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Alguns pensamentos e observações sobre os primeiros episódios de Citrus
Já faz algumas semanas desde o começo da tão esperada exibição do anime de Citrus. Com quatro episódios no ar (podendo ser assistidos inclusive no Crunchyroll BR) acho que já podemos conversar um pouco sobre essa adaptação.
Primeiro gostaria de deixar claro uma coisa: eu não tinha lido quase nada do mangá de Citrus até assistir o episódio mais recente do anime na data de publicação deste post. Claro que conhecia a história e estava um tanto inteirada dos acontecimentos mais gerais devido ao burburinho constante que o mangá gera no fandom. Mesmo tendo o primeiro volume em inglês acabei postergando até o dia anterior a este texto para enfim entrar de verdade na obra da qual nós vamos falar aqui.
Tendo dito isto, vamos começar com uma breve recapitulação do plot de Citrus para que, caso você leitor seja alguém que caiu de paraquedas aqui pensando em conseguir alguma informação sobre esse tal anime yuri do momento para decidir se assiste ou não fique menos perdido com o que vamos comentar.
Yuzu é uma gyaru* que tem que mudar de escola por conta do novo casamento de sua mãe. Para o desespero dela a escola nova além de ser feminina (e daí ela terá que dizer adeus a sua farsa de vida amorosa movimentada) como também é extremamente tradicional. Como se não bastasse isso Yuzu descobre que sua nova irmã graças ao casamento é ninguém menos do que Aihara Mei, a presidente do conselho estudantil e neta do diretor da escola.
*(é um estilo de moda feminina. Existem vários artigos na internet explicando, mas existem alguns bem resumidos para introdução como este do Suki Desu, ou este do Harajuku BR)
Claro que Citrus não faria tanto sucesso se não fosse pela complicação extra que surge da convivência com a misteriosa Mei: Yuzu acaba se apaixonando pela nova irmã e seu jeito impulsivo de agir antes de pensar apenas coloca cada vez mais tensão nessa situação já delicada.
Citrus foi em certo limite um marco dentro da Comic Yurihime, revista na qual é publicado até hoje, por ter sido a primeira obra com plot cerceado pela controvérsia que alcançou grande popularidade dentro do fandom. Depois dele vieram outros mangás "polêmicos" embalados nessa onda, como Netsuzou TRap e recentemente o Tatoe Todokanu Ito da to Shite mo. O fato assombroso de Citrus já estar em seu nono volume de publicação é algo que não pode ser ignorado.
Para além do óbvio do "caso proibido entre irmãs que não são irmãs" Citrus tem mais a oferecer ao leitor. Personagens complexas, contraditórias e imperfeitas (a essência para uma narrativa verossímil, diga-se de passagem), a capacidade de manter o fôlego da narrativa sem se prender aos passos óbvios em um mangá yuri (tomemos os mangás "cena de sexo e daí The End" da Milk Morinaga como um exemplo). Não é sem motivo que sua ida para os animes era um dos eventos mais aguardados dentro do "mundinho dos lírios"
(Sobre pontos específicos do enredo de Citrus creio que seja melhor falarmos mais disso em outra oportunidade, em forma de texto ou mesmo de Yuricast. Como pincelada vou deixar apenas esta minha observação pessoal:
Já pararam para reparar no quanto a Mei tem em comum com a Himemiya Anthy?)
Falando um pouco sobre quesitos de adaptação para anime podemos conversar um pouco sobre um dos pontos que causou muita polêmica dentro do fandom antes mesmo do lançamento do primeiro episódio: qualidade de animação. O estúdio responsável pela produção é o quase-novato Passione (ficha de trabalhos da empresa, no ANN) e, dentro de todas as limitações orçamentárias que um projeto de anime yuri tem sou da opinião de que, sim, a animação não é a mais bem produzida possível, mas também não prejudica a qualidade da obra.
A qualidade da arte da autora de Citrus, Saburouta, é incrível. Talvez só uma Kyoto Animation ou Mad House poderia colocar tanto empenho em fazer mechas de cabelo tão magníficas em cada quadro para realmente alcançar proximidade com o trabalho da Saburouta. Claro que tudo isso custaria uma infinidade de dinheiro à mais, algo que um anime de nicho do nicho como Citrus dificilmente conseguiria trazer de volta em forma de lucro.
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| Não é tão ruim ao ponto de ter vergonha vai. Netsuzou foi bem pior XD |
Em termos de dublagem e músicas até então estamos tendo um trabalho excelente. Ayana Taketatsu está fazendo uma Yuzu muito fluída, que transita entre os diversos tons que a personagem usa para se expressar de maneira precisa. A abertura da série, 'Azalea' do grupo nano.RIPE tem uma animação satisfatória e muito bem montada (montagem é tudo quando falamos de aberturas.
Agora vamos falar sobre o ponto central desta miscelânea em forma de post:
Adaptação.
Gostaria começar rebatendo alguns comentários maldosos que vi dentro do fandom sobre duas cenas do primeiro episódio do anime: a revista que Mei dá em Yuzu para pegar o celular, na entrada da escola e o beijo no final do primeiro episódio.
Em ambos os casos o argumento que vi sendo proferido foi a natureza abusiva (isso por si só é uma crítica? Não consigo entender o que as pessoas dizem com isso, sinceramente) colocada na versão animada deste dois acontecimentos. Infelizmente a explicação mais clara sobre cada um desses momentos não é uma só nem é simplista, então venham comigo desembaraçar um pouco estes pensamentos.
1) Yuzu é uma lésbica enrustida desde o começo?
Yuzu é uma gyaru que fingia ter uma vida amorosa agitada para impressionar suas amigas. Contava histórias sobre ter ficado com o cara tal e afins quando na verdade nunca sequer tinha beijado ou se apaixonado. Quando teve seu primeiro beijo roubado de maneira desleal (na segunda cena que vamos discutir) isso dá início à um movimento confuso dentro dos sentimentos de Yuzu que lhe levam a sentir-se atraída em todos os sentidos por Mei. Isso tudo culmina na sua descoberta de que seus sentimentos são sua primeira paixão.
Yuzu sempre se fizera de hétero pegadora para impressionar as amigas, para ser aceita como parte do grupo delas. Podemos ver ela ainda tentando reproduzir esse comportamento logo que chega no novo colégio e vê o professor (que depois descobre ser um desgraçado) assim como ela tenta ainda reproduzir o mesmo comportamento antigo para fazer novas amigas naquele lugar. É uma questão de busca por aceitação. Podemos ver mais para frente do mangá como essa questão de ser aceita pelas pessoas é algo que pesa muito para ela (quando se confronta com suas amigas e percebe que não seria mais aceita por ter se tornado diferente).
E o que isso tem haver com a cena da Mei passando a mão pela bunda da Yuzu logo na chegada pro seu primeiro dia de aula? Certo, vamos entrar um pouquinho mais fundo e falar sobre como o ponto de vista de uma história influencia o modo como vemos essa história sendo contada.
Ponto de Vista (Point of View - POV, em inglês) é um dos elementos mais importantes em uma narrativa. Não estou falando apenas sobre obras em escrita em primeira ou terceira pessoa (narrador intradiegético, extradiegético e afins),mas falando sobre a maneira como essa escola de ponto de vista influencia no que vemos numa obra. Enxergamos uma história através do olhar de um personagem escolhido pelo narrador (mesmo quando esse narrador escolhe contar tudo pelo seu próprio olhar).
Um exemplo de conhecimento mais amplo e bem simples é lembrar de como, na saga Harry Potter, o personagem de Severus Snape é descrito como uma pessoa fria, maldosa e vilanesca a todo momento e pensar que isso ocorre porque estamos "vendo" esse personagem pelos olhos do protagonista da história. Em história infanto-juvenis como esta é bem mais fácil identificar estes movimentos, mas esse tipo de influência ocorre tanto em obras mais complexas como também em quadrinhos, cinema e toda a forma de mídia narrativa que se apresente.
(Ficarei devendo boas referências sobre o assunto, mas se encontrar volto aqui e edito este comentário para inserir bons links para ler à respeito do tema)
Em 95% da história de Citrus estamos vendo tudo o que acontece pelo POV da Yuzu. Como argumentei antes, ela sempre foi uma lésbica enrustida, logo, quando uma garota bonita de repente vem passar a mão nela (buscando um celular, lembrem-se disso) ela não consegue evitar em prestar toda a atenção em cada detalhe daquele acontecimento. O instinto que está dormente nela reage ao contato inesperado, fazendo aquele momento ter uma importância muito maior para ela do que seria para outra pessoa. Logo, se estamos observando tudo pelo seu ponto de vista, este momento ganha também um grande destaque dentro da narrativa.
(E sim, tem também a parte do fanservice fazer audiência e audiência fazer grana, não precisam achar que estou sendo inocente quanto a isto. Porém vocês precisam entender que existe uma explicação que torna esse momento algo compreensível dentro da estrutura narrativa como um todo)
Agora, o nosso segundo ponto de discussão. O beijo.
2) Sim, a Mei é uma filha da p..., mas vejam que ela está reproduzindo o comportamento que vê no mundo que conhece.
Yuzu vê a Mei sendo beijada (à força) pelo professor e isso a deixa muito abalada. Ela tenta usar esse conhecimento como uma arma para provocar Mei (numa necessidade bastante infantil de ver a outra perder a compostura sempre impecável, convenhamos) e como resultado Mei lhe ataca e lhe rouba o primeiro beijo apenas para revidar as provocações (essas duas são umas criançonas. . .). A cena mescla o desespero de Mei em ser atacada daquela maneira com a confusão das reações do seu próprio corpo diante daquele contato. Quando Mei termina seu ataque não há qualquer traço de emoção em sua face. Yuzu por outro lado fica em completo choque, indignada e confusa diante daqueles acontecimentos.
Uma coisa que não temos como saber no começo da história é o fato de que a Mei é uma pessoa que não sabe entender ou lidar com os sentimentos das pessoas. Não. Ela é tão habituada a reprimir suas próprias emoções que consegue chegar ao ponto de agir sem qualquer remorso.
Agora, a parte que realmente é bastante intrigante nisso é a questão de Mei estar, naquele gesto nada elogiável, repetindo o que havia sofrido naquele dia mais cedo quando teve seu primeiro beijo também roubado de maneira nada elogiável pelo professor. Para além de uma criancice, Mei acaba usando aquele momento para colocar-se no mesmo papel de crime do qual havia sido a vítima. Como uma vingança que não soluciona nada (pelo contrário). É um ato imaturo e cruel de alguém que não entende nada de empatia e nem sequer de sentimentos. Uma pessoa tão absurdamente reprimida que só é capaz de agir através da violência quando é confrontada sobre algo que não é capaz de lidar e lhe causa repulsa (o abuso sofrido).
Sim, essa é Aihara Mei. Ela não é só uma filha da p... agindo sem qualquer coerência. Ela é um personagem complexo que, como um bom personagem, possui camadas de incoerência, imaturidade, parcialidade e fragilidade.
A questão das críticas à essa cena no anime me geram uma dúvida: será que essas pessoas não tinham entendido que a intenção da cena era essa desde a versão original, no mangá? Se entenderam esperavam que o anime amenizasse isso? Ou talvez não tivessem realmente entendido e esperavam algo. . . Diferente. . . Sinceramente não sei o que poderiam esperar.
Da minha parte só posso colocar elogios para a direção da série não ter tido medo de mesclar elementos tão complexos nos momentos necessários, conseguindo transmitir com toda a potencialidade de uma animação os sentimentos que a autora já havia expresso com maestria através do quadrinho.
Enfim. . . Era isso.
Sinceramente escrevi bem mais do que esperaria e poderia ter escrito ainda mais. Espero que possamos continuar debatendo sobre isso na sessão de comentários e, quem sabe, em outros artigos aqui no Kono-ai-Setsu. Este texto me fez lembrar muito quando escrevi a série "Comentários, surtos e teorias sobre Yurikuma Arashi" aqui no blog, um dos trabalhos que até hoje me deixa muito feliz em ter feito.
Para quem quiser dar uma olhada. Gostariam de algo mais próximo desse formato para Citrus?
Até a próxima!
domingo, 28 de janeiro de 2018
Posted by Mazaki89
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[Resenha] Deuses de Pedra - Uma reflexão disfarçada de livro
Olá a todos! Mais uma vez, a semi-nova redatora do blog, Lume, volta com outra postagem, desta vez sobre (pasmem) um livro Yuri. Isso mesmo, um livro, escrito, impresso e vendido nas livrarias para qualquer interessado comprar. Em mais de uma década indo periodicamente até livrarias e revistarias, reunindo centenas e centenas de livros e mangás, 2016 foi o ano em que eu obtive meu primeiro livro de romance lésbico para. Pensando sobre isso agora, foi uma surpresa e tanto pensar que eu só havia achado um desses agora, já que eu posso afirmar para quem quer que seja sobre meu status de leitora compulsiva e colecionadora de livros. Mas chega de enrolar; vamos ao livro!
Planeta Azul
O Planeta Azul conta a história de Billie Crusoe, uma cientista humana do Planeta Orbus, e Spike, uma robô sapiens prestes a ser desmantelada, que fogem juntas do governos para o Planeta Azul. Em Orbus, descobriu-se a possibilidade da Adaptação Genética, a qual consiste em uma "cirurgia plástica das células": através de procedimentos, é possível manter-se jovem por um longo período de tempo. Os humanos podem ficar com idades entre 25 até 12 anos. Com os avanços tecnológicos, todos têm acesso a essas técnicas, transformando o mundo num lugar de crianças e jovens adultos. Além disso, ainda temos a cirurgia plástica convencional, então todos são lindos e maravilhosos o tempo todo. E, como o ser humano enjoa fácil, as "aberrações", humanos que escolheram não seguir o padrão, são super valorizadas no planeta, como mulheres com bocas humanas nos seios. Sim, uma dessas apareceu em uma das cenas do livro. E tentou oferecer uns "servicinhos" pra Billie. Mas isso não é o foco aqui.
Obviamente, o romance entre a Billie e a Spike é o principal do conto. Elas cruzam olhares pela primeira vez em uma conferência do governo sobre o recém-descoberto Planeta Azul, que o leitor logo identifica como nosso Planeta Terra. O povo de Orbus fez com seu planeta natal o mesmo que fazemos atualmente com o nosso: extração intensa de matéria prima, poluição, danos a camada de ozônio, etc. Eles se deram conta disso tarde demais, e mesmo com as medidas avançadas que implementaram para retardar a morte do planeta, o alto escalão do governo sabia que Orbus tinha menos de 50 anos de vida. Portanto, a descoberta do planeta Azul foi algo fantástico para todos. Uma nova casa, com abundância em matéria prima, com risco zero de de auto destruir. Simplesmente fantástico., eles pensaram.
Depois dessa troca de olhares e do fim da conferência, algumas horas se passam até o segundo encontro. Nesse meio tempo, Billie foi visitar uma mulher, Rosinha McMurphy, que queria fazer uma Adaptação Genética para ter 12 anos de idade novamente. Tudo por causa do marido dela que, ao meu olhar e o de Billie, era um pedófilo totalmente sem-vergonha. O livro justifica essa vontade nojenta assim: "Agora que todos são jovens e bonitos, muitos homens preferem meninas ainda quase crianças. Querem alguma coisa diferente, porque tudo ficou igual." Realmente, esse não é um livro que se encontra todo dia na livraria da esquina.
Após essa visita, Billie recebe uma ligação de seu chefe. Ele diz que Spike pediu que ela, Billie, fosse sua entrevistadora no programa de um minuto mais detalhado da mídia (Contraditório, mas só faz você gostar mais da história). O chefe diz que esse foi o pedido de Spike antes de ser desmantelada. Descobrimos isso no comecinho do livro: Spike fora enviada para o planeta Azul, a fim de recolher informações sobre o lugar para o governo, e seria desmontada e enviada para a reciclagem após sua volta. O que incomoda Billie é que Spike é uma robô sapiens e, além de frustrar sexualmente a protagonista, deixa a humana se perguntando por que o governo iria reciclar um robô sapiens, que custa ao governos muito dinheiro na produção. Robôs sapiens são criaturas mecânicas feitas para agirem como humanos, porém sem emoções. Como o próprio livro diz, ter um robô sapiens é sinônimo de luxo e poder, já que são insanamente caros.
Meio forçada, meio curiosa, Billie vai entrevistá-la. Tudo termina bem, apesar de Spike partilhar informações "poucos apropriadas" para um programa nacional, como detalhes de sua vida sexual com astronautas enquanto estava em missão e dados coletados pela robô. Elas se despedem sem mais problemas depois disso. Então pulamos para uma cena no sítio de Billie, um sítio mesmo, com vacas e cavalos. É considerado ultrapassado pelo resto do mundo, mas para Billie, é um paraíso. Enquanto relaxava de noite, recebe a visita de um guarda, que diz a ela que Billie deve 3 milhões ao governo por multas de trânsitos. Descobrimos logo depois, com uma ligação de seu chefe, que Billie é inocente e que era tudo um plano governo para prendê-la. A cientista já havia participado de um movimento contra o Estado, justificando a armação dos 3 milhões de dólares. Ele oferece a ela uma viagem ao planeta Azul para escapar das políticas de Orbus, e ela, claro, aceita. Já na nave, ela se encontra com Spike, que havia fugido das garras do governo também. É lá que somos agraciados com um beijo das duas e suas reflexões sobre a nova vida.
Quando o grupo da expedição ao Planeta Azul finalmente chega ao seu destino, algo dá errado. Um asteroide fora de curso abalou as fundações da nave e sua comunicação com Orbus, prendendo a todos no planeta. Billie escolhe passar seus últimos momentos com Spike, e quando a robô descarrega completamente, ficamos com Billie e suas palavras doces, assegurando-nos de que tudo isso é apenas uma história e que logo outro começará. O fim.
Esse conto me intrigou bastante por ter uma semelhança com outro livro, "Admirável Mundo Novo". É um cenário futurista, uma utopia totalmente maluca para nós, onde os fetos são produzidos em laboratório e crianças são incentivadas desde cedo a terem relações afetivas com outras crianças. Tudo em prol do maior desenvolvimento humano. Realmente, a história assemelha-se tanto a esse livro que Admirável Mundo Novo é citado duas vezes no conto, mas apenas por alto.
Ilha da Páscoa
Estamos na época do que aparenta ser as Grandes Navegações. Billy, um marinheiro, é abandonado por seu navio em uma ilha desconhecida por conta de um ataque dos nativos. Perdido, ele tenta sobreviver por conta própria, até que é descoberto pelos locais, que o levam como oferenda para seu deus. Felizmente, um incidente ocorre, e Billy é salvo por Spikkers, filho de um marinheiro holandês. Billy conhece a história da ilha através de Spikkers, que lhe conta sobre uma disputa entre dois povos do lugar. O benfeitor de Billy tem um plano para acabar com esse conflito, mas, enquanto o punha em prática, as coisas não vai tão bem para Spikkers…
O segundo conto mostra uma reencarnação masculina de Billie e Spike. No entanto, não há um envolvimento amoroso explícito entre os dois, tanto que Billy até menciona que já é apaixonado por outro marujo chamado James Hogan (mas essa suposta paixão só é citada duas vezes no conto inteiro). Resumindo, Ilha da Páscoa não foca no romance. Aliás, o livro não foca no romance. Se você ler com atenção, dá para perceber que todas as quatro histórias são, na verdade, críticas sobre alguns acontecimentos na Terra.
Eu gosto bastante desse conto pois ele é o que mais puxa para o lado imaginativo. Jeanette Winterson é uma das autoras mais criativas que já li, e ela não economiza sua imaginação nesse conto. Não quero contar muito sobre a história em si; sou uma pessoa que odeia certos tipos de spoilers de todo o coração. Digamos que, apesar de ser curta, essa história vai cativar mais aqueles que gostam de saber todos os detalhes do universo que o escritor cria.
Depois da Terceira Guerra
Voltamos agora com a versão feminina do casal da vez. Depois da Terceira Guerra começa como uma biografia de Billie, nascida de uma mãe adolescente e abandonada num orfanato com menos de um mês de vida. O conto todo são divagações e reflexões de Billie, assim como impressões que teve de sua genitora.. Só no final ficamos sabendo que Billie trabalha no projeto da robô sapiens, o projeto para construir Spike. Detalhe: nesse conto, Spike é uma cabeça robô. Só a cabeça mesmo. Ela foi criada após a 3G, ou a Terceira Guerra Mundial, a fim de evitar uma Quarta. Billie tem a função de dialogar com a cabeça de Spike, contar a ela assuntos do mundo inteiro para que Spike possa processar todas essas informações e tomar decisões para ajudar o planeta. Um dia, por algum motivo, Billie leva Spike para passear, e a história continua no quarto e último conto, Cidade dos Escombros.
Cidade dos Escombros
Planeta Azul e Cidade dos Escombros são as duas histórias com mais de oitenta páginas, e por isso dediquei uma maior atenção a elas. O quarto conto dá continuidade a saída de Billie e Spike, que vão até a Cidade dos Escombros, uma espécie de subúrbio. É aqui que o leitor é melhor elucidado acerca do acontecido nessa realidade: a Terceira Guerra Mundial.
Não fica claro o porquê da guerra, mas suas consequências foram muito bem exploradas no livro. Após o conflito, o mundo teve que recomeçar. Todos culparam os governos que, enfraquecidos, deram lugar à MAIS, uma empresa "faz-tudo" que é considerada o novo governo. A MAIS aboliu qualquer tipo de dinheiro e noções de propriedade; agora tudo é alugado com jetons. Jetons são uma forma alternativa de dinheiro, sendo que todos tem os jetons de que precisam. Tudo nesse novo mundo é alugado, carros, roupas, até mesmo quadros. A MAIS deu uma nova oportunidade ao mundo, oferecendo empregos na reconstrução do planeta, além de segurança, educação, moradias, etc. Ela é uma espécie de "pseudo governo".
Continuando a história, Billie e Spike param num bar na Cidade dos Escombros. Elas conhecem um barman chamado Sexta-Feira e os três jogam conversa fora, até que, de repente, um carro com alguns japoneses para no bar, alegando estar ali para oferecer ajuda aos "refugiados dos Escombros". Sexta-Feira, com a ajuda de alguns motociclistas, expulsa os asiáticos, que não desistem fácil. Infelizmente, esse conflito termina com os japoneses explodindo e com a MAIS declarando uma invasão à zona dos Escombros.
No meio da confusão, Billie perde a cabeça de Spike. Com a ajuda de Sexta-Feira, ela procura a robô sem parar. Após algum tempo buscando, ela encontra Spike na casa de duas garotas, fazendo sexo oral numa delas. Billie fica revoltada, não por preconceito, mas por acreditar que "robôs não precisam saber fazer sexo oral". Spike acha uma injustiça, e no meio da discussão, declara que desertou da MAIS, sua empresa de origem, e que quer viver ali, na zona dos Escombros.
Uma das garotas que vivem ali acalma as duas, e convence Billie a passar a noite ali. Ela, no entanto, foge no meio da noite, levando Spike a tiracolo. As duas encontram um antigo telescópio, com anotações estranhas. Mas isso não é muito relevante para a história. Algum tempo depois, elas chegam numa festa acontecendo no meios dos escombros, mas que é invadida por agentes da MAIS e por mutantes, frutos da radiação deixada pela Terceira Guerra. Billie e Spike se refugiam no antigo telescópio, mas Billie decide sair, deixando a robô lá.
Previsivelmente, Billie leva um tiro de um agente. Em seus últimos suspiros de vida, que também são os últimos suspiros do livro, ela sonha com um sítio, possivelmente o sítio da Billie de Orbus. Lá, alguém não identificado a acolhe e assim, o livro termina, deixando uma grande interrogação em nós.
Deuses de Pedra não é um livro que deve ser lido de um dia para o outro, apesar de um leitor ávido conseguir terminar ele nesse período. Pelo menos, eu não aconselho fazer isso. Esse livro foi feito para nos fazer pensar. Pensar em coisas que consideramos banais, mas que ainda são importantes. Todos os contos têm uma crítica escondida sobre o conflito humano, seja ele em escala mundial ou entre tribos, sem contar no puxão de orelha que Jeanette nos dá sobre o descaso que temos com nosso planeta em Planeta Azul.
Algo que me chamou atenção no livro foi que ele não tem capítulos. O máximo que encontramos é a separação dos contos e um certo espaçamento entre linhas de pensamento, mas nada que seja um verdadeiro capítulo. Foi minha primeira experiência com uma história assim, e para ser sincera, gostei bastante. Esse tipo de estratégia faz você criar uma ligação mais forte com os personagens, pois não é como se você estivesse lendo um livro, mas sim como se escutasse a Billie te contar diretamente as aventuras dela.
Não é um livro para qualquer um, devo avisar. Se você não gosta de refletir, ler um livro de pouquinho em pouquinho, a narrativa de Deuses de Pedra será entediante. Até para mim foi um pouco difícil no começo, porque me acostumei a ler livros com uma dinâmica mais ágil e direta.
Eu poderia enrolar falando mais alguns detalhes desnecessários sobre o livro, mas a melhor resenha que eu poderia fazer de Deuses de Pedra seria apenas uma única frase: "O livro fala por si só."
sábado, 23 de abril de 2016
Posted by Unknown





