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Colocando as cartas na mesa (Clarisse e Alex pt5)
Olá a todos! Parece que foi ontem que postei a quarta parte da história de Clarisse e Alex aqui (um título seria bom, não? Mas deixa quieto...) e já é hora de mais dessas duas aqui neste blog! Na verdade, o conto de hoje poderia nem ser classificado como Clarisse e Alex, já que a dupla em foco não é bem esta mas. . . Enfim, vocês já vão ver. Será um bom capítulo para quem havia adorado a participação da Jenifer, lá na segunda parte!
Gostaria muito de agradecer a todos que estão acompanhando a história. Nós apreciamos e respeitamos todos os comentários, críticas e sugestões com muita alegria, pois nosso objetivo é, dentro das nossas possibilidades, sempre melhorar sem perder nossa identidade. Espero que continuem gostando desta saga que foi crescendo enquanto era publicada aqui no KaS.
E chega de enrolação. Vamos a mais uma parte da história!
Outras opções de leitura
Colocando as cartas na mesa
por Lilian Kate Mazaki
O som da televisão era tudo o que preenchia a pequena sala do
apartamento de Clarisse. O canal esportivo transmitia um campeonato
de ginástica olímpica ao vivo dos Estados Unidos. Em um dos breves
intervalos entre a realização de exercícios em diferentes
aparelhos a jornalista aproveitava para separar algumas cervejas
guardadas no freezer, passando-as para uma pequena caixa de isopor.
Pretendia deixar a recipiente sobre a mesa de centro, entre o sofá e
o televisor, para não mais precisar se levantar até o final da
competição.
Era quarta-feira e beber sozinha em casa estava longe de ser um
hábito seu, mesmo durante noites quentes do verão, porém seus
ânimos pediam uma dose generosa de álcool.
Desde o "desastre", como apelidara conversa com Alex na
Cafeteria Vintage, a redatora estava sentindo-se a pior das pessoas.
Era uma culpa tremenda pensar que deveria ter deixado sua amiga mal
com as palavras covardes que jogara sobre esta.
Claro, as duas ainda trabalhavam no mesmo andar do prédio da
editora. Alex passava por ela e Ricardo todos os dias, cumprimentando
normalmente. Porém a fotógrafa recusara os convites para almoçar
que Ricardo lhe fizera na primeira metade da semana. Alex também
vinha saindo pontualmente às quatro e meia da tarde, sem dar chance
para ser convidada para um happy hour. Clarisse também não a havia
visto sair para almoçar no horário comum, como vinha fazendo desde
que entrara para o departamento.
Sim, Alex estava claramente a evitando. A única comunicação entre
as duas havia se dado ainda no sábado da dita conversa, quando a
morena enviara uma mensagem curta pelo celular:
"Quando estiver segura, vamos conversar de novo."
― Eu sou uma imbecil. ― disse Clarisse a si mesma, atirando o
saco de gelo vazio na lixeira da cozinha estilo americano do seu
apartamento. Com ambas as mãos ela ajeitou as cinco latas de cerveja
no gelo quando ouviu o toque da campainha.
Aguardou, secando as mãos em um pano sobre o balcão. Não conseguia
imaginar quem poderia ser. Talvez Ricardo, o rapaz era expert em
detectar quando Clarisse estava ruim e costumava aparecer nesses
momentos para distraí-la. Alex não tinha ainda seu endereço, então
ela descartou de automático essa possibilidade.
Outro toque na campainha. Clarisse caminhou até a entrada e viu uma
mulher desconhecida pelo olho mágico. Abriu a porta com uma
expressão interrogativa:
― Ah, olá. ― cumprimentou a desconhecida. ― Você é Clarisse,
certo?
― Sim. E você? ― perguntou a jornalista, observando a figura da
outra de cima a baixo.
― Jenifer. Sou uma amiga da Alex. ― disse a designer. Clarisse
não conseguiu deixar de notar o conjunto jeans escuro de saia e
jaqueta, uma blusinha com temas tecnológicos por baixo que esta
vestia.
Clarisse abriu e fechou a boca duas vezes sem dizer nada. Não
poderia ser a visita mais inesperada, ela pensou de imediato:
― Será que poderia me convidar para entrar? Gostaria de ter uma
conversa não muito demorada, mas que seria melhor não ter no
corredor do seu prédio. ― pediu Jenifer, portando um sorriso
perene que incomodava um pouco a outra.
― Claro, sim. Por favor. ― respondeu Clarisse, abrindo a passagem
para a outra que prontamente entrou. Clarisse fechou a porta e
virou-se para a convidada. Esta já caminhava até o balcão da sua
cozinha.
― Ora, eu ia mesmo perguntar se não tinha alguma coisa para
tomarmos. ― disse Jenifer, puxando um dos banquinhos do lado
externo do balcão e sentado-se. Sem cerimônia ela alcançou uma das
latas de cerveja e abriu, catando também um copo para servir-se.
― Ah. . . ― Clarisse não sabia como reagir àquela invasão
feita com tanta naturalidade. Não era do seu feitio ser grosseira,
mas não tinha amigos tão folgados assim. ― Quer alguma coisa para
comer? ― perguntou, de modo automático.
― Hm? Não, não. ― disse Jenifer, depois de um longo gole de
bebida. ― Só senta aqui do lado. Não gosto de enrolar, então
vamos direto ao ponto. ― e apontou para o outro banquinho.
Clarisse sentou e Jenifer, catando outro copo limpo, serviu-lhe a
metade restante na lata aberta. A redatora não bebeu, apenas ficou
fintando a outra:
― Então. ― começou Jenifer, parecendo desapontada que Clarisse
não houvesse bebido. ― Como deve imaginar, estou aqui por causa da
Alex. A minha questão é: você sabe exatamente por que estou aqui?
Clarisse hesitou antes de falar:
― Não quer que eu me aproxime da Alex? ― disse, expondo a única
coisa que veio ao seu pensamento. Para sua surpresa Jenifer deu uma
gargalhada de divertimento puro àquelas palavras.
― Claro que não! Tá me achando com cara de alguma vilã de novela
das vinte e uma? ― riu-se a mulher de cabelos tingidos. ― Ou você
é muito negativa ou estou precisando mudar a cor da cabeça. Talvez
um rosa ou azul celeste. Azul é uma boa, na verdade.
― Mas então. . . ― começou Clarisse, confusa, porém sem
conseguir formar a pergunta.
― Eu sou amiga da Alex. Tá certo que a gente às vezes dorme
juntas e fazemos um sexo excelente, mas ainda assim somos amigas! ―
disse Jenifer, pausando para um gole de cerveja. ― Sabe, garota, eu
estou torcendo para que a Alex fique numa boa. É por isso que estou
aqui.
― Como é? ― perguntou Clarisse, ainda mais confusa.
― Olha, Clarisse, é assim: eu senti que nos últimos dias alguma
coisa tem deixado a Alex meio chateada e presumo que isso queira
dizer que as coisas não estão caminhando muito bem, ou muito rápido
entre vocês. Estou errada?
― Er. . . Entre nós? Mas nós não. . .
― Exato! Vocês não! ― exclamou Jenifer. ― Me diz a real
Clarisse: você é afim da nossa Alex, não é?
― Ah. . . E-Eu. . .
― Putz, tá na cara que você é um daqueles casos severos de "me
deixe em paz no meu armário!" ― disse a designer, apertando
os braços contra o próprio corpo, numa imitação de pessoa presa
em um lugar apertado. ― Gata, você já tá perto dos trinta e
ainda tá nessa?!
― Eu não. . . ― tentou argumentar Clarisse, irritada e
desesperada com aquela pressão, mas Jenifer não iria deixá-la
falar.
― Não? Vai querer me convencer que não tem certeza de que é
lésbica, é isso?!
― S-Se me deixar falar, Jenifer, eu. . . ― tentou começar
Clarisse, porém ela acabou se calando quando a outra tocou nos seus
lábios com o indicador para mantê-los fechados.
― Não preciso escutar esses seus argumentos, fofa. Você está
sendo mais óbvia do que "blockbusters hollywoodianos". ―
disse Jenifer, encarando-a mais de perto. ― Quando eu ver que você
não vai usar uma dessas frases feitas que nós duas sabemos que não
refletem em nada sua realidade eu vou te deixar falar.
Dessa vez Clarisse não tentou contra-argumentar de imediato. Esperou
e Jenifer tirou o dedo da frente dos seus lábios e serviu-se de uma
uma lata de cerveja:
― Então? ― perguntou esta, depois de um gole, olhando de lado
para a jornalista.
― Droga. ― disse Clarisse, num suspiro, e tomou todo o seu copo
de uma só vez. ― Eu só estou confusa com tudo isso. Nunca pensei
em mim como uma. . . A Alex foi a única por quem eu já senti isso
e, pra dizer bem a verdade, eu sequer havia parado para pensar no que
era isso, mesmo depois de tanto tempo.
― Lésbica.
― O que? ― perguntou Clarisse, sem entender.
― Lésbica. Você pulou a palavra. Tem que começar perdendo o medo
de dizer. ― explicou-se a designer. ― Me diz uma coisa: você
teve alguns caras nesses anos, não?
― Sim, eu. . .
― E sentia que faltava alguma coisa, não? ― perguntou Jenny,
observando o seu copo vazio pela metade, distraída. ― Minha
primeira vez foi com um cara. Eu só queria acabar aquilo e ir pra
casa.
Clarisse não teve reação por um momento. Achava intrigante como
aquela até então desconhecida conseguia despertar sua simpatia com
aquela sinceridade bombástica:
― Não era tão ruim assim.
― Mas também não era tão bom assim, aposto.
― Talvez.
Sem dizer nada, Jenifer levantou do banquinho e rodeou Clarisse,
passando os braços pelos seus ombros e puxando-a:
― Você é fácil de entender, Clarisse. ― disse, falando mais
baixo, perto da orelha direta da outra. ― A única diferença entre
nós é a sua incrível capacidade de acomodar-se em uma vida que no
fundo sabe que não serve pra você.
― N-Não é assim tão simples. ― murmurou Clarisse, mas Jenifer
riu-se de leve.
― É mesmo? E como você vai argumentar que não é uma pessoa
simples de entender se eu sei que nesse exato momento você está
prestando mais atenção na sensação dos meus peitos pressionando
as tuas costas do que no que eu falo? ― questionou a designer e
Clarisse afastou-se desajeitada, sem porém conseguir disfarçar a
falta de jeito.
"Olha, Clarisse, eu vou ser bem direta agora: desde que conheci
a Alex eu sei que ela é apaixonada pela colega de faculdade.
Confesso que acho quase doentio alguém conseguir manter-se
apaixonado mesmo passando anos sem nem falar com a pessoa, mas isso
não vem ao caso."
"A questão é que eu não quero que você faça a nossa Alex
sofrer. Ela já passou maus bocados durante todo esse tempo. Não é
agora que enfim vocês se reencontraram e blá-blá-blá que você
vai amarelar e fazer ela ficar mal."
"Você é uma de nós e sabe disso. Então, se está assustada
ou qualquer dessas outras coisas que gente que fica no armário diz
que sente, apenas vá e fale abertamente com a Alex."
Clarisse estava atônita com aquela torrente definitiva de verdades
vindas daquela mulher. Jenifer percebeu aquele momento de suspensão
da outra e tomou uma atitude radical: deu três passos à frente e
segurou os ombros de Clarisse e roubou-lhe um beijo:
― E-Ei! ― exclamou Clarisse, chocada. ― É assim que quer
ajudar sua amiga?!
― Só estou te dando o empurrão, filha. ― disse Jenifer, com um
sorriso. ― Não precisa se preocupar. Mesmo que fosse fácil te
levar para a cama eu jamais tiraria sua primeira vez da nossa Alex.
Clarisse teve vontade de sumir diante daquela declaração tão clara
da outra. Sentiu-se quente e teve certeza de que seu rosto deveria
estar em brasas:
― Heh, você é tão fofa. ― comentou Jenny. ― Dá pra entender
porque a Alex é tão caidinha por você.
― E-Eu. . . ― gaguejou Clarisse que não conseguia esquecer que
ainda estava presa nos braços da outra.
― Hm? ― já Jenifer não parecia se importar muito em manter um
diálogo amistoso de uma distância tão curta.
― Eu não consigo te entender, Jenifer.
― Ora, eu só sou uma pessoa sincera e prática. ― disse a outra,
abrindo ainda mais o sorriso. ― Bom, melhor te soltar antes que
seja você quem queira ser levada para a cama, né. ― continuou,
enfim livrando Clarisse do seu abraço. ― Sabe, tem uma garota que
estou saindo agora. . . Eu fui a primeira mulher dela e, bom, é
mesmo uma coisa bem bacana. . . Ensinar como duas garotas fazem para
se divertir sozinhas, enfim. . . Bom, acho que a Alex vai te ensinar
isso muito bem.
Clarisse mais uma vez não teve palavras para comentar aquela pequena
revelação dita com tanta casualidade. Jenifer por sua vez alcançou
seu copo sobre o balcão e o esvaziou antes de tomar o caminho da
saída. Sem esperar ser acompanhada pela dona da casa destrancou a
porta e só virou-se quando Clarisse enfim disse algo:
― Como você conseguiu meu endereço? ― foi o que esta perguntou.
Jenifer abriu seu sorriso mais uma vez.
― Se você fosse uma pessoa mais "pra frente" como eu,
saberia que ter papo pode te levar a qualquer lugar. ― foi o que
respondeu.
― Você quer dizer uma pessoa atirada, não?
― Atirada? Nada disso. Não é só porque eu tenho coragem de dizer
coisas como: "Eu sei que você vai ter um sonho molhado comigo
essa noite, sua virgem de mulheres," que posso ser considerada
atirada.
― E-Ei! Eu não. . .
― Até outro dia, Clarisse. ― despediu-se Jenifer, cortando a
outra mais uma vez, fechando a porta em seguida.
Clarisse olhou para a calmaria reestabelecida na sua sala e suspirou.
Sentou-se em um dos banquinhos e olhou para o copo vazio. Sua mente
começou a reviver algumas passagens da conversa de pouco antes:
― Droga, me apertar e beijar também foi apelação, sua vaca.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Posted by LKMazaki
[Conto] Nova vida e antigos sentimentos (Clarisse e Alex pt2)
Olá a todos! Depois de duas semanas da publicação do conto "Prelúdio de um recomeço" estou cá de volta para trazer a vocês o que nem eu mesma poderia imaginar na data daquela postagem: a continuação da história de Clarisse e Alex.
Depois de receber um feedback super positivo tanto aqui blog como nos bastidores (leiam isto como "a Big Boss surtando") acabei ficando motivada (Big Boss: "Eu EXIJO uma continuação disso no KaS!!!!") a trazer uma sequência para a trama iniciada em Prelúdio de um recomeço. É com alegria que anuncio que este texto não é somente uma sequência, mas sim apenas a segunda parte de uma história que será serializada aqui no KaS nos próximos meses, em formato quinzenal.
Só posso agradecer à direção do KaS e também aos leitores-comentaristas pelo espaço para trazer minha primeira história original ao blog. Espero que acompanhem essa breve saga de encontros e desencontros da redatora Clarisse e a fotógrafa Alex.
Enfim, vamos para o texto. Comentários são muito bem vindos, como sempre.
Outras opções de leitura
Nova
vida e antigos sentimentos
por
Lilian Kate Mazaki
Em
meio a um desembargue tumultuado Alex conseguiu identificar em meio à
confusão o aceno de um rapaz sorridente. Ricardo, exatamente o mesmo
de três anos antes, pensou a fotógrafa, ao retribuir o gesto. Um
tremor involuntário varreu o corpo desta quando enfim enxergou a
pessoa que acompanhava o antigo colega de faculdade. Alex fez o
melhor possível para não deixar a avanlanche de sentimentos
transparecer na sua expressão.
Clarisse,
quase a mesma Clarisse que se recordava. Os cabelos castanho
alourados estavam mais compridos do que se recordava e pareciam menos
disfarçados por tratamentos. As roupas também eram outras, mais
sociais e neutras. Era o que se esperaria de uma redatora de uma
renomada revista informativa mensal, pensou Alex. Também havia algo
de diferente na expressão de Clarisse, pensou essa enquanto
percorria os metros restantes entre ela e os dois, um quê muito
maior de maturidade do que se recordava ver no rosto sempre sonhador
da antiga amiga. Aquela que, concluiu naquele instante, ainda
continuava sendo sua grande paixão não-resolvida.
— Alex,
bem vinda! — exclamou Ricardo se adiantando para um abraço. Depois
do carinhoso aperto, o homem fintou o rosto da fotógrafa com
carinho.
― Oi.
― respondeu Alex, já voltando o olhar para a outra mulher. ― A
quanto tempo, Clarisse.
― Bem
vinda de volta. ― respondeu Clarisse, de modo um tanto automático.
— Oi,
oi pessoal. — cumprimentou Alex, detendo-se por um instante,
tentando decifrar a expressão um tanto distante da outra mulher.
— Ei,
você deu uma melhorada no visual ein. — comentou Ricardo,
referindo-se às mechas irregulares da recém-chegada, que tinha sido
cuidadosamente despenteadas buscando um charme mais rebelde.
— É,
demorei para acertar o jeito de arrumar, mas acho que estou
satisfeita agora. — respondeu esta, agarrando uma das pontas da
mecha que deixava caída à frente da orelha direita.
—
Então,
viemos para te dar uma carona de táxi para sua nova moradia.—
disse Ricardo, gentilmente pegando a bolsa de ombro que Alex trazia
consigo, além da alça da mala de rodinhas, já caminhando para a
saída do aeroporto.
—
Carona
de táxi. Essa foi boa. — riu-se Alex, seguindo o rapaz, assim como
fez Clarisse.
— Se
você não vai pagar, então é uma carona. — argumentou Ricardo.
— Mas
se a corrida é exclusivamente para me levar até lá fica meio
estranho chamar de carona. — contrapôs Alex.
— Você
é sempre tão racional. — reclamou Ricardo e as duas mulheres
riram do tom irritadiço que ele utilizou.
Uma
vez no táxi, com Alex sentada na frente e os dois redatores no banco
de trás, o longo trajeto até o apartamento que a repórter
fototográfica alugara começou a ser percorrido. As conversas eram
todas puxadas e mantidas por Ricardo. Clarisse continuou sendo a que
menos se envolveu nos assuntos. Levou cerca de meia hora para que o
táxi alcançasse o destino e os três subissem para o apartamento.
Quando
destrancou a porta e adentrou pela primeira vez no novo apartamento
Alex sentiu-se mais uma vez feliz por poder confiar em Cíntia para
cuidar desse tipo de assunto. Até então ela não havia visto o
lugar a não ser por fotos, e vazio. A irmã não só cuidara dos
detalhes imobiliários como também decorara todo o lugar de modo
agradável. Mesmo as duas tendo gostos tão distintos sua irmã mais
velha entendia bem o gosto da caçula:
—
Noooossa,
a Cíntia é uma decoradora de mão cheia! — exclamou Ricardo,
depois de depositar as duas bagagens a um canto, dando uma boa olhada
na sala. — Estou até me arrependendo de não ter seguido para a
área de fotografia. . .
— Não
é pra tanto. A mana consegue ótimos preços com os fornecedores
dela. — comentou Alex, indo até a pequena varanda. Um toque de
celular a fez voltar o olhar de volta para o cômodo. Clarisse tirava
seu aparelho.
“Alô?
Ah, sim Valter, posso falar sim.” começou Clarisse, franzindo a
testa. “O que? Agora? Mas eu pensei que. . . Eu sei que não, mas.
. . Não senhor, eu só não entendi porque tão de repente. . . Não,
por mim tudo bem, não se preocupe. . . Certo. Meia hora. Ok, até.”
― Qual
foi agora, Clarisse? O Valter te chamou? ― perguntou Ricardo, já
exasperado.
― O
diretor de conteúdo resolveu adiantar uma reunião de conteúdo do
próximo especial. Ia ser só na terça, mas ele não quer esperar. ―
explicou Clarisse, com a expressão de frustração evidente. ― Vou
ter que ir.
― Tudo
bem, garota. Você tem muito futuro na editora, é importante estar
presente sempre que te chamam. ― disse Ricardo, tentando consolar a
amiga que parecia desapontadíssima. ― Nunca que eles iriam chamar
o Ricardinho aqui para uma reunião, afinal sou insignificante. É um
ótimo sinal!
― Eu
sei. ― concordou Clarisse, apesar de não parecer animar-se muito.
― A-Alex, desculpe por isso, eu. . .
― Tudo
bem. ― apressou-se em dizer a fotógrafa. ― É como o Ricardo
falou, é uma coisa boa eles te chamarem.
Alex
foi com Clarisse de volta à entrada enquanto Ricardo ficou na sala,
apenas observando. A fotógrafa abriu a porta para a outra e saiu com
esta, fechando ligeiramente a entrada. Clarisse virou-se para esta,
ainda portando uma boa dose de frustração:
―
Desculpe de novo, Alex. ―
disse. ― Não queria ter que sair tão de repente. Mal conversamos.
― Não
se preocupe. Logo vamos ser colegas de trabalho, mesmo que de
redações diferentes. ― disse Alex, sorrindo talvez mais do que
gostaria.
―
Certo.
―
concordou Clarisse. Então, depois de um instante de hesitação das
duas partes, Clarisse passou os braços pelo corpo da antiga amiga,
em um abraço um tanto desajeitado. ― Vou indo, então.
― Está
bem. ― disse Alex, depois de que soltaram o breve aperto. ―
Cuide-se.
― É
bom que esteja de volta, Alex. ― disse Clarisse, evitando o contato
visual direto.
― É,
também acho. ― o calor no peito da fotógrafa cresceu com aquelas
palavras, quase tirando sua capacidade de responder. ― Bom te ver,
Clari.
Clarisse
nada respondeu, apenas sorriu e acenou com a cabeça, tomando enfim o
caminho da saída. Alex seguiu com o olhar seu percurso até esta
sumir na entrada das escadarias. Depois retornou ao apartamento,
trancando a porta e indo até o sofá onde Ricardo já estava
sentado. Acomodou-se ali ainda com a cabeça um tanto aérea, sem
dar-se conta do sorriso que ainda perdurava no rosto. Ricardo porém
não deixou o detalhe passar desapercebido:
― Ela
continua linda como sempre, né. ― disse ele. Alex despertou do seu
devaneio com aquele comentário e fintou a expressão de divertimento
do antigo amigo.
― Isso.
― respondeu ela, meio atravessada, sentindo o rosto esquentando
diante do olhar do outro. ― Digo, sim. Verdade.
―
Parece que essa saída
inesperada ajudou a quebrar um pouco o gelo entre vocês, não é? ―
comentou ele. ― Deu pra ouvir daqui, sabe. ― completou, apontando
a própria orelha direta.
― Ah.
. . ― Alex não soube o que responder.
Ainda
que ela e Ricardo tenham trocado e-mails nas últimas semanas era
difícil para a fotógrafa colocar em palavras algumas das coisas que
eles haviam escrito com tanta naturalidade nesse meio tempo. Ricardo
percebeu essa dificuldade da amiga e tratou de mudar o foco da
conversa. Alex agradeceu internamente a delicadeza dele. As duas
horas seguintes o nome de Clarisse só foi pronunciado quando o homem
contava os casos engraçados ou esdrúxulos que já passara no
trabalho, onde a mesma era sua colega vizinha de baia.
Depois
de comerem um lanche feito pelo rapaz, este despediu-se e prometeu
enviar mensagens. Alex enfim pode observar seu novo lar com cuidado.
Já começava a cair à noite e logo os seus pensamentos correram em
outras direções.
Clarisse.
Sim, ela estava linda. Na verdade muito mais linda do que Alex
lembrava. Em todos os sentidos Clarisse havia se tornado mais do que
já era na época da faculdade. Na beleza, na voz, na maneira
delicada e elegante de vestir-se. Pelo visto ela também estava
amadurecendo enquanto profissional e provavelmente como pessoa. Ainda
assim, Alex sentiu de imediato, ainda haviam aspectos de Clarisse que
precisavam amadurecer muito. Ricardo lhe contara várias coisas por
mensagens, antes da sua chegada e tudo indicava aquilo.
Diferente
de Clarisse, que mantivera-se fechada para aquele sentimento dividido
entre elas durante a faculdade, ao que se sabe sem jamais deixar-se
seguir pelas experimentações, Alex vivera de modo um tanto intenso
a juventude em uma cidade longe de casa. A fotógrafa não era mais a
sonhadora romântica que contentou-se durante quatro anos em apenas
estar perto daquela que fora sua grande paixão. Seria impossível
para ela manter a relação das duas da mesma maneira que fora no
passado. Alex era uma mulher agora, não mais uma garotinha
desajeitada do curso de Jornalismo.
Ainda
que, como ficara provado em poucos minutos, Alex continuasse
completamente apaixonada por Clarisse. Porém seu amor não era mais
tão paciente e etéreo quanto outrora. O calor do desejo moldava o
seu sentimento de alegria em rever a mulher que amava.
Apesar
dos sentimentos antigos, nada mais seria como naqueles tempos,
concluiu Alex.
Foi
então que o celular da morena deixado sobre a mesinha de centro da
sala iluminou-se. Sem muita pressa Alex o alcançou e desbloqueou a
tela para ver do que se tratava. No aplicativo de mensagens
instantâneas uma pergunta simples de um contato que ela não
esperava brilhou na tela:
“Quer
sair pra comer alguma coisa?”
Alex
surpreendeu-se ao cruzar as portas do restaurante. Localizado no
sexto andar de um dos prédios da principal avenida do centro da
cidade, toda a parede aos fundos era tomada pela paisagem da cidade
iluminada pelas luzes noturnas, através dos paineis de vidro quase
imperceptíveis. Dirigindo-se à recepção logo ela estava seguindo
a um dos garçons em direção a uma mesa localizada bem ao fundo.
Foi fácil reconhecer a figura que a aguardava, já bebericando o que
parecia uma dose generosa de um drink. Ao chegar a mulher nem esperou
os cumprimentos para dirigir-se a ela com um sorriso enorme:
― Enfim
você, Alex. ― disse a mulher de cabelos tingidos de púrpura,
vestindo uma combinação de saia e jaquela de couro de um tom mais
escuro.
― Oi,
Jenifer. ― cumprimentou a fotógrafa, puxando a única cadeira
restante da mesa, sem cerimônia.
―
Estava ansiosa para te
ver, garota. ― começou Jenifer, endireitando um pouco a postura
relaxada. ― Já faz mais de um ano desde a última vez!
― É,
desde que você veio pra cá. ― completou Alex, após pedir um
drink igual ao da outra ao garçom.
― Sim,
sim. Mas nós duas sabemos que eu estava apenas me adiantando a você.
Nada melhor do que aceitar uma generosa proposta de outra editora e
ainda vir para a sua cidade natal, esperar seu retorno. ― disse a
designer editorial, exibindo um orgulho enorme pelo seu crescimento
profissional.
― Sei.
― murmurou Alex.
― Ora,
vamos lá Alex, não seja tão fria. Você sabe que eu não viveria
sem você por perto!
Alex
riu e concordou com deboche. Já ouvira muitas vezes aquele tipo de
declaração regada a álcool. Desde que haviam se conhecido, assim
que Alex chegara à divisão da editora na cidade do interior do
estado, ela já tivera a oportunidade de observar os esforços de
Jenifer para mimá-la com suas conversas em estado embreagado uma
centena de vezes:
― Sem
essa, Alex. Eu nem bebi tanto assim, esse é o segundo drink! ―
defendeu-se Jenifer, lendo com precisão a expressão de descrença
da outra. ― É tão difícil assim pra você acreditar que é
importante pra mim?
―
Jenny, não existe nada
para nós além da cama. ― afirmou Alex, rindo-se e tomando um gole
do seu drink. A bebida era muito doce, com um toque de acidez e o
claro sabor de morango. Pedir o mesmo que Jenifer era sempre uma
escolha segura, lembrou-se.
― E
o que mais é preciso, querida Alex?! ― exclamou Jenifer, abrindo
os braços. ― Temos uma boa convivência, independentes, seguras.
Além disso fazemos um sexo dos deuses. Não tem como ser mais
perfeito!
Alex
desviou os olhos para a paisagem externa antes de responder:
― Não
vou negar nada disso. ― disse, fintando a expressão confiante da
outra por um momento e depois retornando para as luzes urbanas. ―
Mas sou o tipo de pessoa que precisa de algo mais do que isso.
― Hm
hm, eu sei. ― disse Jenifer, acompanhando o olhar da fotógrafa. ―
Romantismo é uma dessas doenças que nasce com a pessoa e nunca é
curada.
Alex
riu. Adorava a maneira sincera da outra de falar:
― Já
encontrou com a sua eterna amada? ― perguntou Jenifer, depois de
alguns minutos em que as duas apenas tomaram suas bebidas e
distraíram-se com os carros pequeninos, à distância.
― Sim.
Ela e o Ricardo foram me receber no aeroporto.
― Pela
sua cara devo dizer que ainda está no zero a zero. ― disse Jenifer
e Alex se viu obrigada a encará-la de volta, ponderando a afirmação.
― Não
conseguimos quebrar o gelo. ― confessou.
― Ah,
chega desse assunto! ― exclamou a designer, com vigor. ― Eu não
te convidei para ficar vendo essa cara de cachorro molhado. Vamos
pedir alguma coisa para comer. ― completou acenando para o garçom
que servia uma mesa próxima.
― Você
me convidou para tentar me arrastar para cama depois, eu sei.
― E
vou conseguir, não vou? ― provocou Jenifer. Alex apenas riu e
desviou os olhos para a paisagem mais uma vez.
Duas
horas depois Jenifer parou o carro, um modelo um esportivo de alto
valor, na esquina do prédio onde Alex morava. A fotógrafa não
estranhou quando a outra apagou o motor:
― Um
lugar discreto. ― comentou ela.
― É
uma boa localização e minha irmã fez um ótimo trabalho lá
dentro. Quem sabe te convido para um chá da tarde qualquer dia
desses. ― disse Alex, maquiando o sorriso com pouca eficiência.
― Como
é? Não vai me convidar para subir hoje? ― questionou Jenifer, com
uma expressão levemente desapontada. Estavam jogando.
― Será
que eu deveria? Você sabe, eu já tenho outra pessoa em mente. ―
atacou Alex. Apesar disso a fotógrafa não fez objeção à mão que
Jenifer passou do câmbio para a sua coxa esquerda.
― Sabe
que não sou ciumenta, Alex. ― disse Jenifer, soltando o cinto e
curvando mais o corpo na direção da outra. ― Você é minha
número um e quero aproveitar tudo, enquanto for possível.
― E
depois vai recorrer para sua número dois, três, quatro e cinco? ―
perguntou a mulher de cabelos negros, tirando os óculos de aros
proeminentes que Jenny utilizava sempre que dirigia ou estava
trabalhando. Também livrou-se do cinto, que já havia se tornando
uma barreira.
―
Talvez. . . Mas saiba que
nenhuma delas é como você, Alex. Eu poderia passar a vida inteira
só com você. ― sussurrou Jenifer, já com os lábios a poucos
centímetros dos da outra.
― Você
bebeu, não fale besteiras, Jenny. ― riu-se Alex, passando os
braços pelo ombro e cintura de Jenifer.
― Só
bebi o suficiente, meu bem. ― concluiu Jenny antes de colocar fim
àquela brincadeira, beijando com desejo a outra mulher, que
correspondeu ao seu desejo com a mesma intensidade.
As
duas gastaram vários minutos ali no carro, aproveitando as sensações
das carícias e provocando-se mutuamente por mais. Logo perceberam
que aquele espaço já era pequeno demais para o tesão crescente
entre as duas. Foi quando Alex sentenciou, ao livrar-se por um
momento da língua da amante:
―
Melhor subirmos.
Foi
só o tempo de Jenifer estacionar o veículo com maior cuidado, na
garagem ao lado do prédio. Tiveram sorte de não encontrar ninguém
pelos corredores do edifício, no conturbado caminho até o
apartamento, onde mais se preocuparam em manter o clima do que se
estavam tomando o caminho certo. Um esforço recompensado assim que
enfim Alex trancou o apartamento por dentro.
O
carro de Jenifer só deixou o estacionamento no final da manhã do
dia seguinte.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Posted by LKMazaki
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