua parca capacidade de tomar
iniciativa durante os minutos em que as duas esperaram suas bebidas.
Depois de servidas e novamente sozinhas foi Alex quem resolveu
quebrar aquele silêncio precoce:
― Então, aliviada com o final da edição? ― perguntou a
fotógrafa.
― Sim. ― respondeu Clarisse, mas percebendo que iria soar muito
seca se só dissesse aquilo emendou. ― Mais uma semana e acho que
teria um colapso.
Alex riu do comentário:
― Acredito. Foi a primeira vez que fez esse tipo de trabalho como
assistente direta do editor-chefe, não?
― Sim, foi inesperado.
― O Valter parece um tiozinho bacana, mas deve saber ser chato
quando os prazos são curtos. ― supôs Alex, franzindo a testa e
voltando os olhos para o alto, numa guisa cômica de reflexão que
arrancou uma risada da outra.
A conversa das duas começou a fluir melhor conforme foram esvaziando
suas bebidas. Logo várias histórias cômicas da faculdade surgiram
para fazê-las esquecer a seriedade. Não havia como manter a
compostura quando diversas confusões envolvendos as duas e Ricardo,
geralmente impulsionadas pelo álcool, eram relembradas. A certo
ponto Clarisse sentiu que poderia mudar um pouco o foco da conversa:
― Então, como foram esses anos fora? ― perguntou ela.
― Ah. . . ― começou Alex, parecendo buscar a melhor maneira de
se expressar. ― Acho que posso resumir dizendo que foi tudo o que
eu precisava. ― disse.
― Dizem que passar um tempo longe de casa nos faz amadurecer. ―
comentou Clarisse.
― Por aí. ― concordou a fotógrafa. ― Digamos que eu precisava
de espaço para me descobrir e me entender.
― É mesmo?
― Uhum. Logo que cheguei lá conheci a Jenifer e, bom, ela me deu
uma grande ajuda, podemos dizer. ― disse Alex, com um tom
sugestivo.
― Vocês duas. . .
― Sempre tivemos uma amizade colorida, se é isso que quer saber,
Clari. — disse a morena, sem meias palavras. ― Não que ela tenha
sido a única. Fomos juntas a muitas festas lgbt nas cidades vizinhas
e eu conheci muita gente.
― Ah sim. ― disse Clarisse, desconfortável.
― O Ricardo nunca te convidou para alguma festa dessas? ―
perguntou Alex.
― Algumas vezes, mas nunca aconteceu de eu ir mesmo. ― respondeu
Clarisse, encarando a taça de capuccino com mais dedicação do que
o necessário.
― Hm. . .
Clarisse sentiu toda a sua coragem esvair com aquele rumo de
conversa. Alex percebeu com clareza o que passava com a outra, mas
não tinha mais a paciência de outrora para fazer um movimento de
recuo. Ao invés disso ela decidiu seguir com a conversa para onde
realmente queria chegar:
― Sabe, às vezes eu paro para pensar como tería sido se eu não
tivesse me mudado. ― disse, sem tirar os olhos da outra, que
parecia agora decidida a observar a decoração ao invés de
retribuir-lhe.
― É uma dúvida que nunca poderemos esclarecer, não é mesmo? ―
falou Clarisse.
― Verdade. ― concordou Alex, a voz um pouco mais rígida do que
gostaria. ― Mas agora temos a chance de saber o que acontecerá
agora que voltei.
Clarisse engoliu saliva e umideceu os lábios:
― Não sei se quero saber, na verdade. ― disse, enfim encarando
de volta a outra. Alex ergueu as sobrancelhas.
― Como assim?
― É que. . . ― começou a jornalista, ansiosa. ― Me assusta um
pouco, depois de todos esses anos, pensar em reviver algumas coisas
que nunca fui capaz de entender.
Era aquilo, pensou Alex. Estava enfim falando do que de fato havia as
trazido até ali. A fotógrafa não esperava ouvir algo tão sincero
assim da outra, mas não iria perder o foco:
― Você é do tipo de pessoa que prefere ficar sempre presa ao que
já entende? ― perguntou.
― Talvez. ― confessou Clarisse, desviando o olhar para o restante
do seu capuccino. ― Se eu não fosse tão covarde não teria ficado
aqui todo esse tempo.
― Como assim? ― perguntou Alex pela segunda vez, novamente
surpresa.
― Logo que eu e o Ricardo entramos na editora surgiu uma vaga no
interior. Eu queria ter aceitado aquela vaga. Pensei em como você
ficaria surpresa quando me visse. Mas então. . . Eu me acovardei.
"Pensei na saudade que meus pais iria sentir se eu estivesse
longe. Não poderia deixá-los, foi o que pensei." disse
Clarisse, sem conseguir esconder a amargura na voz e no olhar, agora
perdido em uma das telas onde um filme em preto e branco agora era
exibido.
"Eu também tinha um namorado, estávamos quase a um ano juntos.
Estranho que uma semana depois de perder aquela vaga eu chutei ele
quando ele me pediu em casamento."
― Clari. . . ― disse Alex, tentando digerir aquelas revelações.
― Engraçado que até pouco tempo atrás eu lembrava com amargura
dessa ocasião e sequer era capaz de entender o motivo de tanto
remorso. ― continuou a redatora, ainda com a voz pesada.
Por um momento Alex ficou sem reação àquilo. Seguindo apenas o
instinto ela esticou a mão direita, colocando-a sobre a esquerda de
Clarisse que pareceu despertar pelo toque, a encarando:
― Chega. Isso já passou. ― disse Alex.
― Isso já, mas. . . ― Clarisse desvencilhou a mão e levantou,
para o temor da outra. ― Eu ainda continuo sendo a mesma pessoa
covarde daquela vez. Sinceramente, Alex, não sei como sair desse
labirinto onde me enfiei.
Antes que pudesse reagir, Alex viu Clarisse desaparecer na escada. A
jornalista sequer despediu-se da garçonete sempre simpática e saiu
fechando a porta do Vintage com um pouco mais de força do que o
necessário. No andar de cima, tendo apenas o som fraco do jazz aos
ouvidos, Alex sentou e bateu os punhos com força no tampo da mesa:
― Agora eu estou aqui, sua idiota! ― rosnou ela, frustrada, ao
vazio do ambiente acolhedor da cafeteria.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Posted by LKMazaki
Indicação: Even e Step In
Bom dia minha gente querida!
Depois de um tempinho impedida de postar por motivos de trabalhos, a Se-chan volta com mais uma indicação para os lindos leitores de shoujo-ai do KaS!

Desta vez a redatora aqui leu dois one-shots que se complementam. Even e Step In podem ser lidos separadamente (tanto que o primeiro que li foi Step in, o que seria a segunda parte), o que facilita para quem quer só dar uma olhada em um, pois você não fica com tanta sensação de "faltando algo" depois de ler. Eles foram publicados na extinta Hikari e quem desenhou foi a(o) Miman.
Tanto Even quanto Step In tem foco na mesma garota, Chitose, uma tsundere básica que na cena de abertura (uma lembrança da infância), na divisão de um corte de bolo se "adona" de sua amiga Nao (cabelos curtos e levemente tomboy) por esta ficar com um soldadinho que vinha junto no bolo. Sim, exatamente isto: Nao "pertence" a Chitose naquele momento.
A história gira em torno disto, e se passa no presente, quando as duas garotas chegam ao ensino médio, onde Nao se destaca na equipe de basquete da escola e que entrou junto da sua amiga de infância (que não tem sucesso nenhum no clube).
Chitose entra em crise, achando que Nao está muito mudada e que não dá bola mais para ela e nem as "lembranças" das duas (aka pertencer a ela). O final de Even e Step In inteiro passa pelo fato de Nao revelar que leva a sério aquela promessa, o que é levemente bizarro, mas interessante no decorrer da história.
Sobre as personagens, Chitose é um tanto chatinha, e achei idiota dela achar a outra mudada só por agora estar mais independente e fazer mais sucesso que ela. Nao ainda vai para casa junto da Chitose e sempre recusa as investidas das menininhas, não entendo por que a de cabelos escuros tem esses surto!

No final, não é que seja uma história muito inovadora, mas o traço dos one-shots é muito bonito e o jeito que demonstra a "evolução" (não chamaria exatamente disto mas...) é bem legal. No final, são duas garotas bem normais que estão ainda crescendo. Acho que esse é o interessante da obra.
Bom, essa postagem era mais para indicar mesmo o mangá, pois achei bonitinho e tinha que compartilhar mais esse tipo de coisa com vocês.
Então me digam se querem mais indicações assim ou se querem apenas analises mais aprofundadas de mangás/séries/filmes. Gostaria de ver a opinião de vocês nos comentários se possível! E se tem algo para indicar para o KaS, por favor nos diga! (pode ser mangá, live action, filme, série. Vale tudo!)
Não se esqueçam de curtir o KaS no Facebook, Twitter ou Assinar na barra ao lado para receber as postagens em sua timeline ou diretamente no e-mail.
Obrigado pessoal!
Até logo! o/
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Posted by Se-chan
[Conto] Para além das tolas vontades (Clarisse e Alex pt3)
Olá a todos! Cá estamos com a terceira parte da história de Clarisse e Alex aqui no Kono-ai-Setsu. Gostaria de agradecer ao feedback positivo nos comentários e diretamente a mim nas redes. Todos vocês que deixam opiniões me motivam muito a trazer mais partes da história.
Sobre esta terceira parte acredito de verdade que seja uma das menos empolgantes da história inteira, mas é também fundamental para formar todo o contexto do enredo envolvendo Alex, a fotógrafa descolada, e Clarisse, a redatora com uma capacidade gigantesca de enganar a si mesma sobre seus sentimentos.
De qualquer modo, espero que apreciem mais esta história. Daqui a duas semanas, tem mais.
Boa leitura!
Para além das tolas vontades
por Lilian Kate Mazaki
Tiago Siqueira era um jovem e promissor advogado. Trabalhava nove
horas por dia no escritório montado por seu pai, a mais de vinte
anos. Seus ternos estavam sempre alinhados e sua mesa mantinha-se
limpa e organizada. Seus arquivos digitais e físicos eram os mais
bem estruturados do escritório e sua secretária era a mais jovem
entre as três que serviam aos atuais seis advogados da associação.
Sempre sério e observador em ambiente de trabalho era também um
homem saudável, praticante amador de tênis ao qual se dedicava pelo
menos em três ocasiões da semana. Seu pai, falecido a alguns anos,
sentiria orgulho dele, tinha certeza. Um profissional competente que
nos fins de semana visitava a mãe e irmã no interior.
Um homem perfeito, ou quase.
A grande frustração de Tiago era a vida amorosa. Depois de uma
juventude cheia de idas e vindas ele enfim havia se apaixonado e
vivido o amor, aos vinte e dois anos. Uma mulher inteligente e de bom
gosto, bela e gentil que o encantara de todas as formas que é
possível fazer a um homem. O advogado planejou pedí-la em
casamento, mesmo que eles mal tivesse completado um ano de namoro.
Para ele não haviam motivos para esperar pois não seria possível
encontrar tal sentimento de admiração novamente por outro alguém.
Porém isso não dependia apenas da sua vontade.
Clarisse recusara seu pedido de casamento. Mesmo ele tendo se
preocupado em levá-la ao restaurante mais caro e romântico da
cidade, pedido o melhor vinho e escolhido a mesa mais discreta. Ela
não apenas recusara como também rompera o relacionamento deles na
sequência.
Tiago jamais esquecera o momento. Clarisse falara qualquer coisa que
soara como um “não é você, mas eu não estou pronta para isso”,
levantara e dissera “melhor pararmos com isso por aqui” e saira
sem dizer mais nada. Não havia sequer lamentação nos olhos daquela
que ele já considerava o grande amor da sua vida.
Mesmo que já tivesse passado quase três anos desde aquela noite de
fracasso ele ainda se perguntava onde afinal havia errado. Seria sua
culpa que as coisas tivessem terminado daquela maneira tão abrupta?
― Tiago? Você tá dormindo, cara? ― chamou uma voz distante. ―
Cara?
Tiago despertou das suas lembranças. Levou alguns segundos para
reconhecer o barzinho e também o homem sentado no banco do outro
lado da mesinha de madeira. Ricardo o observava com uma expressão
perplexa:
― Ah, desculpa. ― disse ele finalmente. Só então suas
lembranças de ter chamado o antigo conhecido para tomar umas
cervejas. ― Eu acabo ficando meio distante quando lembro desse
assunto.
― Se você fica mal quando pensa no que aconteceu, por que me
chamou aqui para falar da Clarisse de novo? ― perguntou Ricardo,
servindo o copo já vazio do advogado. Aquela era apenas a segunda
cerveja que tomavam.
― É que eu não consigo esquecer! Eu preciso entender para
conseguir superar! ― exclamou Tiago, pegando o copo e bebendo todo
o conteúdo de uma só vez. Ricardo suspirou e o serviu de novo antes
de pegar seu próprio copo.
― Olha, eu já tô cansado dessas suas lamentações infinitas. ―
começou Ricardo, com a testa franzida. ― Já fazem o que? Quatro
anos? A Clarisse já teve meia dúzia de outros namorados e você
ainda está lamentando aquela noite!
― Eu sei que você é a única pessoa que pode me esclarecer tudo o
que aconteceu, Ricardo. ― acusou Tiago, apontando o indicador para
o outro. ― Você é o “melhor amiguinho viado” da Clarisse. É
óbvio que você sabe tudo sobre ela!
― Cara. . . ― começou Ricardo, perdendo a paciência bem rápido.
― Não me importo que me chame de viado, afinal é verdade. Só não
use essa palavra com esse tom debochado.
― Desculpa, desculpa! Tô só irritado! Só isso! ― esbravejou
Tiago, desabotoando os punhos da camisa com irritação. Porém ele
já havia feito o jornalista perder o controle sobre as palavras.
― Pra começar nós dois nos conhecemos numa festa gay, você deve
se lembrar muito bem. Então não é nem justo ficar me chamando de
viado assim quando você não é muito diferente!
― Pera lá! ― Tiago também estava perdendo os limites da
conversa. ― Isso faz muito tempo! E eu era bi, não gay. Tanto que
o amor da minha vida é a Clarisse! Faz tanto tempo que não fico com
um cara que estou quase “prescrevendo” desse meu lado.
Ricardo deu uma risada rouca quando ouviu aquilo. Foi uma sorte, pois
isso aliviou também um pouco da sua raiva, substituindo pela vontade
incontrolável de destruir algumas ilusões do outro:
― Você é a bicha mais sem noção que eu já conheci, Tiago. Tão
cega que não é capaz nem de perceber que ninguém deixa de ser
viado por “falta de prática” nem de entender de uma vez por
todas que você nunca foi o “lance” da Clarisse. ― explodiu
Ricardo, falando com o maxilar apertado.
― Opa, opa, opa! O que você disse?! ― surpreendeu-se Tiago,
despertando da sua exasperação, tamanho o sobressalto.
― Sobre você ser uma bicha?
― Não! Sobre a Clarisse!
Foi então que Ricardo deu-se por conta do que dissera e numa reação
automática deu um tapa na própria testa. Se tinha um defeito que
ele não possuia era o de ser fofoqueiro, porém toda a sua lealdade
havia desmoronado em um instante de fúria. Agora o estrago estava
feito:
― Anda, explica isso aí, Ricardo. ― exigiu Tiago.
― Cara. . . ― começou Ricado, coçando atrás da orelha e se
enclinando para trás. O redator considerou em sair correndo, porém
sabia que o outro tinha o físico muito mais preparado e terminaria
por alcançá-lo. ― A Clarisse é completamente gay. As únicas
pessoas que ainda não sabem disso são você e ela mesma.
― A Clarisse. . . ― começou Tiago, a boca ficando aberta à
guisa de espanto, sem que ele conseguisse concluir a frase. ― Ela.
. . Ela. . . Mas. . . Não pode.
― Como assim “não pode”? ― estranhou Ricardo, erguendo uma
das sobrancelhas.
― Nós transamos várias vezes. ― disse Tiago, usando um
argumento que fez as entranhas do outro revirarem em revolta.
― E parece que ela curtiu tanto que te dispensou sem nem pensar
duas vezes. ― atacou Ricardo. ― Se liga, cara!
Tiago balbuciou mais uma série de coisas desconexas, parecendo não
conseguir formar um novo argumento sem que algo o destruísse antes
de ele poder enunciá-lo. Ricardo aproveitou o momento para esfriar
um pouco a cabeça com um copo de cerveja e então retomou a conversa
com mais paciência:
― Tem gente como você, Tiago, que fica plenamente satisfeito com
as duas coisas. ― disse o redator, sentindo-se um professor de
Ensino Fundamental, da aula de sociologia ou qualquer coisa
semelhante. ― Mas tem gente como nós, eu e a Clarisse, que mesmo
que façam com alguém do outro sexo e mesmo gostando, sempre vai
sentir que tem alguma coisa errada. É por isso que somos o que
somos.
― Você disse que ela não percebeu isso, não disse? ― perguntou
Tiago, enfim conseguindo articular uma sentença completa.
― Na real ela é muito boa de se enganar, é o que eu acho. Às
vezes sinto vontade de jogar a verdade, mas fico preocupado com a
reação dela. ― confessou Ricardo. ― Me preocupo mesmo. Quanto
mais o tempo passar mais difícil pode se tornar pra ela aceitar. A
gente vai envelhecendo e adquirindo os preconceitos do mundo.
― E eu nunca suspeitei. ― disse Tiago, parecendo mergulhado mais
uma vez em seus devaneios. Estava tentando recordar de qualquer
situação onde poderia ter ficado evidente aquele fato, mas nada lhe
vinha ao pensamento.
― Será que agora você é capaz de desencanar? ― perguntou
Ricardo, depois de acenar para o balcão do bar pedindo mais uma
cerveja.
― Acho que sim.
― Sério? Você é mesmo pragmático. ― surpreendeu-se o
jornalista.
Os dois homens continuaram bebendo até esvaziarem a terceira
garrafa. Não conversaram muito nesse meio tempo. Ricardo permitiu ao
outro vagar por sua lembranças em busca de comprovações. Na
verdade ele mesmo estava um tanto perdido em devaneios, enquanto
fintava o advogado sem disfarce. Quando terminou o último gole de
bebida, Ricardo sem aviso levantou-se e atirou algumas notas no
centro da mesa, pagando sua parte na conta:
― E sobre aquilo de “prescrever”, acho que você só ainda não
encontrou um cara legal que vai te tirar da linha heteronormativa de
vez. ― disse, virando e saindo sem se despedir.
Os dias estavam ficando mais quentes com a aproximação do verão.
Nas ruas as decorações de natal já começavam a ser vistas. O
calendário do comércio era pontual em começar suas campanhas, na
segunda-feira seguinte ao Dia das Crianças.
Clarisse estava atribulada com todas as tarefas inesperadas que
recebera. Com a saída de um importante editor por motivos de saúde
o seu chefe direto havia sido promovido e a redatora, uma das suas
pessoas de confiança, ganhara uma série de responsabilidades com
relação à edição especial de final de ano da Revista. Ainda que
ela estivesse feliz pela oportunidade o peso das novas
responsabilidades como assistente direta do novo Editor Chefe estavam
a desgastando em demasia.
“Woa! Isso está ótimo, Alex!” Clarisse ouviu a voz familiar do
chefe exclamar do outro lado da redação. Sem perceber a redatora
parou a escrita de um e-mail e virou o olhar para enxergar o que
acontecia. Ela viu a fotógrafa e o editor sentados à mesa deste:
― Sem falsos elogios, Valter. ― disse Alex.
― Não é falso. Era exatamente o que estávamos procurando para a
capa. ― disse Valter, um homem de meia idade e já um pouco calvo.
― Só um instante. ― disse, vasculhando com os olhos a redação.
Para a surpresa de Clarisse ele sorriu quando cruzou os olhos com os
dela. ― Clarisse! Vem aqui mulher! Temos uma nova capa!
Clarisse levantou e cruzou entre as baias o mais rápido possível,
apesar do desconforto. Já fazia quase um mês desde que Alex
assumira sua função como fotógrafa na editora, porém as duas mal
tinham trocado alguns pares de cumprimentos naquele meio tempo. A
presença da amiga ainda era algo que desconsertava Clarisse um
tanto. Ainda assim esta tentou parecer o mais profissional o possível
quando chegou até Alex e Valter:
― Clarisse. Dá uma olhada nisso aqui. ― disse Valter, passando
uma folha para a assistente e redatora. ― Me diz se não é
perfeito!
― Está ótimo mesmo. . . ― disse Clarisse, observando os
detalhes da imagem. ― Você fez a edição, Alex?
― Ah, sim. A gente tem que saber se virar com essas coisas, pra não
ficar tão dependente dos designers. ― disse a fotógrafa,
sorrindo.
― Está decidido. Não vou fazer outra reunião só para isto. ―
sentenciou Valter, animado.
― Mas, senhor, a capa já não havia sido aprovada? Não acho que o
Gustavo vá gostar de ser tirado assim. ― alertou Clarisse.
― Ai, ai. Eu sei disso, Clarisse. ― disse Valter, franzindo a
testa. ― Eu mesmo vou falar com o Gustavo. A questão é que não
podemos deixar de usar uma arte melhor por causa do ego de um dos
nossos artistas. Ele é ótimo e vai ter muitas outras capas no
futuro.
― Eu só estava alertando, senhor. Também acho que devemos usar
esta. ― corrigiu-se Clarisse. Mesmo sem virar-se ela pode sentir o
olhar de Alex sobre si quando disse isto.
― Certo, certo. Obrigado por isto, Clarisse. ― disse Valter. ―
Alex, deixe-me cumprimentá-la por sua primeira capa logo no primeiro
mês conosco! ― completou ele, estendendo a mão que foi
prontamente correspondida pela fotógrafa.
― Muito obrigada, Valter. Valeu mesmo! ― disse Alex, só
sorrisos.
Percebendo o final da mini-reunião, Clarisse despediu-se e saiu da
redação para ir à pequena sala anexa, onde ficava o café. Àquela
hora, pouco antes do almoço, o local costumava estar vazio. Depois
de servir-se de uma dose generosa da bebida, a redatora recostou-se
ao lado da janela e desfrutou um pouco da brisa do exterior. Ela
estava de costas para a porta quando ouviu o estalo desta ao ser
aberta:
― Ah, você está aqui.
Clarisse virou o rosto na direção da entrada ao perceber a voz de
Alex. A fotógrafa deixou a porta atrás de si fechar antes de
mexer-se:
― Oi, de novo. ― cumprimentou Clarisse, acenando com o copo. Alex
foi até a cafeteira para servir-se. Nenhuma das duas falou até a
fotógrafa apoiar-se também na janela para observar a paisagem
urbana.
― Você anda bem cheia de serviço, não é? ― comentou esta.
― Pois é. Espero que meu contracheque seja correspondente a essa
trabalheira. ― disse Clarisse. Alex deu uma risada desse
comentário.
― Ainda acho que você e o Valter estão conspirando para tentar
aumentar meu ego. Capa logo no primeiro mês. . .
― Nada disso. Eu achei sua imagem excelente. Não sabia que você
editava naquele nível. ― confessou Clarisse com sinceridade. A
outra nada respondeu a isto, mas deixou escapar um sorriso orgulhoso.
O silêncio predominou novamente enquanto ambas apreciavam as
bebidas. Clarisse foi a primeira que terminou o café e num movimento
atirou o copo descartável na lixeira discreta ao lado do pequeno
balcão onde estava a cafeteira. Alex parecia estar esperando aquele
momento:
― Então, Clarisse, eu estava pensando. . . ― começou a morena,
ainda observando a paisagem. ― Será que você não quer dar umas
voltas qualquer dia desses? Desopilar dessa montanha de serviço. ―
convidou Alex. Clarisse gaguejou alguma coisa antes de responder.
― Quem sabe, né, seria bom. A gente fala com o Ricardo. Ele
conhece uns lugares muito bons. ― comentou Clarisse transparecendo
um tanto de nervosismo.
― Não. ― cortou Alex.
― Não? ― repetiu Clarisse, sem entender. A morena então tirou
os olhos dos prédios e encarou a expressão interrogativa da outra.
― Quis dizer que nós duas poderíamos dar umas voltas. ―
explicou Alex, a expressão séria, encarando os olhos amendoados de
Clarisse sem sequer piscar.
― A-Ah. . . ― murmurou Clarisse, em entendimento.
― Tem uma cafeteria na zona norte que parece ótima. Uma amiga me
indicou. ― comentou a fotógrafa, desanuviando um pouco a
expressão.
― Sei. . . ― disse Clarisse, parecendo atordoada. ― B-Bom,
então depois combinamos! Só me passar uma mensagem mais tarde que a
gente vê os detalhes, ok? ― continuou ela, ajeitando-se com pressa
e tomando o caminho da porta.
― Clarisse.
― Sim? ― perguntou esta, virando-se.
― Você não me passou seu número ainda. ― Alex pareceu
divertir-se diante do nervosismo óbvio de Clarisse.
― É mesmo! Também não tenho o seu. ― disse Clarisse, sacando o
celular. As duas trocaram os números e a redatora saiu dando apenas
uma guisa de “até depois”.
Para Alex foi o suficiente.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Posted by LKMazaki
[Conto] Nova vida e antigos sentimentos (Clarisse e Alex pt2)
Olá a todos! Depois de duas semanas da publicação do conto "Prelúdio de um recomeço" estou cá de volta para trazer a vocês o que nem eu mesma poderia imaginar na data daquela postagem: a continuação da história de Clarisse e Alex.
Depois de receber um feedback super positivo tanto aqui blog como nos bastidores (leiam isto como "a Big Boss surtando") acabei ficando motivada (Big Boss: "Eu EXIJO uma continuação disso no KaS!!!!") a trazer uma sequência para a trama iniciada em Prelúdio de um recomeço. É com alegria que anuncio que este texto não é somente uma sequência, mas sim apenas a segunda parte de uma história que será serializada aqui no KaS nos próximos meses, em formato quinzenal.
Só posso agradecer à direção do KaS e também aos leitores-comentaristas pelo espaço para trazer minha primeira história original ao blog. Espero que acompanhem essa breve saga de encontros e desencontros da redatora Clarisse e a fotógrafa Alex.
Enfim, vamos para o texto. Comentários são muito bem vindos, como sempre.
Outras opções de leitura
Nova
vida e antigos sentimentos
por
Lilian Kate Mazaki
Em
meio a um desembargue tumultuado Alex conseguiu identificar em meio à
confusão o aceno de um rapaz sorridente. Ricardo, exatamente o mesmo
de três anos antes, pensou a fotógrafa, ao retribuir o gesto. Um
tremor involuntário varreu o corpo desta quando enfim enxergou a
pessoa que acompanhava o antigo colega de faculdade. Alex fez o
melhor possível para não deixar a avanlanche de sentimentos
transparecer na sua expressão.
Clarisse,
quase a mesma Clarisse que se recordava. Os cabelos castanho
alourados estavam mais compridos do que se recordava e pareciam menos
disfarçados por tratamentos. As roupas também eram outras, mais
sociais e neutras. Era o que se esperaria de uma redatora de uma
renomada revista informativa mensal, pensou Alex. Também havia algo
de diferente na expressão de Clarisse, pensou essa enquanto
percorria os metros restantes entre ela e os dois, um quê muito
maior de maturidade do que se recordava ver no rosto sempre sonhador
da antiga amiga. Aquela que, concluiu naquele instante, ainda
continuava sendo sua grande paixão não-resolvida.
— Alex,
bem vinda! — exclamou Ricardo se adiantando para um abraço. Depois
do carinhoso aperto, o homem fintou o rosto da fotógrafa com
carinho.
― Oi.
― respondeu Alex, já voltando o olhar para a outra mulher. ― A
quanto tempo, Clarisse.
― Bem
vinda de volta. ― respondeu Clarisse, de modo um tanto automático.
— Oi,
oi pessoal. — cumprimentou Alex, detendo-se por um instante,
tentando decifrar a expressão um tanto distante da outra mulher.
— Ei,
você deu uma melhorada no visual ein. — comentou Ricardo,
referindo-se às mechas irregulares da recém-chegada, que tinha sido
cuidadosamente despenteadas buscando um charme mais rebelde.
— É,
demorei para acertar o jeito de arrumar, mas acho que estou
satisfeita agora. — respondeu esta, agarrando uma das pontas da
mecha que deixava caída à frente da orelha direita.
—
Então,
viemos para te dar uma carona de táxi para sua nova moradia.—
disse Ricardo, gentilmente pegando a bolsa de ombro que Alex trazia
consigo, além da alça da mala de rodinhas, já caminhando para a
saída do aeroporto.
—
Carona
de táxi. Essa foi boa. — riu-se Alex, seguindo o rapaz, assim como
fez Clarisse.
— Se
você não vai pagar, então é uma carona. — argumentou Ricardo.
— Mas
se a corrida é exclusivamente para me levar até lá fica meio
estranho chamar de carona. — contrapôs Alex.
— Você
é sempre tão racional. — reclamou Ricardo e as duas mulheres
riram do tom irritadiço que ele utilizou.
Uma
vez no táxi, com Alex sentada na frente e os dois redatores no banco
de trás, o longo trajeto até o apartamento que a repórter
fototográfica alugara começou a ser percorrido. As conversas eram
todas puxadas e mantidas por Ricardo. Clarisse continuou sendo a que
menos se envolveu nos assuntos. Levou cerca de meia hora para que o
táxi alcançasse o destino e os três subissem para o apartamento.
Quando
destrancou a porta e adentrou pela primeira vez no novo apartamento
Alex sentiu-se mais uma vez feliz por poder confiar em Cíntia para
cuidar desse tipo de assunto. Até então ela não havia visto o
lugar a não ser por fotos, e vazio. A irmã não só cuidara dos
detalhes imobiliários como também decorara todo o lugar de modo
agradável. Mesmo as duas tendo gostos tão distintos sua irmã mais
velha entendia bem o gosto da caçula:
—
Noooossa,
a Cíntia é uma decoradora de mão cheia! — exclamou Ricardo,
depois de depositar as duas bagagens a um canto, dando uma boa olhada
na sala. — Estou até me arrependendo de não ter seguido para a
área de fotografia. . .
— Não
é pra tanto. A mana consegue ótimos preços com os fornecedores
dela. — comentou Alex, indo até a pequena varanda. Um toque de
celular a fez voltar o olhar de volta para o cômodo. Clarisse tirava
seu aparelho.
“Alô?
Ah, sim Valter, posso falar sim.” começou Clarisse, franzindo a
testa. “O que? Agora? Mas eu pensei que. . . Eu sei que não, mas.
. . Não senhor, eu só não entendi porque tão de repente. . . Não,
por mim tudo bem, não se preocupe. . . Certo. Meia hora. Ok, até.”
― Qual
foi agora, Clarisse? O Valter te chamou? ― perguntou Ricardo, já
exasperado.
― O
diretor de conteúdo resolveu adiantar uma reunião de conteúdo do
próximo especial. Ia ser só na terça, mas ele não quer esperar. ―
explicou Clarisse, com a expressão de frustração evidente. ― Vou
ter que ir.
― Tudo
bem, garota. Você tem muito futuro na editora, é importante estar
presente sempre que te chamam. ― disse Ricardo, tentando consolar a
amiga que parecia desapontadíssima. ― Nunca que eles iriam chamar
o Ricardinho aqui para uma reunião, afinal sou insignificante. É um
ótimo sinal!
― Eu
sei. ― concordou Clarisse, apesar de não parecer animar-se muito.
― A-Alex, desculpe por isso, eu. . .
― Tudo
bem. ― apressou-se em dizer a fotógrafa. ― É como o Ricardo
falou, é uma coisa boa eles te chamarem.
Alex
foi com Clarisse de volta à entrada enquanto Ricardo ficou na sala,
apenas observando. A fotógrafa abriu a porta para a outra e saiu com
esta, fechando ligeiramente a entrada. Clarisse virou-se para esta,
ainda portando uma boa dose de frustração:
―
Desculpe de novo, Alex. ―
disse. ― Não queria ter que sair tão de repente. Mal conversamos.
― Não
se preocupe. Logo vamos ser colegas de trabalho, mesmo que de
redações diferentes. ― disse Alex, sorrindo talvez mais do que
gostaria.
―
Certo.
―
concordou Clarisse. Então, depois de um instante de hesitação das
duas partes, Clarisse passou os braços pelo corpo da antiga amiga,
em um abraço um tanto desajeitado. ― Vou indo, então.
― Está
bem. ― disse Alex, depois de que soltaram o breve aperto. ―
Cuide-se.
― É
bom que esteja de volta, Alex. ― disse Clarisse, evitando o contato
visual direto.
― É,
também acho. ― o calor no peito da fotógrafa cresceu com aquelas
palavras, quase tirando sua capacidade de responder. ― Bom te ver,
Clari.
Clarisse
nada respondeu, apenas sorriu e acenou com a cabeça, tomando enfim o
caminho da saída. Alex seguiu com o olhar seu percurso até esta
sumir na entrada das escadarias. Depois retornou ao apartamento,
trancando a porta e indo até o sofá onde Ricardo já estava
sentado. Acomodou-se ali ainda com a cabeça um tanto aérea, sem
dar-se conta do sorriso que ainda perdurava no rosto. Ricardo porém
não deixou o detalhe passar desapercebido:
― Ela
continua linda como sempre, né. ― disse ele. Alex despertou do seu
devaneio com aquele comentário e fintou a expressão de divertimento
do antigo amigo.
― Isso.
― respondeu ela, meio atravessada, sentindo o rosto esquentando
diante do olhar do outro. ― Digo, sim. Verdade.
―
Parece que essa saída
inesperada ajudou a quebrar um pouco o gelo entre vocês, não é? ―
comentou ele. ― Deu pra ouvir daqui, sabe. ― completou, apontando
a própria orelha direta.
― Ah.
. . ― Alex não soube o que responder.
Ainda
que ela e Ricardo tenham trocado e-mails nas últimas semanas era
difícil para a fotógrafa colocar em palavras algumas das coisas que
eles haviam escrito com tanta naturalidade nesse meio tempo. Ricardo
percebeu essa dificuldade da amiga e tratou de mudar o foco da
conversa. Alex agradeceu internamente a delicadeza dele. As duas
horas seguintes o nome de Clarisse só foi pronunciado quando o homem
contava os casos engraçados ou esdrúxulos que já passara no
trabalho, onde a mesma era sua colega vizinha de baia.
Depois
de comerem um lanche feito pelo rapaz, este despediu-se e prometeu
enviar mensagens. Alex enfim pode observar seu novo lar com cuidado.
Já começava a cair à noite e logo os seus pensamentos correram em
outras direções.
Clarisse.
Sim, ela estava linda. Na verdade muito mais linda do que Alex
lembrava. Em todos os sentidos Clarisse havia se tornado mais do que
já era na época da faculdade. Na beleza, na voz, na maneira
delicada e elegante de vestir-se. Pelo visto ela também estava
amadurecendo enquanto profissional e provavelmente como pessoa. Ainda
assim, Alex sentiu de imediato, ainda haviam aspectos de Clarisse que
precisavam amadurecer muito. Ricardo lhe contara várias coisas por
mensagens, antes da sua chegada e tudo indicava aquilo.
Diferente
de Clarisse, que mantivera-se fechada para aquele sentimento dividido
entre elas durante a faculdade, ao que se sabe sem jamais deixar-se
seguir pelas experimentações, Alex vivera de modo um tanto intenso
a juventude em uma cidade longe de casa. A fotógrafa não era mais a
sonhadora romântica que contentou-se durante quatro anos em apenas
estar perto daquela que fora sua grande paixão. Seria impossível
para ela manter a relação das duas da mesma maneira que fora no
passado. Alex era uma mulher agora, não mais uma garotinha
desajeitada do curso de Jornalismo.
Ainda
que, como ficara provado em poucos minutos, Alex continuasse
completamente apaixonada por Clarisse. Porém seu amor não era mais
tão paciente e etéreo quanto outrora. O calor do desejo moldava o
seu sentimento de alegria em rever a mulher que amava.
Apesar
dos sentimentos antigos, nada mais seria como naqueles tempos,
concluiu Alex.
Foi
então que o celular da morena deixado sobre a mesinha de centro da
sala iluminou-se. Sem muita pressa Alex o alcançou e desbloqueou a
tela para ver do que se tratava. No aplicativo de mensagens
instantâneas uma pergunta simples de um contato que ela não
esperava brilhou na tela:
“Quer
sair pra comer alguma coisa?”
Alex
surpreendeu-se ao cruzar as portas do restaurante. Localizado no
sexto andar de um dos prédios da principal avenida do centro da
cidade, toda a parede aos fundos era tomada pela paisagem da cidade
iluminada pelas luzes noturnas, através dos paineis de vidro quase
imperceptíveis. Dirigindo-se à recepção logo ela estava seguindo
a um dos garçons em direção a uma mesa localizada bem ao fundo.
Foi fácil reconhecer a figura que a aguardava, já bebericando o que
parecia uma dose generosa de um drink. Ao chegar a mulher nem esperou
os cumprimentos para dirigir-se a ela com um sorriso enorme:
― Enfim
você, Alex. ― disse a mulher de cabelos tingidos de púrpura,
vestindo uma combinação de saia e jaquela de couro de um tom mais
escuro.
― Oi,
Jenifer. ― cumprimentou a fotógrafa, puxando a única cadeira
restante da mesa, sem cerimônia.
―
Estava ansiosa para te
ver, garota. ― começou Jenifer, endireitando um pouco a postura
relaxada. ― Já faz mais de um ano desde a última vez!
― É,
desde que você veio pra cá. ― completou Alex, após pedir um
drink igual ao da outra ao garçom.
― Sim,
sim. Mas nós duas sabemos que eu estava apenas me adiantando a você.
Nada melhor do que aceitar uma generosa proposta de outra editora e
ainda vir para a sua cidade natal, esperar seu retorno. ― disse a
designer editorial, exibindo um orgulho enorme pelo seu crescimento
profissional.
― Sei.
― murmurou Alex.
― Ora,
vamos lá Alex, não seja tão fria. Você sabe que eu não viveria
sem você por perto!
Alex
riu e concordou com deboche. Já ouvira muitas vezes aquele tipo de
declaração regada a álcool. Desde que haviam se conhecido, assim
que Alex chegara à divisão da editora na cidade do interior do
estado, ela já tivera a oportunidade de observar os esforços de
Jenifer para mimá-la com suas conversas em estado embreagado uma
centena de vezes:
― Sem
essa, Alex. Eu nem bebi tanto assim, esse é o segundo drink! ―
defendeu-se Jenifer, lendo com precisão a expressão de descrença
da outra. ― É tão difícil assim pra você acreditar que é
importante pra mim?
―
Jenny, não existe nada
para nós além da cama. ― afirmou Alex, rindo-se e tomando um gole
do seu drink. A bebida era muito doce, com um toque de acidez e o
claro sabor de morango. Pedir o mesmo que Jenifer era sempre uma
escolha segura, lembrou-se.
― E
o que mais é preciso, querida Alex?! ― exclamou Jenifer, abrindo
os braços. ― Temos uma boa convivência, independentes, seguras.
Além disso fazemos um sexo dos deuses. Não tem como ser mais
perfeito!
Alex
desviou os olhos para a paisagem externa antes de responder:
― Não
vou negar nada disso. ― disse, fintando a expressão confiante da
outra por um momento e depois retornando para as luzes urbanas. ―
Mas sou o tipo de pessoa que precisa de algo mais do que isso.
― Hm
hm, eu sei. ― disse Jenifer, acompanhando o olhar da fotógrafa. ―
Romantismo é uma dessas doenças que nasce com a pessoa e nunca é
curada.
Alex
riu. Adorava a maneira sincera da outra de falar:
― Já
encontrou com a sua eterna amada? ― perguntou Jenifer, depois de
alguns minutos em que as duas apenas tomaram suas bebidas e
distraíram-se com os carros pequeninos, à distância.
― Sim.
Ela e o Ricardo foram me receber no aeroporto.
― Pela
sua cara devo dizer que ainda está no zero a zero. ― disse Jenifer
e Alex se viu obrigada a encará-la de volta, ponderando a afirmação.
― Não
conseguimos quebrar o gelo. ― confessou.
― Ah,
chega desse assunto! ― exclamou a designer, com vigor. ― Eu não
te convidei para ficar vendo essa cara de cachorro molhado. Vamos
pedir alguma coisa para comer. ― completou acenando para o garçom
que servia uma mesa próxima.
― Você
me convidou para tentar me arrastar para cama depois, eu sei.
― E
vou conseguir, não vou? ― provocou Jenifer. Alex apenas riu e
desviou os olhos para a paisagem mais uma vez.
Duas
horas depois Jenifer parou o carro, um modelo um esportivo de alto
valor, na esquina do prédio onde Alex morava. A fotógrafa não
estranhou quando a outra apagou o motor:
― Um
lugar discreto. ― comentou ela.
― É
uma boa localização e minha irmã fez um ótimo trabalho lá
dentro. Quem sabe te convido para um chá da tarde qualquer dia
desses. ― disse Alex, maquiando o sorriso com pouca eficiência.
― Como
é? Não vai me convidar para subir hoje? ― questionou Jenifer, com
uma expressão levemente desapontada. Estavam jogando.
― Será
que eu deveria? Você sabe, eu já tenho outra pessoa em mente. ―
atacou Alex. Apesar disso a fotógrafa não fez objeção à mão que
Jenifer passou do câmbio para a sua coxa esquerda.
― Sabe
que não sou ciumenta, Alex. ― disse Jenifer, soltando o cinto e
curvando mais o corpo na direção da outra. ― Você é minha
número um e quero aproveitar tudo, enquanto for possível.
― E
depois vai recorrer para sua número dois, três, quatro e cinco? ―
perguntou a mulher de cabelos negros, tirando os óculos de aros
proeminentes que Jenny utilizava sempre que dirigia ou estava
trabalhando. Também livrou-se do cinto, que já havia se tornando
uma barreira.
―
Talvez. . . Mas saiba que
nenhuma delas é como você, Alex. Eu poderia passar a vida inteira
só com você. ― sussurrou Jenifer, já com os lábios a poucos
centímetros dos da outra.
― Você
bebeu, não fale besteiras, Jenny. ― riu-se Alex, passando os
braços pelo ombro e cintura de Jenifer.
― Só
bebi o suficiente, meu bem. ― concluiu Jenny antes de colocar fim
àquela brincadeira, beijando com desejo a outra mulher, que
correspondeu ao seu desejo com a mesma intensidade.
As
duas gastaram vários minutos ali no carro, aproveitando as sensações
das carícias e provocando-se mutuamente por mais. Logo perceberam
que aquele espaço já era pequeno demais para o tesão crescente
entre as duas. Foi quando Alex sentenciou, ao livrar-se por um
momento da língua da amante:
―
Melhor subirmos.
Foi
só o tempo de Jenifer estacionar o veículo com maior cuidado, na
garagem ao lado do prédio. Tiveram sorte de não encontrar ninguém
pelos corredores do edifício, no conturbado caminho até o
apartamento, onde mais se preocuparam em manter o clima do que se
estavam tomando o caminho certo. Um esforço recompensado assim que
enfim Alex trancou o apartamento por dentro.
O
carro de Jenifer só deixou o estacionamento no final da manhã do
dia seguinte.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Posted by LKMazaki
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Yuri Kuma Arashi: ELA CHEIRA A LÍRIOS, Tempestade Yuri no novo anime do Ikuhara
Já postei no meu blog e vou postar aqui também porque eu POSSO! BWUHAHAHA~
Há uns dois anos, pouco depois do termino de Mawaru Penguindrum, foi anunciado através de um misterioso teaser site [http://penguinbear.com/] com o nome de PENGUINBEAR Project anunciando um novo projeto do diretor de Shoujo Kakumei Utena (<33) e Mawaru Penguindrum, Kunihiko Ikuhara. Depois de tanto tempo inativo, na semana passada iniciou-se uma contagem regressiva de 5 dias, até o anuncio de hoje, quando surgiu novas informações! Yuri Kuma Arashi (Tormenta de Ursos & lírios --- SACA SÓ ESSE NOME), que anteriormente se pensava que seria produzido pelo estúdio Brains Base (Durarará), será animado pelo SILVER LINK (WataMote; Não É Minha Culpa Se Eu Não Sou Popular) com character design original de Akiko Morishima (autora de diversos mangás yuris). No novo site do projeto, é possível [http://yurikuma.jp/] ver uma nova contagem, dessa vez progressiva, assinalando as possíveis datas de novas atualizações, começando em 15 de setembro, se estendendo para 30 de setembro, 10 de outubro, 20 de outubro e 30 de outubro.
Yuri Kuma Arashi já conta com uma adaptação em mangá, pela autora Akiko Morishima na revista seinen Gentosha Comics, seguindo os mesmos moldes de outras produções originais, como Evangelion e Utena, em que os mangás estrearam bem antes que o próprio anime original. Trata-se de uma prática bem comum, uma vez que essas adaptações servem mais como uma propaganda e são bem simplistas, e às vezes com algumas mudanças no enrendo, se comparadas ao original.




Sinopse:
Kureha é uma colegial simples e quase não é notada pelos outros, sentindo-se invisível. Todas as noites, ela tem um “sonho sobre um urso e uma tempestade transparente”. Neste sonho, sua misteriosa colega Ginko Yurishiro aparece na forma de um urso.
YEAAAH! PENGUINDRUM FEELINGS! GEEEEENTE, eu não sei se o anime irá seguir esse mangá, mas se for... EU JÁ ESTOU SANGRANDOOOOOOOOO!! MOEE MOEEEE KYUNNN S2
(sim, sei que sou uma bandida que só aparece aqui pra surtar noticias repletas de shipping e fodendo artigos que é bom nada! E é isso ai, me amem! Especialmente as garotas ~69)
domingo, 24 de agosto de 2014
Posted by Unknown
Novidade: Casais de Séries se "Assumindo"
Olá pessoal!!
Hoje temos uma grande comemoração a fazer!
Dois casais super conhecidos que o fandom adorava e sempre disseram que era Canon e os "fãs em geral" diziam que não, era viagem da gente ou que eles eram apenas amores platônicos de unilaterais foram reconhecidos como oficiais. Estou falando das séries Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyoujin) e Hora da Aventura (Adventure Time)!
O primeiro todos tinham certeza (acredito eu) depois dos últimos capítulos onde Ymir e Christa (Historia) apareceram. A praticamente (pra mim TOTAL) obsessão que uma tem pela outra e de se encontrarem novamente tinha uma tensão muito mais do que de amizade. Apaixonadamente doidas demais para o meu gosto, além da "Historia" ser bem mais chata do que a "Christa". Mas sim, o produtor George Wada confirmou que Ymir e Christa são um casal em um painel do Animagic 2014 (traduzam a página oficial do Crunchyroll e confirmem por si mesmos).
Já o outro casal confirmado, que nunca apareceu por aqui, é Princesa Jujuba (Princess Bubblegum) e Marceline. Nunca tinha visto Adventure Time, mas sabia que o fandom era doidão por elas. Até tinha visto uns vídeos onde constatei que realmente no mínimo tinha uma historinha por trás delas duas (para quem está curioso, dê uma olhada aqui, aqui ou aqui). Mas desde o fim de semana estou vendo a série e estou quase no final da primeira temporada. Mal espero para ver estas coisas rolando! LOL.
Mas não fiquem tão felizes, na verdade Bubblegum e Marceline FORAM um casal já. Foi o que confirmou o próprio criador da série. Ou seja, podem simplesmente nunca mais ser, ou (a melhor possibilidade) tem sentimentos inacabados e cheios de amor (XD). Vamos acompanhar a série para ver onde isso vai dar.
Então pessoal, vamos aproveitar as séries e ver até onde esses casais vão!
E que tal torcer para alguém da equipe de Nanoha confirmar o lindinho NanoFate?! Afinal, até a Nana Mizuki (dubladora da Fate-chan) shippa elas. (XD)
Até logo! o/
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Posted by Se-chan
Acompanhe: Ela é o meu Pecado - Proteja-me
Boa Noite pessoal!
Hoje estou vindo para fazer uma pequena propaganda!
Não, não é nada "ui, estou sendo comprada" nem nada. Hahahaha
Na verdade é só uma ajuda voluntária para a Sameerah Sy, escritora que anteriormente publicava fanfics e está agora lançando seu primeiro livro da quadrilogia com teor yuri/lésbico Ela é o meu Pecado, que se chama: Proteja-me.
A Sy-chan (desculpe a intimidade XD) está lançando o livro pelo Clube de Autores, mas também disponibiliza a obra grátis para quem não tem certeza de que quer comprar o livro só pelas sinopses (leia aqui o/).
A autora foi super simpática pelos e-mails e também comentou duas coisas bem legais. Ela está concorrendo a um prêmio no Clube de Autores e está precisando de ajuda de quem achar legal o trabalho dela na votação. Além disso, ela está fazendo uma promoção bem legal do livro pelo Facebook. Quem não tem dinheiro para comprar o livro, mas leu online e queria ter a obra em mãos, é uma boa chance! (link para a promo aqui o/)
Para quem quer ter mais informações sobre a obra e sobre a autora, aconselho dar uma olhada no vídeo a seguir:
Vamos lá pessoal, não é todo dia que aparece uma autora do gênero (e ainda mais que surgiu dos fics como o KaS!), portanto o blog claro que quis ajudar no que pudesse. Então vamos dar uma forcinha para a Sy-chan!
Bora soltar o apoio pra ela também nos comentários. Vamos fazer bonito pelo poder-literário-yuri! E boa sorte para a autora no resto da quadrilogia!
Até logo! o/
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Posted by Se-chan

