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[Conto] Nova vida e antigos sentimentos (Clarisse e Alex pt2)
Olá a todos! Depois de duas semanas da publicação do conto "Prelúdio de um recomeço" estou cá de volta para trazer a vocês o que nem eu mesma poderia imaginar na data daquela postagem: a continuação da história de Clarisse e Alex.
Depois de receber um feedback super positivo tanto aqui blog como nos bastidores (leiam isto como "a Big Boss surtando") acabei ficando motivada (Big Boss: "Eu EXIJO uma continuação disso no KaS!!!!") a trazer uma sequência para a trama iniciada em Prelúdio de um recomeço. É com alegria que anuncio que este texto não é somente uma sequência, mas sim apenas a segunda parte de uma história que será serializada aqui no KaS nos próximos meses, em formato quinzenal.
Só posso agradecer à direção do KaS e também aos leitores-comentaristas pelo espaço para trazer minha primeira história original ao blog. Espero que acompanhem essa breve saga de encontros e desencontros da redatora Clarisse e a fotógrafa Alex.
Enfim, vamos para o texto. Comentários são muito bem vindos, como sempre.
Outras opções de leitura
Nova
vida e antigos sentimentos
por
Lilian Kate Mazaki
Em
meio a um desembargue tumultuado Alex conseguiu identificar em meio à
confusão o aceno de um rapaz sorridente. Ricardo, exatamente o mesmo
de três anos antes, pensou a fotógrafa, ao retribuir o gesto. Um
tremor involuntário varreu o corpo desta quando enfim enxergou a
pessoa que acompanhava o antigo colega de faculdade. Alex fez o
melhor possível para não deixar a avanlanche de sentimentos
transparecer na sua expressão.
Clarisse,
quase a mesma Clarisse que se recordava. Os cabelos castanho
alourados estavam mais compridos do que se recordava e pareciam menos
disfarçados por tratamentos. As roupas também eram outras, mais
sociais e neutras. Era o que se esperaria de uma redatora de uma
renomada revista informativa mensal, pensou Alex. Também havia algo
de diferente na expressão de Clarisse, pensou essa enquanto
percorria os metros restantes entre ela e os dois, um quê muito
maior de maturidade do que se recordava ver no rosto sempre sonhador
da antiga amiga. Aquela que, concluiu naquele instante, ainda
continuava sendo sua grande paixão não-resolvida.
— Alex,
bem vinda! — exclamou Ricardo se adiantando para um abraço. Depois
do carinhoso aperto, o homem fintou o rosto da fotógrafa com
carinho.
― Oi.
― respondeu Alex, já voltando o olhar para a outra mulher. ― A
quanto tempo, Clarisse.
― Bem
vinda de volta. ― respondeu Clarisse, de modo um tanto automático.
— Oi,
oi pessoal. — cumprimentou Alex, detendo-se por um instante,
tentando decifrar a expressão um tanto distante da outra mulher.
— Ei,
você deu uma melhorada no visual ein. — comentou Ricardo,
referindo-se às mechas irregulares da recém-chegada, que tinha sido
cuidadosamente despenteadas buscando um charme mais rebelde.
— É,
demorei para acertar o jeito de arrumar, mas acho que estou
satisfeita agora. — respondeu esta, agarrando uma das pontas da
mecha que deixava caída à frente da orelha direita.
—
Então,
viemos para te dar uma carona de táxi para sua nova moradia.—
disse Ricardo, gentilmente pegando a bolsa de ombro que Alex trazia
consigo, além da alça da mala de rodinhas, já caminhando para a
saída do aeroporto.
—
Carona
de táxi. Essa foi boa. — riu-se Alex, seguindo o rapaz, assim como
fez Clarisse.
— Se
você não vai pagar, então é uma carona. — argumentou Ricardo.
— Mas
se a corrida é exclusivamente para me levar até lá fica meio
estranho chamar de carona. — contrapôs Alex.
— Você
é sempre tão racional. — reclamou Ricardo e as duas mulheres
riram do tom irritadiço que ele utilizou.
Uma
vez no táxi, com Alex sentada na frente e os dois redatores no banco
de trás, o longo trajeto até o apartamento que a repórter
fototográfica alugara começou a ser percorrido. As conversas eram
todas puxadas e mantidas por Ricardo. Clarisse continuou sendo a que
menos se envolveu nos assuntos. Levou cerca de meia hora para que o
táxi alcançasse o destino e os três subissem para o apartamento.
Quando
destrancou a porta e adentrou pela primeira vez no novo apartamento
Alex sentiu-se mais uma vez feliz por poder confiar em Cíntia para
cuidar desse tipo de assunto. Até então ela não havia visto o
lugar a não ser por fotos, e vazio. A irmã não só cuidara dos
detalhes imobiliários como também decorara todo o lugar de modo
agradável. Mesmo as duas tendo gostos tão distintos sua irmã mais
velha entendia bem o gosto da caçula:
—
Noooossa,
a Cíntia é uma decoradora de mão cheia! — exclamou Ricardo,
depois de depositar as duas bagagens a um canto, dando uma boa olhada
na sala. — Estou até me arrependendo de não ter seguido para a
área de fotografia. . .
— Não
é pra tanto. A mana consegue ótimos preços com os fornecedores
dela. — comentou Alex, indo até a pequena varanda. Um toque de
celular a fez voltar o olhar de volta para o cômodo. Clarisse tirava
seu aparelho.
“Alô?
Ah, sim Valter, posso falar sim.” começou Clarisse, franzindo a
testa. “O que? Agora? Mas eu pensei que. . . Eu sei que não, mas.
. . Não senhor, eu só não entendi porque tão de repente. . . Não,
por mim tudo bem, não se preocupe. . . Certo. Meia hora. Ok, até.”
― Qual
foi agora, Clarisse? O Valter te chamou? ― perguntou Ricardo, já
exasperado.
― O
diretor de conteúdo resolveu adiantar uma reunião de conteúdo do
próximo especial. Ia ser só na terça, mas ele não quer esperar. ―
explicou Clarisse, com a expressão de frustração evidente. ― Vou
ter que ir.
― Tudo
bem, garota. Você tem muito futuro na editora, é importante estar
presente sempre que te chamam. ― disse Ricardo, tentando consolar a
amiga que parecia desapontadíssima. ― Nunca que eles iriam chamar
o Ricardinho aqui para uma reunião, afinal sou insignificante. É um
ótimo sinal!
― Eu
sei. ― concordou Clarisse, apesar de não parecer animar-se muito.
― A-Alex, desculpe por isso, eu. . .
― Tudo
bem. ― apressou-se em dizer a fotógrafa. ― É como o Ricardo
falou, é uma coisa boa eles te chamarem.
Alex
foi com Clarisse de volta à entrada enquanto Ricardo ficou na sala,
apenas observando. A fotógrafa abriu a porta para a outra e saiu com
esta, fechando ligeiramente a entrada. Clarisse virou-se para esta,
ainda portando uma boa dose de frustração:
―
Desculpe de novo, Alex. ―
disse. ― Não queria ter que sair tão de repente. Mal conversamos.
― Não
se preocupe. Logo vamos ser colegas de trabalho, mesmo que de
redações diferentes. ― disse Alex, sorrindo talvez mais do que
gostaria.
―
Certo.
―
concordou Clarisse. Então, depois de um instante de hesitação das
duas partes, Clarisse passou os braços pelo corpo da antiga amiga,
em um abraço um tanto desajeitado. ― Vou indo, então.
― Está
bem. ― disse Alex, depois de que soltaram o breve aperto. ―
Cuide-se.
― É
bom que esteja de volta, Alex. ― disse Clarisse, evitando o contato
visual direto.
― É,
também acho. ― o calor no peito da fotógrafa cresceu com aquelas
palavras, quase tirando sua capacidade de responder. ― Bom te ver,
Clari.
Clarisse
nada respondeu, apenas sorriu e acenou com a cabeça, tomando enfim o
caminho da saída. Alex seguiu com o olhar seu percurso até esta
sumir na entrada das escadarias. Depois retornou ao apartamento,
trancando a porta e indo até o sofá onde Ricardo já estava
sentado. Acomodou-se ali ainda com a cabeça um tanto aérea, sem
dar-se conta do sorriso que ainda perdurava no rosto. Ricardo porém
não deixou o detalhe passar desapercebido:
― Ela
continua linda como sempre, né. ― disse ele. Alex despertou do seu
devaneio com aquele comentário e fintou a expressão de divertimento
do antigo amigo.
― Isso.
― respondeu ela, meio atravessada, sentindo o rosto esquentando
diante do olhar do outro. ― Digo, sim. Verdade.
―
Parece que essa saída
inesperada ajudou a quebrar um pouco o gelo entre vocês, não é? ―
comentou ele. ― Deu pra ouvir daqui, sabe. ― completou, apontando
a própria orelha direta.
― Ah.
. . ― Alex não soube o que responder.
Ainda
que ela e Ricardo tenham trocado e-mails nas últimas semanas era
difícil para a fotógrafa colocar em palavras algumas das coisas que
eles haviam escrito com tanta naturalidade nesse meio tempo. Ricardo
percebeu essa dificuldade da amiga e tratou de mudar o foco da
conversa. Alex agradeceu internamente a delicadeza dele. As duas
horas seguintes o nome de Clarisse só foi pronunciado quando o homem
contava os casos engraçados ou esdrúxulos que já passara no
trabalho, onde a mesma era sua colega vizinha de baia.
Depois
de comerem um lanche feito pelo rapaz, este despediu-se e prometeu
enviar mensagens. Alex enfim pode observar seu novo lar com cuidado.
Já começava a cair à noite e logo os seus pensamentos correram em
outras direções.
Clarisse.
Sim, ela estava linda. Na verdade muito mais linda do que Alex
lembrava. Em todos os sentidos Clarisse havia se tornado mais do que
já era na época da faculdade. Na beleza, na voz, na maneira
delicada e elegante de vestir-se. Pelo visto ela também estava
amadurecendo enquanto profissional e provavelmente como pessoa. Ainda
assim, Alex sentiu de imediato, ainda haviam aspectos de Clarisse que
precisavam amadurecer muito. Ricardo lhe contara várias coisas por
mensagens, antes da sua chegada e tudo indicava aquilo.
Diferente
de Clarisse, que mantivera-se fechada para aquele sentimento dividido
entre elas durante a faculdade, ao que se sabe sem jamais deixar-se
seguir pelas experimentações, Alex vivera de modo um tanto intenso
a juventude em uma cidade longe de casa. A fotógrafa não era mais a
sonhadora romântica que contentou-se durante quatro anos em apenas
estar perto daquela que fora sua grande paixão. Seria impossível
para ela manter a relação das duas da mesma maneira que fora no
passado. Alex era uma mulher agora, não mais uma garotinha
desajeitada do curso de Jornalismo.
Ainda
que, como ficara provado em poucos minutos, Alex continuasse
completamente apaixonada por Clarisse. Porém seu amor não era mais
tão paciente e etéreo quanto outrora. O calor do desejo moldava o
seu sentimento de alegria em rever a mulher que amava.
Apesar
dos sentimentos antigos, nada mais seria como naqueles tempos,
concluiu Alex.
Foi
então que o celular da morena deixado sobre a mesinha de centro da
sala iluminou-se. Sem muita pressa Alex o alcançou e desbloqueou a
tela para ver do que se tratava. No aplicativo de mensagens
instantâneas uma pergunta simples de um contato que ela não
esperava brilhou na tela:
“Quer
sair pra comer alguma coisa?”
Alex
surpreendeu-se ao cruzar as portas do restaurante. Localizado no
sexto andar de um dos prédios da principal avenida do centro da
cidade, toda a parede aos fundos era tomada pela paisagem da cidade
iluminada pelas luzes noturnas, através dos paineis de vidro quase
imperceptíveis. Dirigindo-se à recepção logo ela estava seguindo
a um dos garçons em direção a uma mesa localizada bem ao fundo.
Foi fácil reconhecer a figura que a aguardava, já bebericando o que
parecia uma dose generosa de um drink. Ao chegar a mulher nem esperou
os cumprimentos para dirigir-se a ela com um sorriso enorme:
― Enfim
você, Alex. ― disse a mulher de cabelos tingidos de púrpura,
vestindo uma combinação de saia e jaquela de couro de um tom mais
escuro.
― Oi,
Jenifer. ― cumprimentou a fotógrafa, puxando a única cadeira
restante da mesa, sem cerimônia.
―
Estava ansiosa para te
ver, garota. ― começou Jenifer, endireitando um pouco a postura
relaxada. ― Já faz mais de um ano desde a última vez!
― É,
desde que você veio pra cá. ― completou Alex, após pedir um
drink igual ao da outra ao garçom.
― Sim,
sim. Mas nós duas sabemos que eu estava apenas me adiantando a você.
Nada melhor do que aceitar uma generosa proposta de outra editora e
ainda vir para a sua cidade natal, esperar seu retorno. ― disse a
designer editorial, exibindo um orgulho enorme pelo seu crescimento
profissional.
― Sei.
― murmurou Alex.
― Ora,
vamos lá Alex, não seja tão fria. Você sabe que eu não viveria
sem você por perto!
Alex
riu e concordou com deboche. Já ouvira muitas vezes aquele tipo de
declaração regada a álcool. Desde que haviam se conhecido, assim
que Alex chegara à divisão da editora na cidade do interior do
estado, ela já tivera a oportunidade de observar os esforços de
Jenifer para mimá-la com suas conversas em estado embreagado uma
centena de vezes:
― Sem
essa, Alex. Eu nem bebi tanto assim, esse é o segundo drink! ―
defendeu-se Jenifer, lendo com precisão a expressão de descrença
da outra. ― É tão difícil assim pra você acreditar que é
importante pra mim?
―
Jenny, não existe nada
para nós além da cama. ― afirmou Alex, rindo-se e tomando um gole
do seu drink. A bebida era muito doce, com um toque de acidez e o
claro sabor de morango. Pedir o mesmo que Jenifer era sempre uma
escolha segura, lembrou-se.
― E
o que mais é preciso, querida Alex?! ― exclamou Jenifer, abrindo
os braços. ― Temos uma boa convivência, independentes, seguras.
Além disso fazemos um sexo dos deuses. Não tem como ser mais
perfeito!
Alex
desviou os olhos para a paisagem externa antes de responder:
― Não
vou negar nada disso. ― disse, fintando a expressão confiante da
outra por um momento e depois retornando para as luzes urbanas. ―
Mas sou o tipo de pessoa que precisa de algo mais do que isso.
― Hm
hm, eu sei. ― disse Jenifer, acompanhando o olhar da fotógrafa. ―
Romantismo é uma dessas doenças que nasce com a pessoa e nunca é
curada.
Alex
riu. Adorava a maneira sincera da outra de falar:
― Já
encontrou com a sua eterna amada? ― perguntou Jenifer, depois de
alguns minutos em que as duas apenas tomaram suas bebidas e
distraíram-se com os carros pequeninos, à distância.
― Sim.
Ela e o Ricardo foram me receber no aeroporto.
― Pela
sua cara devo dizer que ainda está no zero a zero. ― disse Jenifer
e Alex se viu obrigada a encará-la de volta, ponderando a afirmação.
― Não
conseguimos quebrar o gelo. ― confessou.
― Ah,
chega desse assunto! ― exclamou a designer, com vigor. ― Eu não
te convidei para ficar vendo essa cara de cachorro molhado. Vamos
pedir alguma coisa para comer. ― completou acenando para o garçom
que servia uma mesa próxima.
― Você
me convidou para tentar me arrastar para cama depois, eu sei.
― E
vou conseguir, não vou? ― provocou Jenifer. Alex apenas riu e
desviou os olhos para a paisagem mais uma vez.
Duas
horas depois Jenifer parou o carro, um modelo um esportivo de alto
valor, na esquina do prédio onde Alex morava. A fotógrafa não
estranhou quando a outra apagou o motor:
― Um
lugar discreto. ― comentou ela.
― É
uma boa localização e minha irmã fez um ótimo trabalho lá
dentro. Quem sabe te convido para um chá da tarde qualquer dia
desses. ― disse Alex, maquiando o sorriso com pouca eficiência.
― Como
é? Não vai me convidar para subir hoje? ― questionou Jenifer, com
uma expressão levemente desapontada. Estavam jogando.
― Será
que eu deveria? Você sabe, eu já tenho outra pessoa em mente. ―
atacou Alex. Apesar disso a fotógrafa não fez objeção à mão que
Jenifer passou do câmbio para a sua coxa esquerda.
― Sabe
que não sou ciumenta, Alex. ― disse Jenifer, soltando o cinto e
curvando mais o corpo na direção da outra. ― Você é minha
número um e quero aproveitar tudo, enquanto for possível.
― E
depois vai recorrer para sua número dois, três, quatro e cinco? ―
perguntou a mulher de cabelos negros, tirando os óculos de aros
proeminentes que Jenny utilizava sempre que dirigia ou estava
trabalhando. Também livrou-se do cinto, que já havia se tornando
uma barreira.
―
Talvez. . . Mas saiba que
nenhuma delas é como você, Alex. Eu poderia passar a vida inteira
só com você. ― sussurrou Jenifer, já com os lábios a poucos
centímetros dos da outra.
― Você
bebeu, não fale besteiras, Jenny. ― riu-se Alex, passando os
braços pelo ombro e cintura de Jenifer.
― Só
bebi o suficiente, meu bem. ― concluiu Jenny antes de colocar fim
àquela brincadeira, beijando com desejo a outra mulher, que
correspondeu ao seu desejo com a mesma intensidade.
As
duas gastaram vários minutos ali no carro, aproveitando as sensações
das carícias e provocando-se mutuamente por mais. Logo perceberam
que aquele espaço já era pequeno demais para o tesão crescente
entre as duas. Foi quando Alex sentenciou, ao livrar-se por um
momento da língua da amante:
―
Melhor subirmos.
Foi
só o tempo de Jenifer estacionar o veículo com maior cuidado, na
garagem ao lado do prédio. Tiveram sorte de não encontrar ninguém
pelos corredores do edifício, no conturbado caminho até o
apartamento, onde mais se preocuparam em manter o clima do que se
estavam tomando o caminho certo. Um esforço recompensado assim que
enfim Alex trancou o apartamento por dentro.
O
carro de Jenifer só deixou o estacionamento no final da manhã do
dia seguinte.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Posted by LKMazaki
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Yuri
[Conto] Prelúdio de um recomeço (Clarisse e Alex pt1)
Olá a todos! Mais uma quarta chegando com literatura yuri (ou yurista, ou lésbica, ou qualquer outro termo que seja de vosso agrado) chegando aqui no Kono-ai-Setsu. A novidade desta vez é que, pela primeira vez, não estou cá para trazer um fanfiction, mas sim uma obra 100% original.
Já faz bastante tempo que quero trazer conteúdo original para o blog, porém as coisas não cooperavam do meu lado. Confesso que só está sendo possível fazer esta "estréia" graças a um improviso. Minha intenção original era criar algo do zero, pensando no blog, mas a rotina corrida não me permitiu. Portanto, permiti-me usar de um escrito meu já pronto, de mais ou menos dois anos trás, refinado e compactado para ser um breve conto.
Por ser originalmente a introdução de uma longa história coloquei bem claro no título deste conto a palavra prelúdio. Não que isto signifique que a obra está incompleta, mas sim que a trama apresentada irá usufruir do frescor de ser apenas o prelúdio de uma história de romântica que ainda irá se concretizar, fora dos limites impostos pelo formato do conto.
E chega de enrolar com explicações, né. Só espero que este primeiro trabalho original meu aqui no Kono-ai-Setsu possa ser do agrado de vocês, leitores, que são a parte mais importante de toda essa estrutura por detrás deste blog.
Críticas, sugestões, utópicos elogios e sinceros xingamentos são bem vindos no espaço dos comentários. Só peço a todos uma pequena dose de paciência, pois agora nossos comentários são moderados antes de aparecerem na página. Coisa de poucas horas até uma de nós ver e liberar, nada grave.
Boa leitura!
Outras opções: Leitura online (mediafire) ou Download .pdf (mediafire)
Prelúdio de um recomeço
por Lilian Kate Mazaki
Clarisse estava confusa. Havia acabado de expulsar de sua vida mais
um dos já incontáveis homens perfeitos que haviam lhe jurado amor e
fidelidade eternas. Sentia-se injusta por ter encontrado tanto desses
caras perfeitos nos últimos três anos, desde que se formara dar um
fora em cada um deles da maneira mais fria e inesperada o possível.
O que estava errado afinal? Todos haviam sido carinhosos, românticos
e quase surreais. Cada um com seu tipo de sexo, mas nenhum havia lhe
humilhado ou causado dor. Por que então parecia tão doloroso
acordar a cada dia com um deles ao lado na cama?
O problema estava nela, em algum canto que não conseguia mais se
recordar onde. Acordava durante a madrugada sentindo um vazio que não
sabia dizer de onde vinha, o que causara. O problema devia ser tão
profundo que mesmo horas de meditação olhando pela sacada não
traziam qualquer pista.
O passado. Ali devia ser a raiz de todo o mal que lhe corria pelos
cantos:
― Clarisse, eu tenho novidades pra você. ― disse Ricardo,
apoiando-se sobre a borda da ilha de trabalho da jornalista. Era seu
vizinho direto da esquerda e fazia questão de não ser esquecido por
uma manhã que fosse.
― Espero que seja realmente algo fantástico. ― foi o que
conseguiu responder Clarisse, com a voz anasalada.
― Você andou chorando pelo Roberto? Não foi você que disse que
tinha que terminar logo? ― estranhou o companheiro de trabalho,
franzindo a testa e perdendo o rumo da conversa mais rápido do que a
outra esperaria.
― Não chorei por ele. Chorei porque chorei. ― repondeu Clarisse.
― E qual é a novidade?
― Ah, claro. Eu acabei de descobrir quem vai vir transferida pra
cá, como fotógrafa da coluna semanal! ― disse Ricardo, com uma
felicidade de causar inveja, aparentemente acreditava que havia dito
algo que deveria supreender, mas a reação de Clarisse não poderia
ser mais oposta.
― Quem? ― perguntou simplesmente, sem entender o que o amigo
queria dizer.
― Alex, sua boba! A nossa Alex! ― explicou Ricardo e começou a
contar como havia decoberto este grande furo, só que Clarisse não
estava mais conseguindo absorver o que ele dizia.
Alex, claro que ela sabia bem quem era. Sua melhor amiga durante toda
a faculdade, companheira de festas, viagens, bebedeiras para esquecer
aquele cara fascinante que havia se revelado um verdadeiro galinha. A
coisa mais próxima do que Clarisse poderia considerar como alma
gêmea, pois as duas se entendiam de uma maneira tão perfeita e
complementar que bastava um olhar para uma saber como a outra estava
se sentindo.
Uma pessoa tão marcante com quem Clarisse perdera o contato logo
após a formatura da fotógrafa, pois esta mudou-se para uma cidade
promissora do interior do estado, relativamente distante, para
estagiar uma grande editora. Tentar relembrar como havia sido a
despedida porém trouxe um sentimento doloroso e uma confusão extra
para a cabeça da repórter que a surpreendeu.
Vazio. Era o mesmo que sentia durante todos aqueles anos ao lado dos
amantes. O que as duas coisas tinham em comum?
― Você nem está me escutando, não é mesmo? ― reclamou
Ricardo, finalmente trazendo a outra de volta para a realdade.
― Ah, desculpa. Estou com a cabeça cheia. Sabe, eu demorei até a
lembrar da Alex! ― mentiu Clarisse, sorrindo em disfarce. ― Mas
que ótimo saber que ela está voltando!
― É, você deve esta mesmo feliz, Clarisse. ― ponderou Ricardo,
com um sorriso de lado que fez o estômago de Clarisse se encolher.
― Hã? ― questionou, sentindo uma impaciência se motivo.
― Esquece, vamos trabalhar. ― cortou o repórter científico,
voltando para sua ilha de trabalho. Como sempre estavam com um prazo
apertado, então a mulher não insistiu no assunto.
O dia e a semana inteira se transcorreu num piscar de olhos. Os
problemas sobre namorado pareceram pequenos e ultrapassados para
Clarisse, afinal Alex estava voltando! Ainda que não soubesse
exatamente o que isso tinha de tão especial para estar fazendo-lhe
ir dormir tarde da madrugada, assistindo a velhos seriados da tv a
cabo.
Ricardo não mais tocou no assunto antes da sexta-feira, mas Clarisse
pode perceber claramente as olhadas de observações de canto que o
amigo antigo fazia volta e meia, enquanto a jornalista estava
tentando se concentrar nos seus artigos atrasados. Se não o
conhecesse bem teria pensando inclusive que estava se interessando
nela, mas essa chance já havia sido descartada a muitos anos. No
início da faculdade ela havia de fato se apaixonado a primeira vista
pelo rapaz mais belo e, naquela época, inteligente da turma do
terceiro período, Ricardo Bandeira. Porém suas investidas foram
logo vistas como inúteis, quando ele a segredou que, na verdade,
estava mais interessado em um calouro de Artes Plásticas.
Já passavam das duas da tarde quando o colega e vizinho de ilha
finalmente entrou no assunto:
― Hei, Clarisse. Vamos sair as quatro para rececionar a Alex no
aeroporto! ― sugeriu ele com a maior naturalidade, como se tivessem
comentado sobre isto durante a semana inteira, ainda que sequer ele
tivesse passado qualquer informação sobre a data de chegada da nova
colega. Clarisse se viu confusa, tentando apreender o fato tanto que
de a amiga estava chegando bem mais cedo do que esperava e que iriam
sair da redação mais cedo ainda que o trabalho ainda estivesse
atrasado para a quinta da outra semana.
― Claro. ― foi a resposta imediatava da jornalista.
Horas depois, Ricardo estacionou o pequeno carro em uma das
disputadas vagas próximas à saída do saguão do aeroporto
internacional. Uma multidão de transientes parecia um mar de vida e
diversidade, em meio a empresários que somente chegavam de mais uma
ponte aérea e turistas de todas as partes do planeta que
desenbarcavam para descobrir as maravilhas daquela cidade
privilegiada.
Aguardaram próximos à saída do portão de desembarque de letra H,
como Ricardo dissera. Pelo visto vinha se comunicando constantemente
com a fotógrafa, pois foi revelando detalhes da rotina e da vinda da
mulher de volta para a cidade que não dissera antes.
Ou será que Clarisse apenas não havia prestado atenção no que
havia lhe sido dito na terça-feira fatídica?
― Hei, Alex! Aqui! ― chamou o homem, sacudindo os braços no ar e
Clarisse despertou tentando seguir a direção do olhar do amigo para
ver quem poderia estar se proximando cheia de malas.
Após alguma procura finalmente pode ver, por dentre a multidão e
malas a figura que ainda guardava fresca na mente.
Os cabelos negros lisos caindo sobre a face e ombros, a pele tão
clara quanto delicada e as roupas escuras. Sempre escuras que Alex
costumava a trajar mesmo durante o verão escaldante, assim como no
gelo do inverno. Trazia um óculos escuros pendurados no colarinho e
uma bagagem arrascando logo atrás de si. E foi ao focar em seus
olhos negros que Clarisse foi invadida por uma onda de lembranças e
sentimentos que a tiraram por completo da realidade por um instante.
Os estudos em conjunto. As fotos carinhosas que tiravam sempre. O
ombro amigo que Alex sempre tinha para as crises de choro deseperado
e imotivado da outra. Abraços apertados, olhares significativos.
Tristeza e ansiedade sem igual invadiram o peito de Clarisse quando
suas lembraças avançaram até o ponto fatídico que sozinho
esclarecia todos os mistérios dos seus vinte e oito anos de vida.
A tarde onde se despediram, quando Alex passou no apartamento que
Clarisse já habitava para pegar uns equipamentos de fotografia que
esquecera de empacotar. A jornalista não sabia se havia sido um
acidente ou alguma brincadeira do destino para que se vissem mais uma
vez, depois da dolorosa despedida regada a muito alcool com o grupo
de amigos. Havia um silêncio ainda mais pesado de incomodo entre
elas naquela tarde final.
Ainda mais do que qualquer outro momento após uma bela fotografia ou
antes de um 'até logo'. O silêncio pesado de duas pessoas que
pareciam prestes a deixar que o último raio de luz do sol lhe
escapasse por entre os dedos.
Um quase beijo e todas as certezas que tornaram a noite seguinte a
mais trágica e solitária da vida da estagiária de redatora. Mesmo
depois de quase quatro anos, a lembrança da respiração de Alex
sobre a sua bele, tão perto, ainda fazia seus pés quase cederem, em
meio ao saguão do aeroporto.
Como havia esquecido por completo de quem era? Talvez pelo mesmo
motivo que a fizera ignorar a realidade durante aqueles anos de
juventude. Covardia, talvez pura hipocrisia. Fora a pessoa mais
eficaz do universo em enganar-se, chegando ao ponto de esquecer por
completo de partes de si impossíveis de sufocar. Agora, com tudo à
tona, ficavam óbvias as respostas para todas as suas questões.
Quando Alex estava perto o bastante, abraçou Ricardo, que tinha um
sorriso imenso e fintou demoradamente o castalho do olhar de
Clarisse:
― A quanto tempo, Clarisse.
A mulher teve certeza de que daquele momento em diante sua vida daria
tantas voltas que acabaria por lhe levar a algum paraíso, ou
inferno, que sequer conseguia imaginar.
― Bem vinda de volta. ― foi o que respondeu.
***
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Posted by LKMazaki