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Clarisse e Alex pt6 - Final
Olá a todos! Cheguei para postar o último capítulo dessa minissérie que surgiu meio que de improviso mas que foi muito bem recebida aqui no Kono-ai-Setsu, MAS, antes de mais nada, um breve pedido de desculpas pelo atraso (XD)
Pois é, pois é, eu sei que estou umas duas semanas atrasada com esse capítulo. O pior é que eu corri que nem uma louca e consegui escrever a tempo naquela semana! Só que por pura falta de organização minha não consegui vir aqui para fazer essa postagem. Incompetência, eu sei, mas espero que vocês possam me perdoar diante do texto da parte final dessa história.
Sim, parte final, vocês já leram três vezes até chegar aqui. Tudo o que é bom termina (e o que é mediado também, vamos ser mais modestos né) então, até segunda ordem, a história de Clarisse e Alex vai chegar a sua conclusão nesta parte. Prefiro que seja dessa forma do que ficar alongando e dificultando as coisas para as personagens quando já havia traçado uma rota certa para sua resolução.
Espero que esta sexta e até então última parte dessa simplória história de romance seja do agrado de quem acompanhou o enredo até aqui. Da minha parte fica uma grande alegria em ter criado e trabalhado com personagens tão interessantes quanto as três mais centrais da trama (Alex, Clarisse e, é claro, Jeniffer [#teamJenifer]).
Tenho planos para, logo que esteja livre do original que estou escrevendo em maratona, volte a trazer contos para vocês aqui do KaS. Na real eu já tenho um material aqui, mas ele está reservado para projetos yurísticos um pouco mais ambiciosos (detalhes: no dia em que eu puder dar mais detalhes!)
É isso. Agradeço de coração aos leitores do blog, em especial aos leitores das histórias que trazemos com carinho a todos e, sem nunca esquecer, à equipe KaS, que me dá sempre oportunidade de dividir minhas loucuras ficcionais com vocês!
Boa leitura!
Outras opções de leitura:
Leitura online (mediafire)
Clarisse e Alex, final
por Lilian Kate Mazaki
A festa de final de ano na redação estava animada como sempre. Em
várias paredes posteres de versões ampliadas da capa da edição
especial de final de ano eram exibidos como um troféu simbólico por
todo o trabalho desenvolvido pela equipe no período. Era bem
verdade que o fato de aquela também ser a última tarde no
escritório antes das férias coletivas, que durariam até o fim da
primeira semana de janeiro, deixava todos mais descontraídos, mas
ainda persistia o sentimento de comemoração pelo dever cumprido nos
últimos meses.
Clarisse recebia mais cumprimentos do que o de costume naquelas
ocasiões. Seu trabalho como assistente direta do editor-chefe da
edição especial lhe rendera uma boa impressão mesmo entre seus
colegas mais distantes. A jovem jornalista havia conseguido cumprir
sua função dupla de supervisão e ainda produzir conteúdo sem
desfazer-se de sua simpatia habitual. Com clareza e tolerância na
medida correta Clarisse conseguira sair-se muito bem em um teste que
poderia lhe abrir portas apartir próximo ano.
― Clarisse, nós estamos combinando de depois dar uma esticada em
um barzinho da zona sul. Não quer vir conosco? ― perguntou Joana,
uma revisora baixinha que Clarisse pouco lembrava de ver pela
redação.
― Eu? Ah, não vai dar. Eu tenho outros planos. ― respondeu,
aproveitando a brecha daquele pequeno "corte" para
desvencilhar-se do grupinho formado quase que integralmente pelos
mais novos do departamento editorial.
A verdade é que a mulher de cabelos castanhos não estava no clima
de descontração da maioria. Pelo contrário, a mente da redatora
estava tensa como há algum tempo não ficava. Seus olhos percorriam
ligeiros as rodas de conversa, buscando uma figura familiar. Qualquer
vislumbre de cabelos pretos já lhe faziam o coração dar um salto
sutil no peito. Havia passado os últimos três dias reunindo toda a
coragem que jamais tivera durante toda a vida. Sua decisão estava
tomada e agora só caçava pela oportunidade de, enfim, esclarecer
tudo o que ficara pendente na sua vida desde a faculdade.
Por que logo quando mais queria não conseguia encontrar Alex em
lugar nenhum? Seria a Vida uma senhora tão irônica e desdenhosa
quanto a misteriosa Jenifer que, depois de aparecer no seu
apartamento para sacudi-la no conforto de seus medos, jamais dera
notícias novamente?
― Ricardo, você viu a Alex por aí? ― perguntou Clarisse,
chegando até o amigo, um dos poucos não envolvido em alguma
conversa. Sua atenção estava toda para a tela do smartphone, tanto
que ele demorou alguns instantes para perceber que estava sendo
chamado.
― Opa, Clari. Eu não vi a Alex não. . . Aconteceu alguma coisa
para precisar chamá-la? ― perguntou o homem, num tom
desinteressado nada convincente.
― Não. Apenas estranhei que a autora da capa não estivesse em
lugar nenhum. ― respondeu Clarisse, ansiosa.
― Conta outra. ― retrucou Ricardo, sorrindo. ― Tem alguma coisa
aí e eu quero saber de tudinho. Vocês nem tem se falado há semanas
e agora você está procurando-a? Sei, sei. . .
Clarisse tentou parecer irritada, mas a maneira debochada do amigo de
falar era demais para manter sua seriedade impecável. Porém a
impaciência não lhe permitia ficar naquela troca de provocações
típica dos amigos por mais tempo:
― Olha, Ricardo, já vai ser muito difícil falar tudo uma vez,
então não tente me fazer dizer tudo antes da hora e para a pessoa
que nem deveria estar se intrometendo nos assuntos de suas amigas! ―
chiou a mulher, num tom baixo, quase ríspido.
― O-oh. Uma resposta perfeita, Clari. ― debochou Ricardo, com
toda a cara de quem confirma as próprias suspeitas. ― Olha, já
faz um bom tempo, mas eu lembro de ter visto a Alex conversando com o
Valter lá perto da entrada.
Sem esperar nem despedir-se, Clarisse deixou o amigo e partiu na
direção que fora indicada. Como o esperado nem Alex nem Valter
estavam por ali, mas, sem desanimar, a mulher saiu do do ambiente da
redação e adentrou o primeiro corredor de salas individuais que
viu. Olharia um por um se fosse necessário.
Talvez ela estivesse exagerando na sua afobação, porém o medo de
que perder a coragem e jamais fosse capaz de dar seu passinho para
fora do armário que cercava sua vida lhe impulsionava.
Alex fechou a porta da sala de reuniões e suspirou. Estava um tanto
relaxada graças à dose mediana de alcool que já consumira em pleno
meio de tarde, porém uma leve chatiação insistia em bater no
cantinho da cabeça. Não era a primeira vez que passava por uma
situação daquelas, mas era sempre uma coisa ruim.
Valter era um bom homem e chefe, no fim das contas. Era uma pena que
as coisas tivessem caminhado daquela maneira.
Sem pressa e pensando em escapar da festa e ir direto para casa, Alex
atravessou dois lances de corredor até quase colidir de frente com a
última pessoa que poderia esperar ver naquele momento:
― Clarisse?! ― exclamou a fotógrafa, mais pelo susto.
― Alex! ― a jornalista pareceu tão aliviada com aquele quase
esbarrão desastroso que isso chamou a atenção da morena. ―
Estava te procurando a um tempão, sabe.
― Ah é? Eu. . . Eu estava tendo uma reunião de trabalho
inesperada. ― disse Alex, apontando para o corredor de onde veio.
― Com o Valter? O que pode ser na véspera das férias? ―
perguntou Clarisse, franzindo a testa.
― Não. Nada de urgente. ― desconversou.
― Ah, mas é ótimo que te encontrei. Eu queria muito. . . Falar. .
. Contigo.
― Falar? ― repetiu Alex sem entender por um momento e então ela
acordou para o significado embutido daquelas palavras. ― Falar?!
Ora. . . Eu te disse que podemos conversar a hora que você quiser.
― Sim. Por isso mesmo. ― disse Clarisse, balançando
afirmativamente a cabeça. ― Acho que precisamos conversar. Agora.
― Agora? Tipo, agora? ― perguntou a fotógrafa, surpresa. Por
instinto ela olhou para os lados e sobre os ombros, precavendo-se da
aproximação de qualquer pessoa.
― Isso. Por aqui. ― disse Clarisse, segurando deliberadamente o
pulso da outra e puxando-a para a sala de reuniões mais próxima.
Alex ficou sem reação diante daquela iniciativa e deixou-se levar.
Quando viu estavam dentro de uma pequena sala com uma mesa elíptica
ao centro. Clarisse trancou a porta sem fazer barulho.
As duas mulheres se encararam em silêncio. Clarisse abriu a boca
para falar, mas pareceu incapaz disto. Desviou o olhar. Alex puxou o
ar, pensando em quebrar o silêncio, mas desistiu antes mesmo de
começar. A cabeça desta estava borbulhando constantemente com
aquela situação inusitada.
Depois de dias de silêncio e de fossa para ela, agora estavam mais
uma vez cara a cara e parecia impossível que aquela situação não
se solucionasse enfim, para o bem ou para o mal. A noção dessa
realidade fazia as pernas da morena perderem um tanto das forças.
Quanto mais os segundos se arrastavam mais Clarisse parecia perder a
capacidade de tomar a iniciativa do diálogo. Percebendo isso Alex
decidiu que faria isto. Porém ao abrir a boca a redatora ergueu a
mão num gesto claro de pedir que a palavra fosse sua. Porém o tempo
voltou a correr sem que nada fosse dito:
― Clarisse. . . ― disse Alex, sem saber muito bem o que dizer a
seguir.
― Espera. . . Sou eu que preciso tomar uma atitude aqui. Eu. . . ―
começou a mulher de cabelos castanhos, nervosa. Seus olhos brilhavam
quando encararam mais uma vez o olhar insistente de Alex.
― Mas. . .
― Ah, que se dane também.
― O q-... ― tentou questionar a fotógrafa, porém sua ação foi
cortada por algo que mesmo que sentisse vibrar no ar, não acreditou
realmente que aconteceria.
Clarisse avançara para tomar-lhe os lábios. Um beijo suave, quase
amedrontrado e que logo se desfez. Alex sentiu seu diafragma se
tensionar absurdamente diante do toque, assim como seu ventre.
Demorou um par de segundos para que sua pulsação pudesse
correponder a um ato tão fugaz:
― C-Clari. . .
― Droga. ― xingou Clarisse, o rosto lívido e os olhos brilhando
como nunca. ― É. . . É difícil dizer alguma coisa assim, de
primeira.
― É. . . ― concordou a fotógrafa, acolhendo em seus braços a
outra que se aproximou de maneira quase inconsciente. ― Talvez. . .
Talvez as palavras possam vir depois.
E dizendo isso Alex pode enfim atender ao pedido que tanto tempo
morou dentro de si e inclinou-se sobre os lábios de Clarisse,
tomando o beijo que tanto povoara seus sonhos de todos aqueles anos.
Esta não resistiu. Tentou retribuir da melhor forma. Tremeu
evidentemente quando suas línguas se entregaram àquele momento que
no fundo ambas aguardaram com tanta ansiedade. Alex podia sentir as
mãos de Clarisse nos seus ombros e nuca. Teve que controlar a
respiração para não deixar seus sentidos levarem-se por completo
naquele instante.
Engraçado, Alex pensou em algum lugar distante da sua consciência
enfraquecida. Engraçado como aquele beijo parecia tão forte como se
fosse ainda o primeiro que experimentasse com outra mulher. Talvez
por ser aquele o primeiro com a mulher que sempre desejara beijar.
Alguns longos minutos depois as duas enfim findaram aquele toque.
Mantiveram-se unidas pelo abraço, encarando a expressão leve e
maçãs ruborizadas da outra, com leves sorrisos brotando
espontaneamente:
― Me desculpe ser tão idiota. ― disse Clarisse. ― Todo esse
tempo eu só compliquei o que poderia ter sido simples desde o
começo.
― Está tudo bem, Clari. ― respondeu Alex, extasiada com o
momento. ― Cada um tem seu tempo. Você tinha o seu.
Não precisavam dizer mais do que aquilo. Deixaram-se emudecer por
mais uma dúzia de beijos ternos e desejosos. Seus sentidos
completamente voltados para o momento.
Talvez tenha se passado metade de uma hora, tentou mensurar Alex
quando retornaram à realidade. Pouco a pouco, depois do momento de
êxtase, os pensamentos mundanos retornavam ao seu topor:
― Não parece certo. ― comentou Clarisse. Alex franziu a testa
com indagação. ― Não, não isso. Digo que não parece certo duas
colegas de trabalho tendo este tipo de comportamento em uma sala de
reunião da empresa. ― apesar do comentário pertinente, Clarisse
não tinha a expressão de quem realmente se preocupava com aquela
questão.
― Mas. . . ― começou Alex, lembrando de algo importante. ― Nós
não somos mais colegas de trabalho, Clari.
― Como assim? ― perguntou a redatora, sobressaltando-se. Antes de
responder, Alex indicou para que saíssem dali. As duas retornaram ao
corredor e começaram uma lenta caminhada sem muito destino.
― Eu pedi demissão hoje cedo. ― explicou a morena. ― Antes de
nos encontrarmos eu estava falando ao Valter pessoalmente sobre isso.
Achei que seria o certo.
― Mas por quê? Isso é por causa. . . Por causa de nós?
― Um pouco. ― admitiu Alex. ― Mas também é porque a Jenifer
me arranjou um trampo ótimo na editora onde ela trabalha. Ela
conseguiu uma promoção e com isso pode chamar alguém para
completar equipe.
― Jenifer. . . ― disse Clarisse, um tanto reflexiva. ― Então
você está indo para a editora concorrente. ― Eu não consigo
imaginar a Jenifer como diretora de arte.
― Pois é. ― concordou Alex, percebendo depois o que escutara. ―
Espera, você conhece a Jenifer?!
― Longa história, Alex. Outra hora te explico.
As mulheres tomaram o rumo dos elevadores, deixando a festa de
encerramento de ano para trás. Já na saída do prédio as duas
pararam, sem muito rumo:
― Será que você quer ir com calma? Eu posso te chamar pra almoçar
amanhã ou alguma coisa assim. ― sugeriu Alex, rindo-se. Estava tão
aliviada agora que o peso da incerteza se fora que seu senso de humor
melhorara muito.
― Você está achando que está lidando com uma lésbica do colégio
ou o quê, Alex? ― perguntou Clarisse, num tom cômico de
indignação.
― Nossa, já percebi que não. Lésbicas de colégio além de serem
ilegais de se ter algum envolvimento hoje em dia, não são muito de
falar abertamente a "palavra com L".
― Foi a Jenifer quem me disse que precisava começar perdendo o
medo de falar isso, se queria me livrar das "amarras". ―
explicou Clarisse.
― De novo a Jenifer. . . ― disse Alex, num tom meio enciumado.
― Nós podemos ir beber alguma coisa aqui perto e daí eu te
explico essa parte surreal dos acontecimentos. ― disse Clarisse,
ignorando a crise da outra, divertindo-se com a expressão de
assombro da outra.
― E. . . depois?
― Depois nós decidimos isso. Não é melhor assim?
― Concordo. ― disse Alex, com um sorriso de lado. Abençoando com
todas as forças o momento em que retornara para a capital.
[FIM]
Extra
A campainha soou pela terceira vez antes que enfim a porta fosse
aberta. Tiago Siqueira abriu a boca para falar, mas diante da imagem
que viu perdeu completamente as palavras no caminho:
― Pois não? ― perguntou Alex, que vestia uma camiseta desbotada
com tema de jogos da era 8-bits e um shorts.
― A-Aqui não é mais o apartamento da Clarisse? ― perguntou o
homem engravatado, sem conseguir desfazer-se da expressão
assombrada.
― É sim. A Clari está no banho agora. ― respondeu Alex. ―
Você é amigo dela? Pode entrar para esperar se quiser.
― Não, não precisa. ― respondeu Tiago. ― Eu só estava
passando e decidi dar um oi. Estou muito ocupado na verdade.
― Hm. . . ― gruniu Alex, olhando o homem de aparência impecável
de cima à baixo, como se o avaliasse. ― Seu nome é. . . ?
― Ah sim, desculpe. Tiago Siqueira, advogado. ― disse o homem,
extendendo a mão e sendo retribuído.
― Alex Mendes, fotógrafa e designer de vez em quando. ― disse a
morena. ― Acho que a Clari já me falou de você. . .
― B-Bom, é melhor eu ir andando! ― disse Tiago, cortando
deliberadamente o rumo da conversa. ― Foi um prazer, er, Alex.
Tiago atravessou o corredor de volta em movimentos um tanto
robóticos, rígidos. Alex ficou observando-o até desaparecer na
entrada do elevador:
― O Ricardo não pode estar falando sério sobre esse cara. ―
resmungou Alex para si, fechando a porta do apartamento.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Posted by LKMazaki
Colocando as cartas na mesa (Clarisse e Alex pt5)
Olá a todos! Parece que foi ontem que postei a quarta parte da história de Clarisse e Alex aqui (um título seria bom, não? Mas deixa quieto...) e já é hora de mais dessas duas aqui neste blog! Na verdade, o conto de hoje poderia nem ser classificado como Clarisse e Alex, já que a dupla em foco não é bem esta mas. . . Enfim, vocês já vão ver. Será um bom capítulo para quem havia adorado a participação da Jenifer, lá na segunda parte!
Gostaria muito de agradecer a todos que estão acompanhando a história. Nós apreciamos e respeitamos todos os comentários, críticas e sugestões com muita alegria, pois nosso objetivo é, dentro das nossas possibilidades, sempre melhorar sem perder nossa identidade. Espero que continuem gostando desta saga que foi crescendo enquanto era publicada aqui no KaS.
E chega de enrolação. Vamos a mais uma parte da história!
Outras opções de leitura
Colocando as cartas na mesa
por Lilian Kate Mazaki
O som da televisão era tudo o que preenchia a pequena sala do
apartamento de Clarisse. O canal esportivo transmitia um campeonato
de ginástica olímpica ao vivo dos Estados Unidos. Em um dos breves
intervalos entre a realização de exercícios em diferentes
aparelhos a jornalista aproveitava para separar algumas cervejas
guardadas no freezer, passando-as para uma pequena caixa de isopor.
Pretendia deixar a recipiente sobre a mesa de centro, entre o sofá e
o televisor, para não mais precisar se levantar até o final da
competição.
Era quarta-feira e beber sozinha em casa estava longe de ser um
hábito seu, mesmo durante noites quentes do verão, porém seus
ânimos pediam uma dose generosa de álcool.
Desde o "desastre", como apelidara conversa com Alex na
Cafeteria Vintage, a redatora estava sentindo-se a pior das pessoas.
Era uma culpa tremenda pensar que deveria ter deixado sua amiga mal
com as palavras covardes que jogara sobre esta.
Claro, as duas ainda trabalhavam no mesmo andar do prédio da
editora. Alex passava por ela e Ricardo todos os dias, cumprimentando
normalmente. Porém a fotógrafa recusara os convites para almoçar
que Ricardo lhe fizera na primeira metade da semana. Alex também
vinha saindo pontualmente às quatro e meia da tarde, sem dar chance
para ser convidada para um happy hour. Clarisse também não a havia
visto sair para almoçar no horário comum, como vinha fazendo desde
que entrara para o departamento.
Sim, Alex estava claramente a evitando. A única comunicação entre
as duas havia se dado ainda no sábado da dita conversa, quando a
morena enviara uma mensagem curta pelo celular:
"Quando estiver segura, vamos conversar de novo."
― Eu sou uma imbecil. ― disse Clarisse a si mesma, atirando o
saco de gelo vazio na lixeira da cozinha estilo americano do seu
apartamento. Com ambas as mãos ela ajeitou as cinco latas de cerveja
no gelo quando ouviu o toque da campainha.
Aguardou, secando as mãos em um pano sobre o balcão. Não conseguia
imaginar quem poderia ser. Talvez Ricardo, o rapaz era expert em
detectar quando Clarisse estava ruim e costumava aparecer nesses
momentos para distraí-la. Alex não tinha ainda seu endereço, então
ela descartou de automático essa possibilidade.
Outro toque na campainha. Clarisse caminhou até a entrada e viu uma
mulher desconhecida pelo olho mágico. Abriu a porta com uma
expressão interrogativa:
― Ah, olá. ― cumprimentou a desconhecida. ― Você é Clarisse,
certo?
― Sim. E você? ― perguntou a jornalista, observando a figura da
outra de cima a baixo.
― Jenifer. Sou uma amiga da Alex. ― disse a designer. Clarisse
não conseguiu deixar de notar o conjunto jeans escuro de saia e
jaqueta, uma blusinha com temas tecnológicos por baixo que esta
vestia.
Clarisse abriu e fechou a boca duas vezes sem dizer nada. Não
poderia ser a visita mais inesperada, ela pensou de imediato:
― Será que poderia me convidar para entrar? Gostaria de ter uma
conversa não muito demorada, mas que seria melhor não ter no
corredor do seu prédio. ― pediu Jenifer, portando um sorriso
perene que incomodava um pouco a outra.
― Claro, sim. Por favor. ― respondeu Clarisse, abrindo a passagem
para a outra que prontamente entrou. Clarisse fechou a porta e
virou-se para a convidada. Esta já caminhava até o balcão da sua
cozinha.
― Ora, eu ia mesmo perguntar se não tinha alguma coisa para
tomarmos. ― disse Jenifer, puxando um dos banquinhos do lado
externo do balcão e sentado-se. Sem cerimônia ela alcançou uma das
latas de cerveja e abriu, catando também um copo para servir-se.
― Ah. . . ― Clarisse não sabia como reagir àquela invasão
feita com tanta naturalidade. Não era do seu feitio ser grosseira,
mas não tinha amigos tão folgados assim. ― Quer alguma coisa para
comer? ― perguntou, de modo automático.
― Hm? Não, não. ― disse Jenifer, depois de um longo gole de
bebida. ― Só senta aqui do lado. Não gosto de enrolar, então
vamos direto ao ponto. ― e apontou para o outro banquinho.
Clarisse sentou e Jenifer, catando outro copo limpo, serviu-lhe a
metade restante na lata aberta. A redatora não bebeu, apenas ficou
fintando a outra:
― Então. ― começou Jenifer, parecendo desapontada que Clarisse
não houvesse bebido. ― Como deve imaginar, estou aqui por causa da
Alex. A minha questão é: você sabe exatamente por que estou aqui?
Clarisse hesitou antes de falar:
― Não quer que eu me aproxime da Alex? ― disse, expondo a única
coisa que veio ao seu pensamento. Para sua surpresa Jenifer deu uma
gargalhada de divertimento puro àquelas palavras.
― Claro que não! Tá me achando com cara de alguma vilã de novela
das vinte e uma? ― riu-se a mulher de cabelos tingidos. ― Ou você
é muito negativa ou estou precisando mudar a cor da cabeça. Talvez
um rosa ou azul celeste. Azul é uma boa, na verdade.
― Mas então. . . ― começou Clarisse, confusa, porém sem
conseguir formar a pergunta.
― Eu sou amiga da Alex. Tá certo que a gente às vezes dorme
juntas e fazemos um sexo excelente, mas ainda assim somos amigas! ―
disse Jenifer, pausando para um gole de cerveja. ― Sabe, garota, eu
estou torcendo para que a Alex fique numa boa. É por isso que estou
aqui.
― Como é? ― perguntou Clarisse, ainda mais confusa.
― Olha, Clarisse, é assim: eu senti que nos últimos dias alguma
coisa tem deixado a Alex meio chateada e presumo que isso queira
dizer que as coisas não estão caminhando muito bem, ou muito rápido
entre vocês. Estou errada?
― Er. . . Entre nós? Mas nós não. . .
― Exato! Vocês não! ― exclamou Jenifer. ― Me diz a real
Clarisse: você é afim da nossa Alex, não é?
― Ah. . . E-Eu. . .
― Putz, tá na cara que você é um daqueles casos severos de "me
deixe em paz no meu armário!" ― disse a designer, apertando
os braços contra o próprio corpo, numa imitação de pessoa presa
em um lugar apertado. ― Gata, você já tá perto dos trinta e
ainda tá nessa?!
― Eu não. . . ― tentou argumentar Clarisse, irritada e
desesperada com aquela pressão, mas Jenifer não iria deixá-la
falar.
― Não? Vai querer me convencer que não tem certeza de que é
lésbica, é isso?!
― S-Se me deixar falar, Jenifer, eu. . . ― tentou começar
Clarisse, porém ela acabou se calando quando a outra tocou nos seus
lábios com o indicador para mantê-los fechados.
― Não preciso escutar esses seus argumentos, fofa. Você está
sendo mais óbvia do que "blockbusters hollywoodianos". ―
disse Jenifer, encarando-a mais de perto. ― Quando eu ver que você
não vai usar uma dessas frases feitas que nós duas sabemos que não
refletem em nada sua realidade eu vou te deixar falar.
Dessa vez Clarisse não tentou contra-argumentar de imediato. Esperou
e Jenifer tirou o dedo da frente dos seus lábios e serviu-se de uma
uma lata de cerveja:
― Então? ― perguntou esta, depois de um gole, olhando de lado
para a jornalista.
― Droga. ― disse Clarisse, num suspiro, e tomou todo o seu copo
de uma só vez. ― Eu só estou confusa com tudo isso. Nunca pensei
em mim como uma. . . A Alex foi a única por quem eu já senti isso
e, pra dizer bem a verdade, eu sequer havia parado para pensar no que
era isso, mesmo depois de tanto tempo.
― Lésbica.
― O que? ― perguntou Clarisse, sem entender.
― Lésbica. Você pulou a palavra. Tem que começar perdendo o medo
de dizer. ― explicou-se a designer. ― Me diz uma coisa: você
teve alguns caras nesses anos, não?
― Sim, eu. . .
― E sentia que faltava alguma coisa, não? ― perguntou Jenny,
observando o seu copo vazio pela metade, distraída. ― Minha
primeira vez foi com um cara. Eu só queria acabar aquilo e ir pra
casa.
Clarisse não teve reação por um momento. Achava intrigante como
aquela até então desconhecida conseguia despertar sua simpatia com
aquela sinceridade bombástica:
― Não era tão ruim assim.
― Mas também não era tão bom assim, aposto.
― Talvez.
Sem dizer nada, Jenifer levantou do banquinho e rodeou Clarisse,
passando os braços pelos seus ombros e puxando-a:
― Você é fácil de entender, Clarisse. ― disse, falando mais
baixo, perto da orelha direta da outra. ― A única diferença entre
nós é a sua incrível capacidade de acomodar-se em uma vida que no
fundo sabe que não serve pra você.
― N-Não é assim tão simples. ― murmurou Clarisse, mas Jenifer
riu-se de leve.
― É mesmo? E como você vai argumentar que não é uma pessoa
simples de entender se eu sei que nesse exato momento você está
prestando mais atenção na sensação dos meus peitos pressionando
as tuas costas do que no que eu falo? ― questionou a designer e
Clarisse afastou-se desajeitada, sem porém conseguir disfarçar a
falta de jeito.
"Olha, Clarisse, eu vou ser bem direta agora: desde que conheci
a Alex eu sei que ela é apaixonada pela colega de faculdade.
Confesso que acho quase doentio alguém conseguir manter-se
apaixonado mesmo passando anos sem nem falar com a pessoa, mas isso
não vem ao caso."
"A questão é que eu não quero que você faça a nossa Alex
sofrer. Ela já passou maus bocados durante todo esse tempo. Não é
agora que enfim vocês se reencontraram e blá-blá-blá que você
vai amarelar e fazer ela ficar mal."
"Você é uma de nós e sabe disso. Então, se está assustada
ou qualquer dessas outras coisas que gente que fica no armário diz
que sente, apenas vá e fale abertamente com a Alex."
Clarisse estava atônita com aquela torrente definitiva de verdades
vindas daquela mulher. Jenifer percebeu aquele momento de suspensão
da outra e tomou uma atitude radical: deu três passos à frente e
segurou os ombros de Clarisse e roubou-lhe um beijo:
― E-Ei! ― exclamou Clarisse, chocada. ― É assim que quer
ajudar sua amiga?!
― Só estou te dando o empurrão, filha. ― disse Jenifer, com um
sorriso. ― Não precisa se preocupar. Mesmo que fosse fácil te
levar para a cama eu jamais tiraria sua primeira vez da nossa Alex.
Clarisse teve vontade de sumir diante daquela declaração tão clara
da outra. Sentiu-se quente e teve certeza de que seu rosto deveria
estar em brasas:
― Heh, você é tão fofa. ― comentou Jenny. ― Dá pra entender
porque a Alex é tão caidinha por você.
― E-Eu. . . ― gaguejou Clarisse que não conseguia esquecer que
ainda estava presa nos braços da outra.
― Hm? ― já Jenifer não parecia se importar muito em manter um
diálogo amistoso de uma distância tão curta.
― Eu não consigo te entender, Jenifer.
― Ora, eu só sou uma pessoa sincera e prática. ― disse a outra,
abrindo ainda mais o sorriso. ― Bom, melhor te soltar antes que
seja você quem queira ser levada para a cama, né. ― continuou,
enfim livrando Clarisse do seu abraço. ― Sabe, tem uma garota que
estou saindo agora. . . Eu fui a primeira mulher dela e, bom, é
mesmo uma coisa bem bacana. . . Ensinar como duas garotas fazem para
se divertir sozinhas, enfim. . . Bom, acho que a Alex vai te ensinar
isso muito bem.
Clarisse mais uma vez não teve palavras para comentar aquela pequena
revelação dita com tanta casualidade. Jenifer por sua vez alcançou
seu copo sobre o balcão e o esvaziou antes de tomar o caminho da
saída. Sem esperar ser acompanhada pela dona da casa destrancou a
porta e só virou-se quando Clarisse enfim disse algo:
― Como você conseguiu meu endereço? ― foi o que esta perguntou.
Jenifer abriu seu sorriso mais uma vez.
― Se você fosse uma pessoa mais "pra frente" como eu,
saberia que ter papo pode te levar a qualquer lugar. ― foi o que
respondeu.
― Você quer dizer uma pessoa atirada, não?
― Atirada? Nada disso. Não é só porque eu tenho coragem de dizer
coisas como: "Eu sei que você vai ter um sonho molhado comigo
essa noite, sua virgem de mulheres," que posso ser considerada
atirada.
― E-Ei! Eu não. . .
― Até outro dia, Clarisse. ― despediu-se Jenifer, cortando a
outra mais uma vez, fechando a porta em seguida.
Clarisse olhou para a calmaria reestabelecida na sua sala e suspirou.
Sentou-se em um dos banquinhos e olhou para o copo vazio. Sua mente
começou a reviver algumas passagens da conversa de pouco antes:
― Droga, me apertar e beijar também foi apelação, sua vaca.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Posted by LKMazaki
[Conto] Para além das tolas vontades (Clarisse e Alex pt3)
Olá a todos! Cá estamos com a terceira parte da história de Clarisse e Alex aqui no Kono-ai-Setsu. Gostaria de agradecer ao feedback positivo nos comentários e diretamente a mim nas redes. Todos vocês que deixam opiniões me motivam muito a trazer mais partes da história.
Sobre esta terceira parte acredito de verdade que seja uma das menos empolgantes da história inteira, mas é também fundamental para formar todo o contexto do enredo envolvendo Alex, a fotógrafa descolada, e Clarisse, a redatora com uma capacidade gigantesca de enganar a si mesma sobre seus sentimentos.
De qualquer modo, espero que apreciem mais esta história. Daqui a duas semanas, tem mais.
Boa leitura!
Para além das tolas vontades
por Lilian Kate Mazaki
Tiago Siqueira era um jovem e promissor advogado. Trabalhava nove
horas por dia no escritório montado por seu pai, a mais de vinte
anos. Seus ternos estavam sempre alinhados e sua mesa mantinha-se
limpa e organizada. Seus arquivos digitais e físicos eram os mais
bem estruturados do escritório e sua secretária era a mais jovem
entre as três que serviam aos atuais seis advogados da associação.
Sempre sério e observador em ambiente de trabalho era também um
homem saudável, praticante amador de tênis ao qual se dedicava pelo
menos em três ocasiões da semana. Seu pai, falecido a alguns anos,
sentiria orgulho dele, tinha certeza. Um profissional competente que
nos fins de semana visitava a mãe e irmã no interior.
Um homem perfeito, ou quase.
A grande frustração de Tiago era a vida amorosa. Depois de uma
juventude cheia de idas e vindas ele enfim havia se apaixonado e
vivido o amor, aos vinte e dois anos. Uma mulher inteligente e de bom
gosto, bela e gentil que o encantara de todas as formas que é
possível fazer a um homem. O advogado planejou pedí-la em
casamento, mesmo que eles mal tivesse completado um ano de namoro.
Para ele não haviam motivos para esperar pois não seria possível
encontrar tal sentimento de admiração novamente por outro alguém.
Porém isso não dependia apenas da sua vontade.
Clarisse recusara seu pedido de casamento. Mesmo ele tendo se
preocupado em levá-la ao restaurante mais caro e romântico da
cidade, pedido o melhor vinho e escolhido a mesa mais discreta. Ela
não apenas recusara como também rompera o relacionamento deles na
sequência.
Tiago jamais esquecera o momento. Clarisse falara qualquer coisa que
soara como um “não é você, mas eu não estou pronta para isso”,
levantara e dissera “melhor pararmos com isso por aqui” e saira
sem dizer mais nada. Não havia sequer lamentação nos olhos daquela
que ele já considerava o grande amor da sua vida.
Mesmo que já tivesse passado quase três anos desde aquela noite de
fracasso ele ainda se perguntava onde afinal havia errado. Seria sua
culpa que as coisas tivessem terminado daquela maneira tão abrupta?
― Tiago? Você tá dormindo, cara? ― chamou uma voz distante. ―
Cara?
Tiago despertou das suas lembranças. Levou alguns segundos para
reconhecer o barzinho e também o homem sentado no banco do outro
lado da mesinha de madeira. Ricardo o observava com uma expressão
perplexa:
― Ah, desculpa. ― disse ele finalmente. Só então suas
lembranças de ter chamado o antigo conhecido para tomar umas
cervejas. ― Eu acabo ficando meio distante quando lembro desse
assunto.
― Se você fica mal quando pensa no que aconteceu, por que me
chamou aqui para falar da Clarisse de novo? ― perguntou Ricardo,
servindo o copo já vazio do advogado. Aquela era apenas a segunda
cerveja que tomavam.
― É que eu não consigo esquecer! Eu preciso entender para
conseguir superar! ― exclamou Tiago, pegando o copo e bebendo todo
o conteúdo de uma só vez. Ricardo suspirou e o serviu de novo antes
de pegar seu próprio copo.
― Olha, eu já tô cansado dessas suas lamentações infinitas. ―
começou Ricardo, com a testa franzida. ― Já fazem o que? Quatro
anos? A Clarisse já teve meia dúzia de outros namorados e você
ainda está lamentando aquela noite!
― Eu sei que você é a única pessoa que pode me esclarecer tudo o
que aconteceu, Ricardo. ― acusou Tiago, apontando o indicador para
o outro. ― Você é o “melhor amiguinho viado” da Clarisse. É
óbvio que você sabe tudo sobre ela!
― Cara. . . ― começou Ricardo, perdendo a paciência bem rápido.
― Não me importo que me chame de viado, afinal é verdade. Só não
use essa palavra com esse tom debochado.
― Desculpa, desculpa! Tô só irritado! Só isso! ― esbravejou
Tiago, desabotoando os punhos da camisa com irritação. Porém ele
já havia feito o jornalista perder o controle sobre as palavras.
― Pra começar nós dois nos conhecemos numa festa gay, você deve
se lembrar muito bem. Então não é nem justo ficar me chamando de
viado assim quando você não é muito diferente!
― Pera lá! ― Tiago também estava perdendo os limites da
conversa. ― Isso faz muito tempo! E eu era bi, não gay. Tanto que
o amor da minha vida é a Clarisse! Faz tanto tempo que não fico com
um cara que estou quase “prescrevendo” desse meu lado.
Ricardo deu uma risada rouca quando ouviu aquilo. Foi uma sorte, pois
isso aliviou também um pouco da sua raiva, substituindo pela vontade
incontrolável de destruir algumas ilusões do outro:
― Você é a bicha mais sem noção que eu já conheci, Tiago. Tão
cega que não é capaz nem de perceber que ninguém deixa de ser
viado por “falta de prática” nem de entender de uma vez por
todas que você nunca foi o “lance” da Clarisse. ― explodiu
Ricardo, falando com o maxilar apertado.
― Opa, opa, opa! O que você disse?! ― surpreendeu-se Tiago,
despertando da sua exasperação, tamanho o sobressalto.
― Sobre você ser uma bicha?
― Não! Sobre a Clarisse!
Foi então que Ricardo deu-se por conta do que dissera e numa reação
automática deu um tapa na própria testa. Se tinha um defeito que
ele não possuia era o de ser fofoqueiro, porém toda a sua lealdade
havia desmoronado em um instante de fúria. Agora o estrago estava
feito:
― Anda, explica isso aí, Ricardo. ― exigiu Tiago.
― Cara. . . ― começou Ricado, coçando atrás da orelha e se
enclinando para trás. O redator considerou em sair correndo, porém
sabia que o outro tinha o físico muito mais preparado e terminaria
por alcançá-lo. ― A Clarisse é completamente gay. As únicas
pessoas que ainda não sabem disso são você e ela mesma.
― A Clarisse. . . ― começou Tiago, a boca ficando aberta à
guisa de espanto, sem que ele conseguisse concluir a frase. ― Ela.
. . Ela. . . Mas. . . Não pode.
― Como assim “não pode”? ― estranhou Ricardo, erguendo uma
das sobrancelhas.
― Nós transamos várias vezes. ― disse Tiago, usando um
argumento que fez as entranhas do outro revirarem em revolta.
― E parece que ela curtiu tanto que te dispensou sem nem pensar
duas vezes. ― atacou Ricardo. ― Se liga, cara!
Tiago balbuciou mais uma série de coisas desconexas, parecendo não
conseguir formar um novo argumento sem que algo o destruísse antes
de ele poder enunciá-lo. Ricardo aproveitou o momento para esfriar
um pouco a cabeça com um copo de cerveja e então retomou a conversa
com mais paciência:
― Tem gente como você, Tiago, que fica plenamente satisfeito com
as duas coisas. ― disse o redator, sentindo-se um professor de
Ensino Fundamental, da aula de sociologia ou qualquer coisa
semelhante. ― Mas tem gente como nós, eu e a Clarisse, que mesmo
que façam com alguém do outro sexo e mesmo gostando, sempre vai
sentir que tem alguma coisa errada. É por isso que somos o que
somos.
― Você disse que ela não percebeu isso, não disse? ― perguntou
Tiago, enfim conseguindo articular uma sentença completa.
― Na real ela é muito boa de se enganar, é o que eu acho. Às
vezes sinto vontade de jogar a verdade, mas fico preocupado com a
reação dela. ― confessou Ricardo. ― Me preocupo mesmo. Quanto
mais o tempo passar mais difícil pode se tornar pra ela aceitar. A
gente vai envelhecendo e adquirindo os preconceitos do mundo.
― E eu nunca suspeitei. ― disse Tiago, parecendo mergulhado mais
uma vez em seus devaneios. Estava tentando recordar de qualquer
situação onde poderia ter ficado evidente aquele fato, mas nada lhe
vinha ao pensamento.
― Será que agora você é capaz de desencanar? ― perguntou
Ricardo, depois de acenar para o balcão do bar pedindo mais uma
cerveja.
― Acho que sim.
― Sério? Você é mesmo pragmático. ― surpreendeu-se o
jornalista.
Os dois homens continuaram bebendo até esvaziarem a terceira
garrafa. Não conversaram muito nesse meio tempo. Ricardo permitiu ao
outro vagar por sua lembranças em busca de comprovações. Na
verdade ele mesmo estava um tanto perdido em devaneios, enquanto
fintava o advogado sem disfarce. Quando terminou o último gole de
bebida, Ricardo sem aviso levantou-se e atirou algumas notas no
centro da mesa, pagando sua parte na conta:
― E sobre aquilo de “prescrever”, acho que você só ainda não
encontrou um cara legal que vai te tirar da linha heteronormativa de
vez. ― disse, virando e saindo sem se despedir.
Os dias estavam ficando mais quentes com a aproximação do verão.
Nas ruas as decorações de natal já começavam a ser vistas. O
calendário do comércio era pontual em começar suas campanhas, na
segunda-feira seguinte ao Dia das Crianças.
Clarisse estava atribulada com todas as tarefas inesperadas que
recebera. Com a saída de um importante editor por motivos de saúde
o seu chefe direto havia sido promovido e a redatora, uma das suas
pessoas de confiança, ganhara uma série de responsabilidades com
relação à edição especial de final de ano da Revista. Ainda que
ela estivesse feliz pela oportunidade o peso das novas
responsabilidades como assistente direta do novo Editor Chefe estavam
a desgastando em demasia.
“Woa! Isso está ótimo, Alex!” Clarisse ouviu a voz familiar do
chefe exclamar do outro lado da redação. Sem perceber a redatora
parou a escrita de um e-mail e virou o olhar para enxergar o que
acontecia. Ela viu a fotógrafa e o editor sentados à mesa deste:
― Sem falsos elogios, Valter. ― disse Alex.
― Não é falso. Era exatamente o que estávamos procurando para a
capa. ― disse Valter, um homem de meia idade e já um pouco calvo.
― Só um instante. ― disse, vasculhando com os olhos a redação.
Para a surpresa de Clarisse ele sorriu quando cruzou os olhos com os
dela. ― Clarisse! Vem aqui mulher! Temos uma nova capa!
Clarisse levantou e cruzou entre as baias o mais rápido possível,
apesar do desconforto. Já fazia quase um mês desde que Alex
assumira sua função como fotógrafa na editora, porém as duas mal
tinham trocado alguns pares de cumprimentos naquele meio tempo. A
presença da amiga ainda era algo que desconsertava Clarisse um
tanto. Ainda assim esta tentou parecer o mais profissional o possível
quando chegou até Alex e Valter:
― Clarisse. Dá uma olhada nisso aqui. ― disse Valter, passando
uma folha para a assistente e redatora. ― Me diz se não é
perfeito!
― Está ótimo mesmo. . . ― disse Clarisse, observando os
detalhes da imagem. ― Você fez a edição, Alex?
― Ah, sim. A gente tem que saber se virar com essas coisas, pra não
ficar tão dependente dos designers. ― disse a fotógrafa,
sorrindo.
― Está decidido. Não vou fazer outra reunião só para isto. ―
sentenciou Valter, animado.
― Mas, senhor, a capa já não havia sido aprovada? Não acho que o
Gustavo vá gostar de ser tirado assim. ― alertou Clarisse.
― Ai, ai. Eu sei disso, Clarisse. ― disse Valter, franzindo a
testa. ― Eu mesmo vou falar com o Gustavo. A questão é que não
podemos deixar de usar uma arte melhor por causa do ego de um dos
nossos artistas. Ele é ótimo e vai ter muitas outras capas no
futuro.
― Eu só estava alertando, senhor. Também acho que devemos usar
esta. ― corrigiu-se Clarisse. Mesmo sem virar-se ela pode sentir o
olhar de Alex sobre si quando disse isto.
― Certo, certo. Obrigado por isto, Clarisse. ― disse Valter. ―
Alex, deixe-me cumprimentá-la por sua primeira capa logo no primeiro
mês conosco! ― completou ele, estendendo a mão que foi
prontamente correspondida pela fotógrafa.
― Muito obrigada, Valter. Valeu mesmo! ― disse Alex, só
sorrisos.
Percebendo o final da mini-reunião, Clarisse despediu-se e saiu da
redação para ir à pequena sala anexa, onde ficava o café. Àquela
hora, pouco antes do almoço, o local costumava estar vazio. Depois
de servir-se de uma dose generosa da bebida, a redatora recostou-se
ao lado da janela e desfrutou um pouco da brisa do exterior. Ela
estava de costas para a porta quando ouviu o estalo desta ao ser
aberta:
― Ah, você está aqui.
Clarisse virou o rosto na direção da entrada ao perceber a voz de
Alex. A fotógrafa deixou a porta atrás de si fechar antes de
mexer-se:
― Oi, de novo. ― cumprimentou Clarisse, acenando com o copo. Alex
foi até a cafeteira para servir-se. Nenhuma das duas falou até a
fotógrafa apoiar-se também na janela para observar a paisagem
urbana.
― Você anda bem cheia de serviço, não é? ― comentou esta.
― Pois é. Espero que meu contracheque seja correspondente a essa
trabalheira. ― disse Clarisse. Alex deu uma risada desse
comentário.
― Ainda acho que você e o Valter estão conspirando para tentar
aumentar meu ego. Capa logo no primeiro mês. . .
― Nada disso. Eu achei sua imagem excelente. Não sabia que você
editava naquele nível. ― confessou Clarisse com sinceridade. A
outra nada respondeu a isto, mas deixou escapar um sorriso orgulhoso.
O silêncio predominou novamente enquanto ambas apreciavam as
bebidas. Clarisse foi a primeira que terminou o café e num movimento
atirou o copo descartável na lixeira discreta ao lado do pequeno
balcão onde estava a cafeteira. Alex parecia estar esperando aquele
momento:
― Então, Clarisse, eu estava pensando. . . ― começou a morena,
ainda observando a paisagem. ― Será que você não quer dar umas
voltas qualquer dia desses? Desopilar dessa montanha de serviço. ―
convidou Alex. Clarisse gaguejou alguma coisa antes de responder.
― Quem sabe, né, seria bom. A gente fala com o Ricardo. Ele
conhece uns lugares muito bons. ― comentou Clarisse transparecendo
um tanto de nervosismo.
― Não. ― cortou Alex.
― Não? ― repetiu Clarisse, sem entender. A morena então tirou
os olhos dos prédios e encarou a expressão interrogativa da outra.
― Quis dizer que nós duas poderíamos dar umas voltas. ―
explicou Alex, a expressão séria, encarando os olhos amendoados de
Clarisse sem sequer piscar.
― A-Ah. . . ― murmurou Clarisse, em entendimento.
― Tem uma cafeteria na zona norte que parece ótima. Uma amiga me
indicou. ― comentou a fotógrafa, desanuviando um pouco a
expressão.
― Sei. . . ― disse Clarisse, parecendo atordoada. ― B-Bom,
então depois combinamos! Só me passar uma mensagem mais tarde que a
gente vê os detalhes, ok? ― continuou ela, ajeitando-se com pressa
e tomando o caminho da porta.
― Clarisse.
― Sim? ― perguntou esta, virando-se.
― Você não me passou seu número ainda. ― Alex pareceu
divertir-se diante do nervosismo óbvio de Clarisse.
― É mesmo! Também não tenho o seu. ― disse Clarisse, sacando o
celular. As duas trocaram os números e a redatora saiu dando apenas
uma guisa de “até depois”.
Para Alex foi o suficiente.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Posted by LKMazaki