Posted by : Lilian Kate Mazaki quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Olá a todos!

É com uma grande alegria que hoje trago aos leitores do Kono-ai-Setsu a segunda minissérie original totalmente yuri. Nem parece, mas já faz mais de um ano desde a finalização de "Clarisse e Alex" e nesse meio tempo estivemos trabalhando bastante na parte literária para trazer mais conteúdo de qualidade para vocês.

A ideia é ir cada vez mais longe, mas, por hoje, vamos começar a acompanhar Circunstância, a trama de Diovana e Amanda, duas mulheres que não tem nada em comum, mas que vão ter seus caminhos cruzados por um capricho do cotidiano.

Uma trama bem mais séria do que as anteriores já publicadas aqui no KaS, dividida em 10 capítulos (com possibilidade um ou dois extras) a serem lançados semanalmente. Vocês poderão acompanhar aqui no blog ou também no Wattpad, plataforma voltada para a publicação de literatura online.

Sem mais delongas, fiquem com o primeiro capítulo de Circunstância.



Circunstância
Parte 01 - Factual


A noite no centro da tumultuada Silveria era tão iluminada e agitada que os transeuntes sequer reparavam na ausência do Sol. Mesmo naquela noite de quinta-feira, tomada pela chuva pesada, as pessoas iam e vinham no mesmo ritmo frenético, dividindo o espaço apertado das calçadas entre si e os guarda-chuvas. Histórias de vida terminando e começando por todos os lados, tão comum que ninguém era capaz de perceber em detalhe. Encontros e desencontros que mudavam o rumo de vidas inteiras poderiam muito bem acontecer naquela noite, como em qualquer outra, e jamais seriam notados por quem olhasse do modo vago como se faz nesses tempos.

A chuva castigava a cidade, transformando a poeira do calor do dia em sujeira e lama pelas ruas que rapidamente alagavam. Passava das onze e meia da noite e os últimos retardatários saídos de escolas e empresas se apressavam para conseguir pegar a condução para casa.

Diovana correu até a entrada da estação de metrô tentando proteger-se da água com os braços. Parou às escadarias, encharcada, a camisa preta colada ao corpo. Arrepiou-se com a brisa que veio do corredor subterrâneo e esperou recuperar um pouco do fôlego para retomar o caminho.

Ao cruzar a catraca eletrônica Diovana pode escutar o som do metrô se aproximando da estação e apressou o passo. A meio caminho, quando o longo veículo estacionou, acabou escorregando nos próprios sapatos ensopados, levando os braços por reflexo para se apoiar no que havia mais próximo:

— Woa! — exclamou uma jovem mulher de cabelos claros e e curtos ao ser puxada por Diovana sem prévio aviso.

— D-Desculpe. — pediu a mulher alta e morena, ainda sem ter recuperado o equilíbrio. Para sua surpresa a outra segurou-lhe ambos os braços, ajudando para que não despencasse de vez. — Obrigada e me desculpe mais uma vez.

— Não foi nada. — respondeu a mulher, com um sorriso. Seus olhos permaneceram nos de Diovana por um instante demorado antes de desviar para o veículo parado com as portas abertas a alguns metros. — Ah, você também vai pegar o R10? Talvez. . .

— Ah, sim, claro. — concordou Diovana, afastando as mãos que ainda se apoiavam na desconhecida, sem jeito. As duas embarcaram e logo a condução começou a se locomover com velocidade pelos túneis subterrâneos.

As duas desconhecidas foram as únicas a embarcar no quinto vagão e sentaram em lados opostos, a uns três acentos de distância. O som do maquinário pesado movendo a imensa cobra de aço terra à dentro encheu o ar, trazendo à Diovana a sensação costumeira de anestesia dos sentidos. Para evitar cair no sono, a morena pegou o celular e fones de ouvido, buscando a sua playlist mais casual para encher-lhe os ouvidos.

Os minutos sempre transcorriam muito rápido àquela altura do dia para Diovana, mas daquela vez havia algo de diferente. Uma inquietação que não lhe permitia deixar-se levar pelas letras forçadas de sua cantora preferida, nem mesmo lhe deixava recostasse melhor no banco duro de plástico do veículo.

Seus olhos sabiam melhor do que ela o que estava acontecendo. A cada par de segundos eles se voltavam para a direção da desconhecida que a ajudara anteriormente. Ela parecia bem mais jovem do que ela, apesar de que isso poderia ser apenas a impressão acentuada pelas suas roupas bastante casuais, camiseta com estampa de herói americano e jaqueta clara. Mesmo com o conjunto não estando justo, isso não escondia a forma bem cuidada da desconhecida. Rosto, cabelos, corpo. . . Tudo muito bem harmonizado dentro daquele estilo moderninho casual.

Diovana decidiu tentar ler no celular para não dar tanta bandeira, mas sua concentração não lhe permitia passar do primeiro parágrafo do bestseller do momento que um colega de serviço tinha conseguido baixar no seu aparelho. Para sua sorte a a desconhecida estava parecendo bastante absorta, lendo alguma coisa em um tablet da marca da maçã. Além de tudo tinha dinheiro. . .

Alguns longos minutos depois a estação de Diovana foi anunciada pela voz automática. Quando caminhou para a porta passou na frente da outra e esta levantou o olhar. As duas se encararam esta sorriu da mesma maneira simpática de antes. Diovana acenou minimamente com a cabeça, sem se deter. Logo ela estava na plataforma vazia da estação.

Apesar de ter sido banal, aquele acontecimento permaneceu nos pensamentos de Diovana, mesmo na manhã do dia seguinte.


Parte 02 - Nunca tão distante


Em uma casa  de aspecto antigo, em uma cidade pacata próxima da capital o som de discussão era tão alto que escapava pelas janelas para os vizinhos. Já faziam alguns meses desde a última vez em que se vira aquele tipo de confusão na casa dos Soares, porém, bastara a filha retornar para que mais uma vez o escândalo fosse audível.

Diovana saiu pela porta da frente, dando um pontapé para fechar a passagem atrás de si. Os gritos da sua mãe a seguiam e ela apressou o passo. A porta da casa voltou a se abrir e ela pode ouvir com mais clareza os últimos insultos daquela visita:

— E não volte mais nessa casa se não for para ajudar! — esganiçou-se a senhora de pouco mais de cinquenta anos. Seus cabelos, apesar de pontuado por fios grisalhos nascidos desde a última coloração, tinham o mesmo sentido dos de Diovana. — Ele é seu pai, Diovana! Você deve tudo a ele!

A filha estancou no lugar, a mão na maçaneta do portãozinho de meia altura que separava o jardim da rua. Seu corpo inteiro tremia. As palavras quase explodiram da sua boca para fora, mas ela as engoliu sentindo uma dor nos músculos do pescoço. Saiu sem olhar de volta para a casa e se afastou a passos rápidos e fortes.

Ela devia tudo a ele? Com certeza! Devia todos os anos de frustração e medo. Devia todo o ódio que transformara em motivação para afastar-se daquela maldita casa. Sim, Diovana devia tudo o que era aos seus pais. Os melhores pais do mundo. Aqueles que lhe olharam atravessado a cada dia que ela mostrou não ser capaz de ser a princesinha que tanto haviam sonhado criar.

Ainda com as mãos trêmulas Diovana catou a carteira de cigarros, acendendo o fumo e tragando com toda a capacidade dos pulmões, deixando a fumaça sair lentamente pelas narinas e boca.

E daí se ele estava internado? Foda-se se ele estava morrendo! Diovana já se sentia morta a muito tempo e nada lhe bastaria como vingança:

— Eu sou um monstro. — disse à si mesma, já chegando à estação onde o ônibus para a capital aguardava o horário para sair. Terminou o fumo e atirou a ponta restante na lixeira mais próxima. — O monstro que eles criaram.

Dez minutos depois, já dentro do ônibus, Diovana fintou a paisagem já começando a se movimentar e seus pensamentos enfim começaram a mudar de rumo. O veículo sacudia muito. Era um modelo muito antigo e sucateado. Porém o barulho excessivo do motor se mostrou uma ótima distração.

Depois de algum tempo observando a estrada mal-cuidada que ligava o interior à capital, buscando na memória qualquer pensamento que lhe desligasse do amargor na boca do estômago, Diovana terminou por lembrar da noite chuvosa no metrô. Desde aquele dia ela havia passado a buscar com os olhos a figura daquela mulher tão simpática, sem qualquer sucesso. Provavelmente jamais a veria novamente, o que era um pouco triste. Diovana preferia deter-se em lembrar do seu semblante sereno ao ler. Era fácil, por algum motivo parecia ter gravado aquela imagem à tinta na sua memória.





Amanda observava a decoração excessivamente pomposa da sala do apartamento de seus pais. Era domingo e ela havia vindo para o almoço. Era sua rotina. Depois dali provavelmente só lhe restaria voltar para casa e gastar o restante das suas horas de liberdade com algum jogo online.

A projetista de software, de emprego invejável para sua idade, líder de uma equipe de mais de dez pessoas em uma empresa de importância no cenário regional era a típica filha única de um casal de classe média alta. Tinha seu próprio apartamento e uma quantidade razoável de dinheiro guardada no banco. Sua vida era tão tranquila que ainda era capaz de sonhar com alguma reviravolta no seu futuro.

Apesar de que, naquele momento, sua maior preocupação era terminar logo o chá, antes que sua mãe começasse a puxar conversa demais:

― Como está o trabalho, filha? ― perguntou Fátima, uma mulher de cinquenta e poucos anos que transparecia saúde. Era uma funcionária pública de cargo antigo, mas que não havia se acomodado com a vida.
― Tudo ótimo, mãe. ― respondeu Amanda, percebendo ter sido seca demais. ― Alguns projetos me fizeram ter trabalho extra, mas nada fora do comum.

― Entendo. Deve ser muita responsabilidade. ― comentou Fátima. ― E fora o trabalho, o que tem feito?

“Lá vem ela” pensou Amanda, franzindo a testa de leve, tomando um gole maior de chá, entristecendo ao ver que ainda faltava um tanto para terminar:

― O de sempre. Alguns jogos, cinema. . . Esses passatempos de cê-dê-efe. ― desconversou.

Sua mãe nada disse, chamando a atenção de Amanda, que virou o rosto para encará-la. Fátima fintava o rosto da filha com seriedade. Só aí a jovem percebeu que estava caindo na armadilha:

― Estava me perguntando se você não estaria namorando alguém, Amandinha.

A programadora levantou de um salto. A exasperação evidente na sua expressão e voz:

― O-Olha, mãe, não tem nada para falar desse assunto, ok? ― rosnou a jovem. Tinha que sair dali. Sem dizer nada se direcionou à saída.

― Amanda. ― chamou a outra mulher.

Amanda parou, a mão já na maçaneta:

― Você sabe, eu estou aqui para ouvir o que você precisar me contar. Você sabe disso, não é filha? ― disse Fátima, a voz grave.

― Não tem nada pra ser dito, mãe. ― respondeu Amanda, saindo e batendo a porta um pouco mais forte do que esperaria.

Já no elevador, Amanda ainda podia ouvir ressoando as últimas palavras da sua mãe. Aquela não havia sido a primeira, nem a segunda vez que dissera aqueles disparates.

Como se ela fosse mesmo dizer, em pleno sofá da casa onde crescera, compartilhar com a sua mãe as suas desventuras amorosas. Não tinham ninguém para apresentar aos genitores. E mesmo que tivesse, como o poderia fazer?


[Continua]

2 Responses so far.

  1. Caramba, já tem um ano desde Clarisse e Alex? que vórtice temporal é esse m que me meti? o tempo passa mais rápido do que devia.

    Enfim, gostei do início da nova história, e já de cara vejo que melhorou bastante, tomando o tempo certo para contar as coisas, e descrevendo bem mais do que antes.

    Pessoalmente, gosto de textos com bastante descrição, onde se pode enxergar a cena perfeitamente em detalhes. Saber equilibrar isso para que não fique lento demais, fazer o texto ter a densidade certa de informação por espaço é uma das características que acho mais importantes em qualquer texto.

    Tá de parabéns.

  2. @Alain

    Obrigada pelo comentário, Alain, e desculpe pela demora em responder!

    O tempo voa, não é mesmo? Incrível que, mesmo tentando sempre produzir mais, sempre leva um certo tempo até ter coisas novas para compartilhar com vocês.

    Esses seus comentários lisonjeiros me deixaram sem resposta. Só posso agradecer pela leitura e dizer que, com muita responsabilidade, espero continuar fazendo um bom trabalho.

    (Logo logo sai mais da história no blog.)

    Até breve o/

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