Posted by : Se-chan sexta-feira, 22 de janeiro de 2016



Olá pessoal! A Se-chan está demorando para conseguir trazer conteúdo ao KaS, não? Me desculpem, esse início de ano está corrido..

Mas estou aqui feliz por que tive uma grande experiência de vida há esses dias. Fui ver aqui em Porto Alegre (no GNC Moinhos, que tinha os melhores horários da cidade) o filme Carol, que tem conteúdo lésbico e é uma adaptação de um livro de mesmo nome.

Diferente de alguns textos do KaS que são mais soltos, esse aqui eu fiz muito preparada e analisando cada detalhe da obra, de um modo mais sério e "profissional". Espero que agrade e, se gostarem, começarei a fazer mais deste tipo de postagem aqui no blog.

Antes de ir para a resenha, preciso avisá-los de que sim, a postagem vai conter alguns spoilers. Tentei não falar muito, mas para algumas coisas como análise de personagens é preciso fazê-lo. Portanto, aconselho a ler a postagem após ver a obra, ok?

Então prepare-se e venha com a Se-chan!!

Análise


Abordagens

Carol se passa nos anos 50, época de muito glamour, charme e moda singular. Mas também é característico é a opressão sob as mulheres, que ainda eram vistas como donas de casa, madames, ou trabalhadoras de baixo nível hierárquico. Por mais que as pessoas vão ver o filme pelo tema LGBT, Carol nos mostra como foco central a luta de duas mulheres pela sua liberdade de expressão, independência e a busca pelos seus verdadeiros desejos.

Além disto, algo extremamente abordado é a questão da moralidade. O que é moralidade? O que se retrata é que duas mulheres não poderiam publicamente ter nenhum tipo de relacionamento amoroso e um pai poderia tirar a custódia da mãe justamente por este tipo de "padrão de comportamento", proibindo a mesma de ver a filha por uma "cláusula de moralidade". Se fosse feito o contrário, o homem traindo a esposa com uma mulher, acredito que haveria uma possibilidade de desviar desta tal cláusula. Mas o filme não aborda isto, ele não é um tipo de filme "Gay agenda" que tem como foco a politica gay. Ele é mais do que isto, pois nos dias atuais a sociedade (principalmente a americana) já passou deste ponto de retratação LGBT nas telas. É um puro filme de romance, onde duas pessoas amadurecem e acabam tendo um romance proibido, e lutam pelo mesmo.

Não menos importante, temos o período de road trip movie, onde as duas mulheres viajam e têm uma experiência única. Antes um pouco distantes, as protagonistas se conhecem profundamente, ganham intimidade e criam laços firmes. O romance floresce e o relacionamento ganha outro nível. Elas não são representadas como um casal lésbico e não há um momento sequer no filme onde as duas discutem o que sentem, se é correto ou contra normas. As duas têm consciência do que fazem, apesar da mais nova inicialmente (antes da viagem) não entender completamente o que há. Ao final, as duas fazem uma escolha que mudará completamente suas vidas (ainda mais), e se libertam das amarras de uma sociedade opressora.

Técnica

A primeira cena nos mostra o ritmo, ambientação e sonoridade do filme. Com uma trilha de piano, violino, harpa e sopros, nos envolve e nos prende logo ao começo do filme. A câmera contínua, seguindo o personagem atravessando a rua até o prédio, os ângulos da cena que nos mostra pela primeira vez as heroínas da obra, que depois vemos repeti-la por outros olhos, é uma verdadeira aula de direção. Um ciclo perfeito. Excelente direção de Todd Haynes.

A obra é regida por fotografia e trilha sonora marcantes, que nos mostram os sentimentos das personagens a partir de seus ângulos e sons perfeitamente colocados. A evolução das duas protagonistas ao decorrer do filme é mostrada justamente pela mudança de foco de personagens nas câmeras. Inicialmente vemos Therese encantada com aquela mulher mais velha, firme e madura. Ao fim, nos deparamos com Carol notando a maturidade da mais nova, e sua evolução de jovem crua para uma mulher que criou barreiras contra obstáculos sentimentais. E a fotografia ganha destaque também por culpa do roteiro, que nos encaminha de uma Therese quieta e que se deixava levar pelos outros, há uma mulher que diz seu primeiro "Não" logo ao final do filme.

Isto nos leva há outro ponto: a importância das falas e onde as mesmas são colocadas. Muitos filmes pecam pelo exagero ou excesso de explicação nas falas. É o completo contrário em Carol. As falas são muito importantes, fazem personagens secundários ganharem importância e cortam diálogos didáticos sobre a sociedade da época. A entrega aos sentimentos são sem as palavras padrões, e algumas das mais importantes falas são ditas instantes antes do final da obra. Muitos detalhes também são colocados em plano de fundo ao instrumental do filme. Por exemplo, Carol diz que ama a neve por baixo de um instrumental quando está levando Therese para sua casa. Logo que chegam, a madame vai ao encontro de sua filha, a qual a chama de "floco de neve". São essas minúcias que dão ainda mais valor à obra.

Personagens

Sei que Carol é uma adaptação de um livro com subtítulo "The price of salt" ("O preço do sal", em português), trazido para o português pela editora L&PM. Mesmo assim, a adaptação do texto (o qual ainda não tive a oportunidade de ler) aparenta ser muito bem feita, e com poucas mudanças (como Therese ser virgem ao início do filme).

A protagonista inicial, Therese Belivet (interpretada por Rooney Mara), é uma vendedora em uma seção de brinquedos sem interesse em seu trabalho e em seu namorado, que constantemente tenta convencê-la a casar-se com ele. Vemos uma personagem introspectiva, desinteressada no mundo, que fotografa coisas inanimadas e se deixa levar pelos outros facilmente. Ao conhecer Carol, conhece finalmente alguém que tenta entender mais profundamente o que passa em sua mente, que a pergunta a todo momento sua opinião. Enquanto outros têm esta visão de uma Therese inocente, Carol a vê como uma mulher, ainda em desenvolvimento, mas ainda uma mulher que pode ter sim idéias próprias e independente. Além disto, as tentativas de sedução da mais velha são totalmente inversas ao que os homens do filme tentam com a garota. Os toques sutis, as conversas e perguntas, tudo colocando o foco na jovem.

A parte mais importante a se comparar em Therese durante o filme são as cenas de final de namoro à de primeiro sexo com Carol. Primeiro, o convite de Carol para viajar com ela foi o estopim para o término com seu namorado, que até tenta dizer-lhe que está numa "paixonite", e a mesma responde que "nunca esteve tão acordada na vida". Foi o primeiro passo para sua independência. Além disto, o homem desata dizendo que "até a pediu em casamento". Therese apenas responde dizendo que "Talvez o problema seja este, eu nunca lhe pedi nada". E este é o real ponto a prestar atenção. Sim, aquela garota que falou isto, é a mesma que quando recebe o primeiro beijo de Carol, diz "me leve para a cama". Sim, o primeiro pedido de Therese. Após estes dois, além da quebra de contato com a mais velha na parte final do filme, são as mais importantes para vermos esta evolução da personagem.

A atuação de Rooney Mara é sóbria e ganha destaque nesses detalhes. Além do final, onde deveria ter sim uma completa dissociação com a personalidade inicial da garota, que foi feita perfeitamente. Não é o papel que mais se tem destaque no enredo, mas que como nosso foco de visão inicial da trama, deveria ter sido feito corretamente. E a atriz deu conta do recado.

Enquanto isto, Carol Aird (interpretada por Cate Blanchett), que aparenta ser uma mulher independente, que vive muito bem, sem problemas, é na verdade controlada pelo marido, o qual não ama. Sim, ela o traiu e o mesmo sabe disto, e a suborna com a filha para impedir o divorcio. O clima na casa vai ficando cada vez pior com o homem, e após a viagem, vemos uma Carol frágil física e psicologicamente. Sem ver a filha, a mulher perde suas forças e esperança.

Quando se depara com Therese, se encanta. Dá atenção a mulher, a trata como dama, algo precioso. A única pessoa que vemos Carol dar importância ao decorrer do filme como dá a Therese é sua filha. Sem as duas, a mulher madura se desfaz, vira uma lembrança do passado. Carol, que apelida suas amadas de "floco de neve" e "anjo caído do céu", vê em dado momento que na mente de seu marido, se ele não pode tê-la, Carol não terá sua filha. Mas a mulher não poderia ficar sem a filha, não é? É o que pensamos quando Therese lê a carta da mais velha. Porém, ao final do filme, também transformada, Carol (em seu limite emocional) abre mão da custódia de sua filha para poder finalmente ter a sua tão necessitada liberdade. Ela terá finalmente as duas garotas de sua filha. Será? O final do filme eu deixo que vocês mesmos vejam e não tenham a devida emoção tirada por minha pessoa.
A interpretação de Cate Blanchett é impecável. Seus detalhes, expressões, improvisos, todos dão mais profundidade, peso à personagem. Ela, assim como Carol, têm mais destaque do que a outra atriz/personagem. É o centro da atenção do espectador, e nos deixa estasiados como Therese. Além disto, Cate Blanchett também é produtora executiva do filme. Talvez por isto também a vemos tão empenhada e apaixonada pela obra.

E isso que nem falei da química das atrizes no filme. É divino, de outro mundo. Sem mais.

Tudo o que tenho para a obra até agora são elogios. Vi a seção estasiada, vidrada, apaixonada. Escutei cada instrumental, vi cada detalhe. Não sei se esta será a mesma que você leitor(a) terá, mas digo para preparar seus olhos e ouvidos, pois se prestar atenção, esta pode ser uma das melhores seções de cinema que poderá ter em anos. Pelo menos eu espero que seja.

Por Fim

Carol é um excelente filme, que contém duas protagonistas muito cativantes onde você pode se espelhar muito se tiver tido algum tipo de experiência próxima à delas. De igual qualidade é a química entre as atrizes, que envolvem o filme de uma atmosfera amorosa até o ápice. Além disto, achei os personagens de apoio (mesmo os que não aparecem muito) bem feitos e carismáticos.

Na minha opinião, claro que o filme gira muito só em Carol e Therise, e que poderia ter mais momentos entre Carol e sua filha. Porém, acho que é justamente vê-la pouco com a menina que nos deixa agoniados junto da mulher pela recuperação do direito de visitá-la.

E uma das melhores coisas da obra é sua capacidade de nos convencer de sua veracidade, pois o que vemos não parece um filme gravado em 2015 que tenta parecer os anos 50, mas sim que tudo se passa verdadeiramente na época. A caracterização, ambientação e sonorização do filme são perfeitos para este objetivo.

Pode parecer coisa de fã de filmes lésbicos, mas Carol está no meu coração pelo modo de sua retratação do tema e sua capacidade de empatia em mim. Gostaria de saber se mais alguém teve este sentimento, e se não, por quê.



A única coisa que poderia mudar, levemente, seria a "vilanização" dos homens no filme. Não me deixou inquieta ou incomodada, mas não sei o que um homem "cis hétero" acharia disso.

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Até logo! o/

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5 Responses so far.

  1. Rhina says:

    Boa noite, Se-Chan.
    Eu já estava interessada em assistir agora ainda mais.
    Adorei sua resenha.

  2. Nue says:

    Ando um pouco saturada de histórias onde a problemática maior é sair do armário/se ver apaixonada por uma pessoa do msm sexo/descobrir a si mesmo, mas to bem curiosa pra ver Carol. Cate é maravilhosa demais e tenho simpatia pela Roonie desde Millenium <3

  3. Anônimo says:

    Olá pessoal do blog!

    Adorei este post e revolvi comentar.

    Assisti ao filme e também gostei bastante dele, porém discordo da autora do post em relação à vilanização dos homens na película. Na minha percepção, ela não existiu.

    Acredito que o personagem masculino de maior destaque (o marido da Carol) agiu exatamente da maneira que a sociedade daquele período esperava de um homem. Não o culpo; ele, como a grande maioria, foi condicionado desde pequeno a ser o "chefe" da casa e trabalhar para manter o status quo da família "perfeita". Por isso ele não espalhou o caso extraconjugal dela aos quatros ventos, e fez tudo o que fez nos "bastidores" sem que ninguém de fora interferisse. Manchar a reputação dela também mancharia a dele.

    Uma observação pessoal: lá pela metade da história, eu já estava convicta que a mesma acabaria em alguma tragédia. (algo comum nos filmes que retratam a homossexualidade). Felizmente esse não foi o caso.

  4. AssistI o filme, mais o final me intrigou. Therense foi atrás de Carol para ficarem juntas? Sou péssima para interpretar finais assim. ��

  5. Se-chan says:

    Oi Thays!

    Pois então, o final pode parecer mesmo dúbio. Porém, eu interpreto como ela indo até Carol para elas ficarem juntas. Porém, isso não quer dizer um "felizes para sempre".
    Mesmo assim, acho que é um final "feliz", já que Therese está mais amadurecida e Carol tem finalmente alguma liberdade de ser quem é.

    Muito obrigado pelo comentário!

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